Não fossem as canções, as películas, a crônica, muito de nossa História já teria sumido. Escrever, cantar, fotografar, filmar é tarefa que vai além do escritor, cantor, fotógrafo e cineasta.
Tivemos a maior enchente de todos os tempos em maio de 2024. A cidade restou abalada. As pessoas sofreram perdas. Foram-se bens e memórias. A volta foi um amargo regresso. Depressão, tristeza, desorientação campeiam em nossa alma.
Estamos finalizando junho de 2025 com mais e mais chuvas, alagamentos, obras prometidas e não realizadas. Faz um ano e a cidade começa a alagar.
1.346.000 habitantes em Porto Alegre. 100 mil unidades de habitação, comércio e serviços fechados, para alugar, vender ou nada consta. Mas 60 mil pessoas precisam de moradia.
Fomos a cidade de melhor qualidade de vida. Não somos mais. A Carris foi vendida a troco de nada. E os ônibus atrasam.
Faz frio, pessoas dormem nas gélidas calçadas. CPIs na Câmara. Aquela que analisou as mortes na Pousada Garoa terminou quando fazia 14 meses: só um culpado, o dono. Tiro pela culatra. Os onze mortos estão no silêncio das suas covas.
Vendo as festas juninas pelo país, a festa de Parintins, e nossas se resumindo a festinhas em colégios, alguma pipoca ou quentão aqui ou acolá. Fotografo a pobreza que vem crescendo. Claro que nós vamos ter o nosso 20 de setembro logo ali com carreteiros e churrascadas. Para poucos, é claro.
Convenhamos: somos ou estamos ficando mais tristes.
Mais tristes ao ver as cenas de matanças de Gaza, bombardeios na Ucrânia. Israel joga bombas em Gaza, no Irã, Trump faz seu ensaio com bombas. Tudo se soma às nossas desgraças.
Tomo meu cafezinho e vejo o Globo Rural falar do Mali, do algodão plantado com a assistência da nossa Embrapa. Dá-me algum alento. Sou lembrado, por outro lado, por um malinês, que seu tataravô foi escravo no Brasil, na produção do café. Ainda dói.
Cá fico pensando em músicas, lembrei-me de escutar a Cantata Santa Maria de Iquique. Encontro a gravação do grupo Quilapayún. Hoje, Iquique, Chile, é uma bela cidade que ainda quero conhecer. Quem saberá por lá do massacre de mineiros em 1907. Não deve ter mais sinais dos mais de 3.600 massacrados pelas armas ao comando de um General.
Acabo de ler o livro “João Cândido – Sonho e Castigo”, de Mário Pepo e me doem na alma as mais de cem chibatadas nos pobres marinheiros negros, corpos lacerados.
Números têm almas, sentem a dor, não podem ser esquecidos.
Por que tanta maldade?
Volto para minha Porto Alegre tão fria, gélida, chuvosa de junho: sem solução das comportas que podem não segurar as águas do Guaíba violento e lamacento, trazendo as desgraças de um ano atrás.
300.000 velhos/as na cidade. Onde estão? Nas periferias ficam a implorar medicamentos, nas Emergências esperando cuidados. Nada no site da Prefeitura nem do governo estadual. Foi assim há um ano. Soa em meus ouvidos uma idosa dizendo: “Perdi tudo, e agora?”
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Queria estar escrevendo outra crônica, talvez os “Caminhos da boa mesa”, a chegada dos 150 anos do Chalé da Praça XV, as feirinhas de livros e saraus, o Prêmio Açorianos de Literatura. Mas não, visão, ouvidos, cabeça me são tomados por coisas tristes, porque não se pode fugir da tristeza, como sempre temos que abraçar a alegria, quando ela desponta.
Para encerrar, escrevi na semana uma resenha, ou melhor, apontei alguns elementos do melhor livro que li neste ano: “A Hora dos Predadores”, de Giuliano de Empoli, no qual nos diz “como autocratas e magnatas digitais estão levando o mundo à beira de um colapso orquestrado”.

Não fossem as canções, as películas, a crônica, muito de nossa História já teria sumido.
Escrever, cantar, fotografar, filmar é tarefa que vai além do escritor, cantor, fotógrafo e cineasta.
Façamos nossa tarefa na tristeza ou na alegria.
No momento, os tempos são sombrios.
Autor: Adeli Sell. Professor, escritor e bacharel em Direito. Também escreveu e publicou no site “Sobre o envelhecer”: www.neipies.com/sobre-o-envelhecer/
Edição: A. R.











