Uma importante imersão na vida e obra de Eça de Queiroz

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Repercutimos, nesta matéria, a primeira atividade denominada Momento Cultural da APLetras (Academia Passofundense de Letras) no ano de 2026. Na oportunidade, o confrade desta valorosa Academia, Senhor Luiz Juarez Nogueira de Azevedo fez uma importante imersão na obra do escritor português Eça de Queiroz.

O evento ocorreu no dia 07 de março de 2026, na sede da APLetras, contando com ampla participação de pessoas interessadas em leitura e literatura.

Publicaremos, a seguir, o texto do palestrante Luiz Juarez Nogueira de Azevedo, destacando a sua eloquente intervenção e entendimento sobre a literatura, de modo especial referindo-se ao autor Eça de Queiroz.

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A INTEMPORALIDADE DE EÇA DE QUEIRÓS

Desde a minha juventude, venho lendo e, de tempos em tempos, releio os romances, crônicas e a produção jornalística de Eça de Queiroz. O número de suas produções é impressionante, passando os livros, traduzidos em mais de trinta idiomas, de duas dezenas.  Também li as suas melhores biografias, das quais me servi para este estudo.

I.

Antes de mais nada, desejo agradecer à direção desta Academia de Letras, na pessoa do presidente Gilberto Cunha, pelo honroso convite, que não poderia declinar, para participar como palestrante do primeiro evento cultural promovido sob a administração recém começada.

No meio de escritores de invejáveis méritos, poetas, prosadores, memorialistas e historiadores, aficcionados à arte e à cultura que integram o nosso sodalício, receio não poder dizer nada que não seja sabido e ressabido.

Neste círculo acadêmico sou dos poucos que nunca publicaram um livro que possa chamar de seu. Apenas, há mais de sessenta anos, colaboro na imprensa local e, nesse tempo, como fiz enquanto docente da Faculdade de Direito e procurador do Estado, participei de publicações coletivas, na Revista da Procuradoria Geral, na Revista da Faculdade de Direito, depois denominada Justiça do Direito, e também na preciosa Água da Fonte, a obra prima imperecível, viva e vibrante, de Paulo Monteiro e Gilberto Cunha, nosso atual presidente. Nesta, principalmente, sempre generosamente acolhido por seus editores, tenho estado sempre presente no afã de corresponder à honrosa condição de membro desta Academia.

II.

Portanto, é como leitor e não como escritor, que aqui me apresento.  Sei muito pouco de teorias literárias e não  me tenho como crítico ou especialista nessa matéria.

Devo confessar, entretanto, que, há muito tempo desde o curso ginasial no antigo Ginásio Osvaldo Cruz, quando funcionava no vetusto prédio da Praça Tochetto, e no Clássico do Conceição, afeiçoei-me profundamente à literatura portuguesa e à sua constelação de poetas e prosadores.  Antes disso, com a clássica “Anthologia Nacional” herdada do meu pai, repassei, entre outros, Camões, Vieira e Bernardes, Castilho, Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Almeida Garret e Alexandre Herculano, até conhecer José Maria Eça de Queiroz.

Foi do meu pai que herdei o apreço por Eça. Conservo na minha biblioteca preciosas edições da Livraria Chardron, como esta, de 1924, mais que centenária, autografada por meu pai.

Para mim, Eça foi e ainda é, em todas as épocas o maior de todos. Somente se lhe compara, como romancista, no nosso idioma, o insuperável Machado de Assis. Eça e ele foram contemporâneos e se admiravam mutuamente. Na opinião dos críticos e dos leitores, eles  disputaram e continuam a disputar o primeiro lugar entre os autores em língua portuguesa.

Claro que a literatura portuguesa, paralelamente à que se desenvolveu deste lado do Atlântico, não estacionou em Eça de Queiroz. Depois dele, em Portugal, muitos vieram. Nomes como Aquilino Ribeiro, Fernando Pessoa, Agustina Bessa Luís e José Saramago, prêmio Nobel de Literatura, continuam a encantar-nos com sua arte de escrever textos cada vez mais perfeitos na poesia e na prosa.

III.

A história de Eça de Queiroz começa com seu nascimento em circunstâncias dramáticas. Ele iria nascer na Póvoa de Varzim, localidade praieira na região do Porto, onde estive uma vez de passagem.

Seu pai e sua mãe não residiam na localidade.  Ela viera em segredo para o parto porque ainda não estavam casados. Consta que ela era de forte temperamento e, embora grávida do pai de Eça, também chamado José Maria, por algum motivo resistia ao casamento. Por isso o recém-nascido viveu seus primeiros anos numa localidade próxima, — Vila do Conde — separado dos pais, na companhia da madrinha Ana Joaquina Leal de Barros. Somente quando do casamento dos pais, quatro anos depois, sua existência foi revelada e ele foi levado para a moradia da família, que se estabelecera em Lisboa, onde seu pai era juiz de direito.

Um dos biógrafos de Eça, Campos Matos, observa que as circunstâncias do seu nascimento viriam a “deixar marcar visíveis no seu comportamento e na sua obra”.

