Uma vida, ou várias, sem valor diante do objetivo de manter o poder. Essa é a história das mulheres, mas também da humanidade.
Eu não sei você, querida(o) leitora(o), mas, se é o sol em Marte ou a lua em Saturno, a questão é que 2026 começou com um ar de:
REVOLUÇÃO!

Isso parece algo irrelevante, mas é um dos principais processos da terapia.
Dar nome às experiências ativa circuitos cerebrais ligados ao pensamento consciente e ajuda a reduzir a intensidade da reação emocional; além da ajudar a processá-la.
E quando dão um nome diferente ao que de fato você sente que é, isso pode mesmo criar uma narrativa ilusória e esconder gravidades. Exemplo da GUERRA da Rússia contra a Ucrânia, que por lá, dizem as fofocas da internet, chama-se Operação Militar.
Falando nisso, presumo que a palavra “Revolução”, associada à imagem anterior, pode ter causado justamente esse sentimento de incoerência, não? Guerra, talvez, faria mais sentido para retratar um pouco do que estamos vivendo.
Porém, é sobre o ESTUPRO que eu gostaria de falar hoje. (Oi?)
Essa palavra mesmo, que faz a gente sentir um certo incômodo ou até mesmo vergonha só de ser mencionada. Ela deriva do termo latim stuprum, que por sua vez vem de stuprare, que significava desonrar sexualmente, corromper, violar. Curiosamente, ele também está ligado à raiz stupere, que significa ficar atônito, paralisado, estupefato (reações muito comuns da vítima).
Esse é o sentido literal. Mas a linguagem é um campo fértil, e queria pedir uma licença poética para refletir acerca das possibilidades da palavra que traz à tona aquela sensação deviolação pela força.
Não necessariamente por uma violação de caráter sexual, mas pelos nossos direitos. Pelos nãos que não pudemos dizer. Pela submissão que precisamos engolir.
Sobre tudo aquilo que nos invade sem necessariamente ser um falo.
E quantas vezes não tivemos sequer a oportunidade de nos permitir chamar isso de violência?
Curiosamente, quando estupro e violência ganham a proporção que deveriam ganhar, passam a ter outro nome, principalmente para os coniventes, em algum grau, com o ato: dissimulação e/ou exagero.
Que também pode ser compreendido como a velha e boa estratégia infantil de dar culpa ao outro pela frustração com si mesmo.
Quando não temos explicação para determinados fenômenos que nos beneficiam, chamamos de Deus. Quando precisamos culpar alguém, chamamos a mulher.
Com as ressalvas literárias, também podemos chamar de estupro uma bomba que invade uma escola na cidade de Minab, no sul do Irã, matando cerca de 180 pessoas, principalmente meninas entre 7 e 12 anos. Sendo meninas, a questão passa a ser simbólica e integrar o contexto.
Não é difícil imaginar o Trump envolvido no caso Epstein.
Não é difícil imaginá-lo violando qualquer coisa que seja! Sim, coisa, porque quando não compreendemos a dignidade humana, transformamos o outro em objeto.
Uma vida, ou várias, sem valor diante do objetivo de manter o poder. Essa é a história das mulheres, mas também da humanidade.
Tá, mas e a revolução, Ana?
Sócrates foi condenado a beber cicuta por fazer as pessoas pensarem, por fazer aquilo que acreditava ser justo e necessário.
Nós, mulheres, estamos escolhendo beber cicuta. Porque quando o medo da morte já não é maior que o medo de continuar vivendo caladas, a revolução deixa de ser escolha.
Ela, a revolução, se torna um caminho sem volta.
Este texto é a minha flor para você, no dia Internacional da Mulher e no mês dedicado às reflexões sobre nosso modo de ser no mundo.
Com carinho, e um abraço apertado, a escritora.
Autora: Ana P. Schaeffer. Também escreveu e publicou no site “Não está tudo bem”: www.neipies.com/nao-esta-tudo-bem/
Edição: A. R.











