Sobre se permitir deixar ir o que já partiu

1028

Esse gesto silencioso de acolher a dor e aceitar o fim é o que nos permite deixar que certas coisas sigam o seu próprio caminho. É o que nos permite continuar vivendo. Afinal, talvez saber viver seja permitir-se morrer – ao menos um pouco – todos os dias.

Helena estava fazendo um sanduíche simples de pão integral em seu espaço para lá de apertado, chamado de mesinha de preparo ao lado da pia. Enquanto tentava abrir aquelas embalagens de mussarela fatiada, que a gente bem sabe que são difíceis, ela colocou força demais, o negócio abriu, a mão saiu voando, e a xícara, quase na borda da pia onde estava secando, também. Helena olhou para ela espatifada no chão e pensou: aqui jaz. Abaixou-se para recolher os cacos.

Ao mesmo tempo em que uma parte dela se sentia desolada com o “descuido” (se é que dá para chamar de descuido algo que foi totalmente imprevisto), a outra tentava se acalmar com a música da Rita Lee: “São coisas da vida”. Ela até mesmo pensou em fazer o tal do Kintsugi, uma arte japonesa de reparar objetos de cerâmica quebrados, utilizando laca com ouro para unir as partes.

Metaforicamente falando, é um jeito bonito de se recompor dos tantos cacos que a vida faz da gente. Sem esquecer, nem esconder as rachaduras, que também são uma parte de nós.

Obviamente que o Kintsugi dela ia ser uma releitura: com cola e tinta dourada mesmo. Mas, ao olhar para a pobre da xícara – e para a pobre da ideia de adaptação -, Helena concluiu ser um dos casos sem salvação. Era só juntar e enterrar… ou melhor, colocar no lixo. Mas, ao tocar o chão para recolher o primeiro caco, ela sentiu uma força gravitacional e resolveu sentar ali mesmo. Não sei… algo naquela cena, além de poético, parecia materializar um pouco de tudo que Helena estava sentindo.

– Eu poderia dizer que esta xícara morreu? Mas ela nem vida tinha… ou tinha? E por que mesmo o oposto da vida deve ser a morte?

Já fazia um bom tempo que Helena observava uma espécie de padrão dualista da mente. Que não apenas colocava dois conceitos em oposição, mas logo escolhia um como bom e o outro… eu nem precisei terminar de escrever, você mesmo já deve ter pensado em “ruim”!

Então, se a vida é boa, o que sobra para a morte?
– Que papo de maluco! Pensou Helena. Quer dizer que a morte é boa?

Não sei se é bem aí que eu gostaria de chegar. Na verdade, queria apenas dizer que a morte é um conceito pouco explorado. Pode até mesmo soar paradoxal, ou seja, como explorar a morte em vida?

Mas, a palavra “morrer” deriva do latim clássico e possui certo sentido de “cessar a existência”.

Bom, aqui já fica mais fácil alegar que aquela xícara, enquanto xícara, cessou de existir. E mesmo que ela não tivesse “vida” nos padrões eventuais daquilo que se mexe, é orgânico e tem certa complexidade, ela tinha lá sua utilidade bem estabelecida – que também se foi.

E sabe… a gente se apega muito a vida por uma cola forte e grudenta chamada de emoções. Ainda mais porque a xícara foi um presente da avó, que também já se foi.  Isso explicava o choque, e os cacos da Helena no chão. E o pior mesmo são as memórias que já não se sentem preenchidas pela presença. Como uma alma precisando de um corpo, elas voltam para encontrar o que foi, sem nunca mais poder ser.

Nisso Helena respirou fundo, como quem recolhe os próprios pedaços, e depositou os cacos no lixo com uma delicadeza quase ritual. Sabe… há algo profundamente alentador quando conseguimos soltar. Encerrar. Colocar um ponto onde não há mais espaço para vírgula.

Esse gesto silencioso de acolher a dor e aceitar o fim é o que nos permite deixar que certas coisas sigam o seu próprio caminho. É o que nos permite continuar vivendo. Afinal, talvez saber viver seja permitir-se morrer – ao menos um pouco – todos os dias.

Autora: Ana P. Scheffer. Também escreveu e publicou no site “Não está tudo bem”: www.neipies.com/nao-esta-tudo-bem/

Edição: A. R.

2 COMENTÁRIOS

  1. Um texto carregado de sentimentos que perpassam as situações triviais, sensibilizando-nos e estimulando-nos a tornar as nossas vivências do dia a dia mais ricas internamente. Quase poesia em prosa.

  2. Gostamos muito do seu retorno com escritos ao site, autora Ana Paula Scheffer. Bem-vinda! Bem-vindos os seus textos, sempre reflexivos e ricos de conteúdo humanizante!

DEIXE UMA RESPOSTA