“Quando o machado entrou na floresta, as arvores disseram: o cabo é um dos nossos.” (Provérbio turco)
O dia amanheceu lindo!
Parece que nestas manhãs, nossos desejos já despertam atendidos.
Assim vinha eu caminhando pela Brasil Oeste, sentido centro, seguindo o contrafluxo onde andava pelos anos 70, a partir do centro, vindo para o IE.
A avenida era muito grande para os meus 18 anos. E continua grande! Dobrei a 20 de setembro para alcançar uma pequena fruteira na Moron e… O maior susto!
Uma camionete da Companhia de Luz.
Não é possível! Alguém vai perder hoje, possivelmente, muitas árvores.
Sempre elas!
Olhei para trás e vi um rastro de podas malfeitas sobre as árvores, que tiveram o azar de nascer e crescer, sob a fileira de postes: abertas, dilaceradas, podadas em V, para dar passagem a toda sorte de um emaranhado de fios, alguns soltos, outros a soltar, um desfile feio de uma fiação ultrapassada e mal planejada. Na falta de tecnologia e de boa vontade em aplicá-la ao sistema, faz-se o mais conveniente: podar… Mais barato. Mais estúpido.
Veja você mesmo o estrago: a feiura, a agressividade que esta gente faz com as árvores nas cidades, protegidos pelo discurso que seus galhos são perigosos à rede elétrica. As árvores ficam expostas, com o seu ventre aberto, divididas, como que seus braços apontando para o céu. Algumas ainda tiveram o acaso de crescer no outro lado da rua, escapando, temporariamente, dos engenheiros da morte ou dos vizinhos que preferem calçadas higienizadas a folhas caídas pelo chão.
Então voltaram os sabiás… Insistem em cantar, eles. Haverá um tempo em que os sabiás não cantarão, aliás. Na primavera ou em qualquer mês.

Onde você estava enquanto eles lutavam para sobreviver, comendo o que tinha pelo chão sujo de nossos bairros ou matando a sede em qualquer poça de água abandonada por aí? Perceberam que há menos deles? Muitos nem vão cantar mais, até porque galhos para pousar e cantar ficarão escassos.
Um dia teremos luz barata e farta. Talvez não tenhamos ar para respirar, contudo.
_Mas isso é nada, dirão alguns.
_Há tantas e tantas árvores por aí. Quem se importa por apenas algumas?
Tudo importa!
A dor para quem sente a serra e o machado é diferente de quem a produz, mas com o tempo e com os temporais medonhos que se prenunciam, mais dor se espalhará. Todos gemerão.
Um adulto de 80 kilos e saúde perfeita, importa-se muito com um pequeno espinho que tortura seu pé. E uma pequena unha que se encrava no canto do dedo, pode estragar o dia de um gigante que imagina ser o dono do seu destino. Mas se não retirar o seu estorvo, rapidamente, o seu dia e o seu humor acabarão cedo.
E por quais razões, na natureza seria diferente? Há gritos e gemidos que se espalham pelas ruas das cidades, que já nem ligam tanto pela destruição.
Porque tudo está ligado, conectado e todas as coisas fazem sentido quando percebemos que se complementam; tanto que o resultado das árvores e da mata que se derruba na Amazônia, já respinga em nossos quintais aqui no Sul.
Se nossos olhos veem, está visto. Mesmo que olhemos, sem ver!
Nossos sentimentos não recuam após nossos olhos denunciarem. Nós os abafamos e os justificamos, com indiferença. Como estamos parcialmente anestesiados, defendemos a ideia alienante de que, -se não cortarem o que está meu pátio, nada deve me abalar.
Você, meu leitor, conhece alguém mais perigoso para uma rua de arvores frondosas, alguém mais nefasto do que um lenhador urbano, ‘seguindo ordens’, com aqueles carros malditos? Ao soltar a escada, a agonia se inicia!
Sim, um novo modelo de carrasco da natureza, um estuprador de galhos e troncos, e outros, idiotizados, em escritórios refrigerados, empenhados em derrubar em uma manhã o que o tempo e a natureza levou 50 anos para subir.
E assim é o que somos: espectadores, assistindo com descaso o corte indiscriminado, muito mais identificados com os cabos dos machados, na ilusão de que não pertencemos a mesma espécie; agarrados em circunstâncias e pensamentos que nos destruirão mais tarde.
Quem sabe um dia, subiremos em árvores e nos amarremos a elas, impedindo que predadores urbanos usurpem de nossa paisagem e de nossa fotossíntese, com o argumento medieval de que se precisa cortar árvores em nome da segurança de fios e cabos defasados, que ganham até demais para modernizarem sua fiação elétrica… Mas não o fazem! Porque é mais fácil descer a serra e cortar galhos, ao invés de esconder estes horrendos nacos de fios pendurados em postes cansados, apontados para a incompetência de quem destrói a vida aos poucos, em nossa casa urbana.
E aí? Vamos para a rua toda vez que a Prefeitura ligar a motoserra? Ou vamos levar à Prefeitura galhos e troncos manchados de sangue, deixando expostos em seus gabinetes como resultado de sua ignorância?
Hoje não nos diz respeito, claro. Amanhã, ou, depois, veremos.
Voltei pela Av Brasil e desisti da fruteira.
Autor: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu e publicou no site “O santo mel de cada dia”: www.neipies.com/o-santo-mel-de-cada-dia/
Edição: A. R.











