Superar a polarização

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No livro de Provérbios 4,26-27 lê-se: “Fique atento às trilhas onde você coloca os pés, e que todos os seus caminhos sejam firmes. Não se desvie nem para a direita, nem para a esquerda, e afaste do mal os seus passos”. Portanto, a recomendação é que, qualquer desvio, seja para um lado ou para outro, pode ser perigoso e ocasionar resultados prejudiciais. Permanecer no equilíbrio é o caminho certo.

Há muita polêmica entre a esquerda e a direita. Há equívocos também. O primeiro deles é achar que dá para dividir a sociedade e o mundo todo entre a esquerda e a direita. Como se não houvesse norte, sul, leste, oeste, extrema direita, extrema esquerda, centro, centro direita, centro esquerda e tantas outras posições. As confusões se dão quase sempre porque não se sabe ao certo em relação a qual ponto fixo, baliza, referência se estabelecem as posturas que são defendidas. E as controvérsias se ampliam quando se passa a achar que tudo na vida são questões político-ideológicas antagônicas que precisam ser combatidas.

Muitas vezes, basta apenas respeitar o diferente ou divergente.

Do ponto de vista político-ideológico, a classificação esquerda x direita surgiu na Assembleia Nacional Constituinte, na França, em 1789, que marcou o início da Revolução Francesa, a qual defendia os ideais iluministas da Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Na ocasião, à direita do presidente da Assembleia sentavam-se os deputados que defendiam a continuidade do antigo regime, a Monarquia absolutista com o rei no poder. Eram conhecidos como girondinos. À esquerda do presidente ficavam posicionados os deputados que desejavam mudanças profundas no regime monárquico. Queriam a República, com a consolidação da soberania popular. Eram conhecidos como jacobinos. Assim, esquerda passou a representar a posição de quem defende mudanças sociais com justiça, igualdade e dignidade. Direita ficou sendo considerada a posição de quem busca conservar o regime vigente, muitas vezes marcado por desigualdades, injustiças e privilégios.

No dia a dia, é fundamental ser sensato.

Significa dizer, é preciso saber distinguir em que situações é melhor, correto ou normal o lado esquerdo; e em que casos é melhor, correto ou normal o lado direito. No peito, o coração pulsa à esquerda. E é normal que seja assim. No trânsito, convencionou-se ultrapassar pela esquerda. E está tudo certo. Igualmente, pactuou-se que o acostamento fica à direita. Quem precisar parar, deverá fazê-lo à direita de quem passa. E não há problemas quanto a isso.

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No livro de Provérbios 4,26-27 lê-se: “Fique atento às trilhas onde você coloca os pés, e que todos os seus caminhos sejam firmes. Não se desvie nem para a direita, nem para a esquerda, e afaste do mal os seus passos”. Portanto, segundo a recomendação do autor do livro sapiencial, qualquer desvio, seja para um lado ou para outro, pode ser perigoso e ocasionar resultados prejudiciais. Permanecer no equilíbrio é o caminho certo.

O evangelista Marcos (16,19) afirma que “depois de falar com os discípulos, o Senhor Jesus foi levado ao céu, e sentou-se à direita de Deus”. Há os que acreditam que a cadeira onde Jesus estaria sentado é uma posição político-ideológica. Equívoco pensar assim, pois que a fé cristã ensina que Jesus veio para salvar a todos os que se dispõem seguir seus ensinamentos.

O texto bíblico foi escrito muito antes do surgimento da polarização entre esquerda e direita. Na antiguidade, sentar-se à direita era considerado o lugar de maior poder e autoridade. E a Bíblia incorporou esta visão, mostrando que Jesus exerceu sua autoridade como serviço, sobretudo aos mais pobres e indefesos.

Por outro lado, ninguém gostaria de perder o olho direito porque ambos são importantes; e nem a perna direita, porque as duas são necessárias. Jesus, no entanto, afirma: “Se o olho direito leva você a pecar, arranque-o e jogue-o fora! É melhor perder um membro do que o seu corpo todo ser jogado no inferno. Se a mão direita leva você a pecar, corte-a e jogue-a fora! É melhor perder um membro do que o seu corpo todo ir para o inferno” (Mt 5, 29-30).

Nota-se que, na Bíblia, direita e esquerda tem outros significados. Algumas questões são objetivas, outras são convencionadas e outras são simbólicas. Distinguir umas das outras é ser sábio. Ideologizar tudo é inadequado e doentio. Facilmente gera intolerância, desentendimentos, ódio e violência.

A temporada de guerras ideológicas já vem de bastante tempo e parece se acentuar em anos eleitorais. Todavia, nesse contexto são fundamentais algumas atitudes como: praticar a escuta ativa; exercitar a comunicação não-violenta; aceitar as diferenças; reconhecer que nem sempre o mais importante é convencer o outro; buscar o silêncio estratégico; selecionar as fontes sérias, buscando informações corretas; evitar propagar fake news; cuidar da saúde mental, evitando exposições a conteúdos violentos ou abusivos; buscar engajamento em vista do bem comum. Não tratar os que pensam diferente como inimigos. Defender a democracia em todas as situações como valor supremo.

A polarização não ajuda a construir a paz necessária. O melhor é caminhar juntos, mantendo a identidade, o respeito e a valorização mútua. Enfim, o pé direito não precisa destruir o esquerdo e nem vice-versa. Ambos, alternando-se no chão e no ar imprimem a boa caminhada!

Autor: Dirceu Benincá. Professor da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e do mestrado em Ciências e Sustentabilidade da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Autor do livro “Terra Sem Males dos Males da Terra”. Também escreveu e publicou no site “Terra sem males dos males da terra”: www.neipies.com/terra-sem-males-dos-males-da-terra/

Edição: A. R.

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