Ao atingir a idade escolar, tendo a família se transferido para o Porto, o jovem Eça foi matriculado no Colégio da Lapa, pertencente a uma ordem religiosa, onde permaneceu entre os anos de 1856 e 1861. Nele, José Maria teria passado “tempos amargos, amenizados apenas pelas férias que passava não com os pais, que viviam então no Porto, mas na casa da tia materna Carlota, que residia também nessa cidade, na rua da Cedofeita, e tinha duas filhas jovens”.

Não demorariam os tempos de Faculdade de Direito, que cursou na Universidade de Coimbra. Pouco afeito aos estudos jurídicos, preferia as leituras e a literatura, especialmente a francesa. Naquele ambiente estreito e autoritário prevalecia a autoridade do reitor-déspota Basílio Alberto de Souza Pinto. Em passagens frequentes da sua obra, Eça critica acerbamente a atmosfera da Universidade ao mesmo tempo em que manifesta a excelente recordação, que manteve pela vida afora, do cenário estudantil. Nos romances A Capital e Os Maias é constantemente evocado o ambiente coimbrão que tão decisivo foi na sua formação literária e ideológica.

Em junho de 1866 Eça conclui a sua formação em Direito e volta a habitar na casa dos pais, num 4º andar, nº 26, do Rossio, a praça central de Lisboa.  Forma nessa altura um local de convívio de amigos, parte dos quais vindos de Coimbra, a que chamavam O Cenáculo, a todo o tempo inspirado pela marcante personalidade de Antero de Quental. No seu horizonte literário fervilhavam os principais nomes da literatura francesa: Proudhon, Renan, Taine, Balzac, Vitor Hugo, Comte e Flaubert.

A instâncias de seu pai, magistrado prestigioso, futuro ministro da Justiça e do Superior Tribunal do Reino, Eça deverá partir para Évora para uma experiência jornalística de grande fôlego: dirigir e redatar sozinho um jornal do Partido Histórico, de oposição ao governo da época, cujo título era O Distrito de Évora. Durante oito meses ele põe à prova seus dotes de escritor. Cria folhetins, artigos de fundo e tudo o mais, envolvendo-se também em polêmicas. É quando tenta, também, sem êxito, exercer a advocacia, profissão que sempre rejeitou.

Retornando a Lisboa, reencontra seus companheiros do Cenáculo, principalmente com Ramalho Ortigão. Junta-se a Antero de Quental e Batalha Reis para criar o grupo Satânicos do Norte, que defendia uma outra forma poética para corresponder ao realismo no mundo da poesia.

Em outubro de 1869, Eça parte com Luís de Castro, conde de Resende, para uma viagem ao Oriente (Egito e Terra Santa). O pretexto da viagem foi a inauguração do Canal de Suez, a que ambos assistiriam, o que seria contado detalhadamente n’O Egito, obra publicada postumamente.  Sua experiência no Egito e na Terra Santa foi aproveitada n’A Relíquia, onde é narrada a trajetória do irrequieto Teodorico Raposo em sua passagem por aquelas terras.  Na sua jornada, Eça e Resende estiveram    depois no Cairo, Heliópolis, Gizé, Sakarah e Mênfis. Do Cairo partiram para a Palestina, indo até Jerusalém, onde conheceram o Santo Sepulcro e a Mesquita de Omar. Depois seguiram   para  Betânia, Belém e o Mar Morto e  voltaram  a Jaffa,   na Síria, para visitar Beirute.  No Oriente Eça e Resende ainda encontraram gentes, costumes e paisagens como eram nos tempos bíblicos.  

Ao   regressar à pátria, soou para Eça a hora de cuidar da sua vida e do seu futuro. Esteve alguns meses em Leiria, onde, sempre por influência paterna, tinha sido nomeado administrador do conselho, uma espécie de prefeito. Muito da sua experiência em Leiria é retratado no Crime do Padre Amaro, cujos personagens foram desenhados a partir de figuras que conheceu naquela vila pacata e interiorana.  Lá estão, o grupo de padres, as devotas, o notário, o noivo da Amelinha, ela própria, o sacristão, as alcoviteiras e outros protagonistas.

 

Em seguida, Eça iria se submeter a concurso para a carreira consular, de onde partiria para representar Portugal em diversos lugares do mundo. Foi aprovado em primeiro lugar e seu destino seria a Bahia. Por influências políticas mais poderosas, seu destino foi trocado pelo consulado de Havana, em Cuba, que ainda se encontrava sob o domínio da Espanha. Lá permaneceu apenas por onze meses. O restante do tempo foi aproveitado em viagem aos Estados Unidos, onde viveu turbulentas experiencias amorosas com duas jovens norte-americanas e visitou Nova York, Pittsburgh, Chicago e as cataratas do Niágara.  

Depois seguiu para o seu segundo posto consular, em Newcastle, na Inglaterra, onde chegou em novembro de 1874. Lá se demoraria por cinco anos, de 1874 a 1879.

