Universidade é inútil?

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A universidade não forma apenas profissionais; forma cidadãos. Gente que convive com diferenças, que aprende a dialogar, que questiona dogmas religiosos usados como instrumento político, que resiste à moralização seletiva e à violência simbólica disfarçada de tradição.

A hostilidade da extrema direita ao acesso amplo dos nossos filhos à universidade não é acidental nem fruto de ignorância ocasional. É um projeto. E, como todo projeto de poder, tem razões muito claras.

A primeira delas é econômica. A universidade forma sujeitos mais qualificados, mais conscientes de seus direitos e menos dispostos a aceitar qualquer salário, qualquer jornada, qualquer forma de exploração. Para um modelo que depende de mão de obra barata, submissa e descartável, jovens críticos e diplomados são um problema. Gente que estuda faz perguntas. Gente que faz perguntas não aceita ser tratada como peça de reposição.

A segunda razão é a emancipação do pensamento. A experiência universitária, quando saudável, expõe o estudante à diversidade de ideias, à ciência, à filosofia, à história, ao pensamento crítico. Ensina a ler o mundo para além de slogans, a desconfiar de respostas simples para problemas complexos. A extrema direita, que se alimenta do medo, da desinformação e da obediência cega, sabe disso. Por isso investe tanto na demonização das universidades, chamando-as de “doutrinadoras”, quando o que realmente teme é a autonomia intelectual.

Há ainda a dimensão política. Pessoas com maior escolaridade tendem a compreender melhor as estruturas de poder, as desigualdades sociais, os mecanismos de manipulação e as estratégias de concentração de renda. Não por acaso, a extrema direita aposta em discursos anti-intelectuais, glorifica a ignorância como virtude e transforma o desprezo pelo conhecimento em identidade. Um povo que pensa é mais difícil de governar pelo ódio. Um povo que estuda é menos manipulável.

Some-se a isso o interesse em manter hierarquias rígidas. Quando filhos de trabalhadores, de pobres, de periferia e de minorias entram na universidade, eles rompem lugares historicamente impostos. Passam a disputar espaços de decisão, produção de saber e liderança. Para projetos autoritários, isso é intolerável. É mais confortável que cada um “saiba o seu lugar” e não ouse sonhar além do que lhe foi permitido.

Por fim, há o medo da transformação cultural. A universidade não forma apenas profissionais; forma cidadãos. Gente que convive com diferenças, que aprende a dialogar, que questiona dogmas religiosos usados como instrumento político, que resiste à moralização seletiva e à violência simbólica disfarçada de tradição.

Por isso, a extrema direita prefere nossos filhos longe das faculdades e perto do trabalho precarizado, da fé instrumentalizada e da obediência sem reflexão. Defender a universidade pública, gratuita e de qualidade não é elitismo. É um ato de resistência. É afirmar que nossos filhos não nasceram para servir calados, mas para pensar, criar e transformar o mundo.

Autor: Hermes C. Fernandes. Também escreveu e publicou no site “Tire as sandálias dos teus pés”: www.neipies.com/tire-as-sandalias-dos-teus-pes/

Edição: A. R.

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