Uma filosofia do real

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O pessimismo filosófico, nesse cenário, vem nos lembrar que somos humanos, apenas humanos. E, como humanos, somos limitados. Bem limitados. E isso não é um problema.

O anúncio da vinda de Luiz Felipe Pondé a Passo Fundo me levou a reler alguns trechos de suas obras. De modo geral, sempre apreciei seus apontamentos, excetuando-se pequenas discordâncias. Na verdade, o que me atrai é o pessimismo, que eu diria clássico, empregado em seu discurso. Ele conduz a uma humildade intelectual que, pasme, pode até ser vista como arrogância por alguns.

Parece contraditório? É porque é! Justamente por não se prender a tantas certezas, o pensamento de Pondé viaja entre os opostos, trilhando um caminho distante dos absolutismos filosóficos de séculos anteriores. Não por acaso, essa postura é malvista por parte da intelectualidade brasileira, por vezes identificada com posicionamentos políticos acirrados. É o próprio Pondé, aliás, quem afirma não confiar em sistemas de pensamento organizados. Ele prefere, ou aceita, já que talvez não reste outra alternativa, uma postura mais pessimista.

Mas é interessante, antes de incorrermos em erros conceituais, analisarmos o significado do pessimismo. A partir daqui, falarei mais do que me parece, ou seja, do que me apetece — longe de mim buscar uma definição exaustiva.

Quando me refiro a pessimismo, falo de uma postura, uma identificação que tem como principal alicerce a aceitação dos limites do humano. Como diria Nietzsche, tudo é “humano, demasiado humano”. Esse pessimismo, enquanto aceitação daquilo que somos e, por extensão, também do que o mundo é, vai na contramão do espírito forçadamente positivo de nosso tempo. Isso ocorre em duas frentes: seja no sentido filosófico, que projeta um plano positivista de desenvolvimento da ciência e, por conseguinte, do controle do humano e da natureza; seja no sentido de nos forçarmos, a todo momento, a vermos a vida de modo “positivo”.

O sentido filosófico de positivo sugere que, por meio do conhecimento, teremos, necessariamente, uma vida mais feliz. Não nego que o conhecimento possa trazer mais satisfação em certos contextos, mas elevá-lo a uma verdade absoluta é, no mínimo, ingenuidade.

A figura do sábio triste, justamente por saber mais do que devia, é bem conhecida em diversas culturas. Da mesma forma, desenvolver a ciência em busca do controle total das forças naturais não garante, por si só, maior felicidade. Que o digam as duas Guerras Mundiais e o vasto arsenal tecnológico usado para matar…

Contudo, é no sentido do pensamento positivo que o pessimismo, a meu ver, se torna extremamente importante. Vivemos uma onda de exposição na internet que nos leva a querer ser SEMPRE felizes. A positividade é essencial nesse processo. A ordem é ser feliz a qualquer custo, de qualquer maneira — porque, obviamente, existe uma fórmula “certa”; você só precisa descobri-la.

O pessimismo filosófico, nesse cenário, vem nos lembrar que somos humanos, apenas humanos. E, como humanos, somos limitados. Bem limitados. E isso não é um problema. Ao nos apontar os limites da experiência, o pessimismo filosófico nos torna humildes, o que, por sua vez, facilita a aceitação da vida e, veja só que interessante, pode nos tornar mais felizes!

Quando aprendemos a aceitar o mundo e, a partir disso, fazemos o melhor que podemos, paramos de projetar no outro o ideal que só existe em nossa mente.

Analise boa parte das tragédias políticas do século XX e você verá que muitas delas ocorreram porque um grupo de indivíduos tentou, a todo custo, implantar no mundo as arrogâncias que traziam em suas doentes cabecinhas! E, se para isso fosse necessário matar centenas, milhares ou milhões, eles estavam prontos a pagar o preço. Nem preciso dizer que isso nunca deu “certo”.

Por essa ótica, considero a vinda de Pondé a Passo Fundo muito interessante. Ele vem para falar sobre Inteligência Artificial, mas, por trás desse tema, carrega toda a sua bagagem, baseada em uma forma clássica de pensar que não hesita em desagradar a gregos e troianos, ficando ao lado da busca de alguma verdade, ainda que longe de ser absoluta.

O evento está sendo organizado pelo Instituto Sétimo Saber, que já trouxe outros autores de renome para Passo Fundo, como Raphael Montes. Sem dúvida, iniciativas louváveis de promoção cultural e literária.

SAIBA MAIS: Inscrição – O Impacto da Inteligência Artificial nas Relações Ministrante: Dr. Luiz Felipe Pondé

https://www.instagram.com/setimosaber

Autor: Aleixo da Rosa. Também escreveu e publicou no site “Professores não sabem nada”: www.neipies.com/professores-nao-sabem-nada/

Edição: A. R.

1 COMENTÁRIO

  1. A vinda de Pondé a Passo Fundo muito interessante. Ele vem para falar sobre Inteligência Artificial, mas, por trás desse tema, carrega toda a sua bagagem, baseada em uma forma clássica de pensar que não hesita em desagradar a gregos e troianos, ficando ao lado da busca de alguma verdade, ainda que longe de ser absoluta. (Do autor Aleixo da Rosa)

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