Obrigado por nos lembrar, Preta Gil!
Sim! Somos seres compostos de fluidos, tecidos e cartilagens, que sequer sabemos como foram formados ou criados.
Carregamos sobre os nossos pés a mais complexa máquina conhecida e criada; inventada ou evoluída, que seja, nada se compara a ela. Os homens a estudam há milênios. Uma dor de cabeça, entretanto, uma prisão de ventre ou um enjoo, deixam de lado nossas perguntas em troca de cura imediata.
Negociamos o que for possível para nos livrar de qualquer tontura, em alguns passos em falso, orientados por uma infame labirintite. Então, tornamo-nos amigos fiéis de estranhos farmacêuticos. Queremos nossa cura, porque passamos a vida pensando que nossos corpos são imunes à decadência ou ao embaraço de células indisciplinas, que podem se multiplicar sem controle.
Somos uma máquina perfeita, em uma cadeia de vasos e artérias, tendões e músculos, vivendo em um ambiente hostil. Nossos corpos não deveriam adoecer, sequer envelhecer. Mas passamos nossas vidas tão centrados em nós mesmos e em nossos interesses, que esquecemos o que de fato somos, além do espírito: corpos físicos a caminho do esgotamento.
A Preta Gil nos deixou um legado inestimável, na música, poesia, em todo o conjunto de sua obra e história. Há pouco, permitiu-nos ver a coragem de quem se apega à vida e luta por alguns dias; até o fim. Permitiu uma transparência incrível nessa sua jornada, pois em nenhum momento escondeu a sua batalha, desde o primeiro fio de sangue em que lhe escorreu pela perna e o tornou público, como alguém que inaugurava uma luta sem trégua: contra o inesperado, o desconhecido, até no combate desigual em que se trava quando a morte escolhe o seu novo alvo. Foi o que ela mesma falou em uma entrevista: um fio de sangue.
Agigantou-se a Preta! Agarrada à vida com suas forças, em sua tentativa de provar o que fosse possível para prolongá-la, não teve medo de se expor, mostrando a todos, que é na iminência de deixarmos esta vida, justamente, quando mais nos apegamos a ela.

Diferentemente do que vemos em certas pessoas, revestidas de poder ou arrogância, em que pensam ser eternas e que seus corpos também não têm prazo a vencer. Tem-se a impressão de que suas entranhas são feitas de aço ou diamante e que pela sua empáfia e soberba, seus intestinos são revestidos de metais nobres.
Compomos uma estrutura maravilhosa e, ao mesmo tempo, apavorante: basta que nossa pele desapareça para que nos tornemos assustadores.
Na verdade, somos corpos nus, disfarçados. Mas nosso interior é um acúmulo permanente de água e sangue, retidos e que torna envergonhado o engenheiro mais astuto.
Mas um dia, todos vamos sangrar. Talvez usemos fraldas. Daí que o mínimo que deveríamos ter nesta vida é uma tremenda compaixão. Por sabermos que somos todos iguais, na matéria em que somos feitos e no destino que a ela é reservado. Rigorosamente iguais, na origem e no fim. E, para os incrédulos, nosso sangue até contém ouro, muito embora em uma quantidade ínfima. Mas ouro!
Somos todos feitos de cartilagens, tendões, vasos, tecidos e ossos. Sangramos várias vezes nessa passagem, carregando conosco pelas ruas o mais complexo sistema estrutural vivo. Moléculas, células, órgãos, membranas e filamentos, nervos, músculos e membros, formam uma trama de conexões, interdependentes, e que ninguém jamais explicou.
Ahh, carregamos resíduos, igualmente, que descartamos todos os dias para a renovação de nossas vidas e para que nossos corpos continuem em frente.
Vendo pessoas que se têm em conta demais, muito além do que realmente são, que pensam ter poder sobre a vida e a morte dos outros – poderosos, governantes passageiros, políticos pretenciosos, quando os vemos em sua presunção e prepotência, temos o dever de lembrá-los sobre os seus corpos. Limitados que são e presos ao seu tempo. Não os imitemos, pois um dia, igualmente, sangrarão.
Os corredores dos hospitais estão cheios de pessoas empáticas. Muitas por sua essência, claro, outras, nem tanto, assustadas todas pela lembrança do que a vida espalha por estas galerias: há um fim a se enfrentar.
Gratidão à Preta Gil, por nos lembrar que somos corpos que podem ser dilacerados e que neles não há comportas, suficientemente fechadas, para conter as micro represas líquidas de que carregamos. Vale o lembrete dos seus últimos dias; sua simplicidade e sua aceitação do que lhe coube em vida.
Há muitos que nos rodeiam e imaginam ser as suas entranhas de metal incorruptível. Passam a impressão de que o seu desenho interno não é o mesmo de todos os mortais, pois se julgam muito além dos demais. Algumas certezas são formadas na beira dos abismos.
Mas é no corredor de um hospital, sem importar os bens de cada um, ali mesmo é que se dá o enfrentamento com tudo o que nos lembra de nossa fragilidade e finitude. Apenas esta consciência já valeria uma vida de empatia e solidariedade.
Não há sangue azul em nenhum convencido que caminha ao nosso lado. Apenas sangue represado.
Um dia, todos sangrarão.
Obrigado por nos lembrar, Preta!
Conferir a entrevista da Preta Gil no programa da Ana Maria Braga, (Youtube) quando afirma que descobriu o câncer em uma ‘turnê’ com o seu Pai, Gilberto Gil. No mesmo programa, ela revela os seus sintomas iniciais e que todos deveriam estar atentos. https://youtu.be/5XttdfFTXC4?t=305
Autor: Nelceu Zanatta. Também escreveu e publicou no site “Quais são os limites de nossa empatia? Sentir o desamparo do outro ou viver a sua dor?”: www.neipies.com/quais-os-limites-da-nossa-empatia-sentir-o-desamparo-do-outro-ou-viver-a-sua-dor/
Edição: A. R.











