Um “RASTRO”

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.. fui achando um jeito de me tolerar quando não conseguia. A ouvir e ouvir como um eco: “Vocês se acham com poderes que não têm.

Em uma tarde chuvosa, sob o abrigo do ônibus que nos levaria da universidade ao centro, alguns colegas e eu confessamos o quanto nos sentíamos falhando, deixando a desejar quando nos voltávamos para cuidar apenas de nossas vidas pessoais.

Acabamos, assim, nos envolvendo no Diretório Acadêmico com a ideia de que, pela via da política, nos tornaríamos úteis aos demais. Porém, logo o Diretório foi fechado pela ditadura militar da época. Eram os anos 1970.

Acabamos estagiando voluntariamente em um triste e imenso asilo destinado a mulheres velhas e pobres. Fazíamos bem a elas e a nós. Um colega, um pouco mais velho, nos criticava: “Vocês se acham com poderes que não têm”.

Era fato que, quando percebia minha insignificância, não sentia culpa por cuidar da minha vida, apenas dela. Mas eu não queria ir de um extremo a outro.

Talvez quisesse corresponder às expectativas da minha família em relação a mim. No entanto, ela, pelo que percebia, esperava que eu sobrevivesse com dignidade, que conseguisse ter uma vida construtiva. Nada mais.

A vida na faculdade – e fora dela – foi seguindo. A vida não para, é óbvio. Tive a sorte de encontrar uma área que muito me interessou: a psiquiatria.

Passei a ouvir a história de vida das pessoas e a gostar de ouvir. Passei a fazer plantões voluntários no Hospital Psiquiátrico e a ter a boa sensação de, por pouco que fosse, estar contribuindo para o alívio do sofrimento das pessoas internadas. De gente como a gente.

Fui percebendo que, quanto mais gostamos de algo, menos sofremos nessa vida e mais momentos temos de bem-estar. E contaminamos com felicidade os que nos rodeiam.

E vendo o exemplo, magnífico exemplo, de meus professores Pedro Martinez e Milton Shansis, incorporei a beleza de se fazer algo da melhor maneira que podemos. Aquela sensação de realização por construir algo bem feito.

E fui achando um jeito de me tolerar quando não conseguia. A ouvir e ouvir como um eco: “Vocês se acham com poderes que não têm”.

Em uma tarde de domingo, estava junto a uma lagoa, sentado na areia, quando vi uma jovem mãe observando seu filho de uns dois anos ou um pouco mais colocando e tirando areia de um baldinho.

Houve um momento em que ela se aproximou da lagoa, observando um pássaro que descansava sobre as águas. Chamou seu menino e, ajoelhada ao lado dele, apontou para o pássaro.

Quando dei por mim, estava junto aos dois a ponto de ouvir ela dizer: “É uma marreca!”

Aquela leveza, não sei se é esse mesmo o nome, chegou a mim de repente, como um relâmpago! Um clarão!

Dava, sim, para deixar de fora da minha mente expectativas, deveres autoimpostos e sei lá mais o que e apenas apreciar! Sim, apreciar a vida que “vivia” perto de mim. Como estava a fazer o menininho que apontava o dedinho para o pássaro que, agora, deslizava suavemente sobre a água.

Depois de um tempo que não cabe nas medidas do tempo, nós, os três, vimos as asas do pássaro baterem na água e impulsioná-lo a alçar voo e a desenhar uma sequência de imagens refletidas na lagoa.

Um “rastro” fugaz e belo. Belíssimo.

Autor: Jorge Alberto Salton. Também escreveu e publicou no site “Há um fantasma dentro de nós”?: www.neipies.com/ha-um-fantasma-dentro-de-nos/

Edição: A. R.

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