Reparar não significa ressuscitar a borboleta, nem voltar no tempo histórico. Coisas impossíveis. Mas reparar continua sendo possível.
“Um som de trovão”, conto do escritor norte-americano Ray Douglas Bradbury, nos faz refletir sobre o reparar.
Eckels, o personagem principal, vive no ano 2055. Com o avanço da técnica, já foi possível construir uma Máquina do Tempo que permite aos habitantes da Terra organizarem sofisticados safáris ao passado.
Eckels resolve matar um Tyranossaurus rex. Volta no tempo levado pelo guia Travis que o adverte:
– Não queremos alterar o futuro, muito cuidado.
O animal escolhido era caçado segundos antes da hora em que iria naturalmente morrer. E havia que se ter extremo cuidado para não matar mais nada. Nem um rato. Porque, matando um rato, todas as demais famílias oriundas desse rato não existiriam. Por falta de dez ratos, uma raposa morre. Por falta de dez raposas um tigre morre de fome. Dali a milhões de anos, um homem das cavernas sai à caça e não encontra o tigre que iria encontrar e comer. Esse homem morre antes de reproduzir. Significa que milhares de homens não mais nascerão. Um povo todo não existirá.
Eckels não pode pisar fora de uma plataforma suspensa. Ocorre que ele, num erro involuntário, se desequilibra e pisa com a bota direita na relva.
De volta ao ano 2055, Eckels observa que a sala de onde haviam partido estava lá, mas não era exatamente a mesma. O mesmo homem estava sentado atrás do mesmo balcão, mas o mesmo homem não estava sentado exatamente atrás do mesmo balcão. Havia algo diferente no aroma do ar. As mesmas ruas estavam lá mas não eram exatamente as mesmas. O cartaz de propaganda do Safári estava lá, mas algumas letras eram estranhas.
Eckels imagina o pior. Examina seu calçado. Vê barro embaixo de sua bota. Retira-o e verifica que, misturado com ele, há uma borboleta morta. Que horror, matara uma borboleta! Matar uma borboleta não podia ser tão importante assim! Podia! O planeta não era mais exatamente o mesmo.

Como reparar?
Não poderá fazer a borboleta viver de novo. Nem a Terra voltará a ser o que era. Eckels acha que não há como reparar e, culpado, pede que Travis o mate. Ajoelhado, vê Travis apontando-lhe um rifle e o último som que ouve é o som de um trovão. E não o de uma bala. Até esse som não era mais o mesmo.
Eckels errou ao não perceber que reparar sempre é possível.
Reparar não significa ressuscitar a borboleta, nem voltar no tempo histórico. Coisas impossíveis. Mas reparar continua sendo possível.
Quando erramos em relação a determinada pessoa, por exemplo, erramos em relação a um “ser humano”. Se não podemos dirigir o ato reparatório a este, podemos dirigir a outro ou a outros “seres humanos”. É a vida possível.
Autor: Jorge A. Salton. Também escreveu e publicou no site “Há um fantasma dentro de nós”?: www.neipies.com/ha-um-fantasma-dentro-de-nos/
Edição: A. R.












Quando erramos em relação a determinada pessoa, por exemplo, erramos em relação a um “ser humano”. Se não podemos dirigir o ato reparatório a este, podemos dirigir a outro ou a outros “seres humanos”. É a vida possível.
Autor: Jorge A. Salton