Quando Deus manda Moisés tirar as sandálias, o gesto é profundamente simbólico. É como se dissesse: toda a experiência que você acumulou no Egito não será suficiente para esta nova etapa.
“Tire as sandálias dos teus pés”, foi o que Moisés ouviu da voz que falava do meio da sarça ardente. Mas não se tratava de um boicote a uma marca de sandálias por causa de uma propaganda. Tampouco de uma cruzada moral contra um comercial que, diga-se de passagem, fala justamente de não acreditar na sorte, de dizer não à superstição, de entrar o ano com os dois pés e não apenas com o direito. Em momento algum se falou em “pé esquerdo”.
Ainda assim, a dissonância cognitiva de alguns os impede de enxergar o óbvio.
Resultado: mais um Natal polarizado. Enquanto isso, as filas em frente às lojas da tal marca seguem aumentando. Há até quem queira presentear o tio bolsonarista com um par de Havaianas, não por afeto, mas por pura implicância. Eis o espírito natalino em sua versão caricata.
Quando Deus manda Moisés tirar as sandálias, o gesto é profundamente simbólico. É como se dissesse: toda a experiência que você acumulou no Egito não será suficiente para esta nova etapa.
Ali, Moisés precisaria desaprender. Precisaria abdicar de certezas, de preconceitos, de presunções. Tirar as sandálias era desarmar-se. Era tornar-se vulnerável. Era pisar, descalço, no chão santo da subjetividade, onde não cabem respostas prontas nem ideologias travestidas de fé.
É exatamente disso que o povo brasileiro precisa agora.
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Menos certezas baratas. Menos cruzadas morais. Menos idolatria política. Mais silêncio. Mais escuta. Mais humanidade.
Boicote o boicote. Você é maior do que isso. Ou melhor, nós somos melhores que isso.
Não caia nessa polarização idiotizante que insiste em reduzir o mundo à lógica empobrecedora do “nós contra eles”.
Vamos dar uma chinelada nessa bobageira toda e sair ao encontro dos nossos de pés descalços.
E aqui, claro, o sentido é metafórico.
Ou, como disse Paulo, com muita sabedoria:
“Calçados com o evangelho da paz.”
P.S. A propósito, por que, ao invés de jogar as havaianas boas no lixo, vocês não doam para alguém que necessite?
Autor: Hermes C. Fernandes. Também escreveu e publicou no site “Quer apostar?”: www.neipies.com/quer-apostar/
Edição: A. R.