Esse foi o período mais produtivo de sua carreira literária quando desenvolveu um importante projeto a que denominou Cenas Portuguesas. Dele resultaram O primo Basílio e o Crime do Padre Amaro, romances realistas.

No fim de sua missão em Newcastle, antes da remoção para o consulado em Bristol, Eça iria casar-se no Porto com D. Emília de Castro, irmã do conde de Resende, seu companheiro na jornada pelo Oriente Médio.

Pouco depois do casamento, iria ocupar seu derradeiro posto diplomático: o consulado em Paris. A Cidade-Luz, aonde chegou em 1888, vivia um momento de esplendor e magnitude. Entre o fim da Revolução e a Belle Époque, se convertera em modelo de modernidade e centro cultural da Europa.

Naquela metrópole cosmopolita, o mais importante centro cultural da Europa e do mundo, Eça poderia realizar seus sonhos e aspirações. A cultura francesa para ele sempre fora alimento e inspiração. Ela fez parte das crônicas de sua autoria, publicadas na Gazeta do Rio de Janeiro entre 1880 e 1897. Numa crônica sobre a Europa, de 1888, a França é referida como “a nossa mãe latina’’. Em carta a Ramalho afirmava que “o meu amor pela França que foi e há de ser sempre a nossa mãe, a nossa educadora, que nos ensinava a vestir-nos que nos iniciou com seus livros em tudo o que há de belo, grande e generoso”.

Ao contrário do que se poderia esperar, seus anos em Paris não foram dos mais animados nem estimulantes. Escrevendo incansavelmente, além dos cuidados com a família, funcionário exemplar que era, cumpria escrupulosamente as suas tarefas no consulado. Também continuava a ler, pensar e escrever intensamente. Decepcionava-se com a política e com os acontecimentos da época.

Não há notícia de que tenha feito algum amigo entre os franceses, mas é certo que continuava vinculado a seu grupo dos Vencidos da Vida, a quem revisitava em idas periódicas a Lisboa. Os artigos que escrevia para a imprensa eram conjunturais.

Nos seus anos finais em Paris, Eça se sentia profundamente abatido. Nem mesmo queria saber do que acontecia em Portugal.

Logo chegaria o seu fim. A doença de que padecia havia alguns anos agravou-se subitamente em fevereiro de 1900. Tentou se recuperar com um tratamento em Genebra, na Suíça, onde se fartou da solidão, do tédio, da tristeza e do frio intenso.  No retorno, ao desembarcar do trem, apresentava-se magro, enfraquecido, com uma cor doentia e ar singularmente desamparado. Era o fim. Iria expirar em seu leito na tarde de 16 de agosto de 1900, sob um calor intolerável, recebendo a extrema unção.

IV.

Desde a minha juventude, venho lendo e, de tempos em tempos, releio os romances, crônicas e a produção jornalística de Eça de Queiroz. O número de suas produções é impressionante, passando os livros, traduzidos em mais de trinta idiomas, de duas dezenas.  Também li as suas melhores biografias, das quais me servi para este estudo.

Gostaria de mencionar aqueles de que mais gosto. São, pela ordem, 1º) Os Maias, 2º) A Ilustre Casa de Ramires, 3º) O Crime do Padre Amaro, 4º) A Relíquia e 5º) O Primo Basílio.  De todos eles, Os Maias é reputado como a sua obra prima. Juntamente com O Primo Basílio, os Maias foram objeto de séries televisivas, de grande sucesso no Brasil.

Deixo a dica a todos para que, como eu, leiam e apreciem muito a obra Os Maias.

V.

É o que, nos limites do tempo convencionado, posso dizer sobre Eça de Queiroz e sua obra.

É opinião de todos os críticos e dos leitores de bom gosto que a sua obra é transcendental e intemporal. Sua importância e perenidade ultrapassa um século e cresce cada vez mais.

No paralelo entre Eça e Machado de Assis, para reflexão, peço licença para ler a observação de Arnaldo Jabor a esse respeito:

“O grande Machado atingia subtons que Eça nem tentou, por escolha Machado é mais inglês, Eça é mais francês. Saído dos castelos de Flaubert, Balzac e Zola, que ele “pós-modernamente chegou até a ”plagiar”, Eça funda um realismo caricatural contra as perdidas ilusões ibéricas que passa por traços grossos, pelo riso deslavado, por uma proposital “falta de sutileza” (que resulta depois sutilíssima) na tradição de um realismo quase carnavalizado, sem anseio de transcendência, Machado é mais, digamos, “nauseado”. Deixa-se envolver por um pessimismo que o claro riso de Eça recusa.

Veja também material do evento no Instagra: https://www.instagram.com/reel/DVl5oXxgO_D/?igsh=bnpyZ3AybWJ1OHVn

Passo Fundo, 7 de março de 2026.

Autor:  Luiz Juarez Nogueira de Azevedo

Edição: A. R.

1 COMENTÁRIO

  1. Obrigado LUIZ JUAREZ NOGUEIRA DE AZEVEDO pela confiança no trabalho de edição do seu texto. Sigamos!

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