Pode o amor morrer de tanto amar? Conheça Rita Pawlosky

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Após os primeiros anos de um amor imaginado, viver transformou-se em servir.  Já não era amor, aliás. Mas como desfazer os nós da frieza de quem já amou e viu esmorecer sua cumplicidade, na rotina de dias que se sucedem em uma vida sem paixão?

Vocês todos, aí! Já viram aquele sujeito tranquilo, caminhando como que contando seus passos? Que caminha organizando as pedras da calçada, silenciosamente, sempre pensativo e que avança muito pouco?

Pois este era o Zeca. Um homem tranquilo e que cuidava da guarita de uma fábrica. O abre e fecha da cancela tornara o seu Zeca uma pessoa previsível, como todos os que repetem seus gestos, dia após dia, tornam seu andar dócil, apático e aborrecido. Um sujeito pacato, com o olhar certeiro, andando de cabeça baixa, como alguém que aceita os fins de noites a sós. Corpulento e com o rosto exposto em uma barba malfeita, caminhava lento de sua casa para a guarita; todos os dias, todas as noites… Mas sempre retornava ao amanhecer, pelas 5h.

Um dia, fora devolvido da cancela de sua guarita para o seu antigo posto; o matadouro.  Como era hábil com uma faca, fazia o trabalho de muitos.

Mas antes…

_Lá vem o Zeca Lume, comentavam todos, escravizado que era por sua rotina, por suas horas de turno, e que, nestes últimos trinta anos, jamais falhara.  Noite após noite, semana após semana, vivia mais para a sua guarita do que para Rita. Pelo ir e vir dos portões, seus dias eram um abrir e fechar cadeados e talvez por isso pensava:  – prendendo Rita em casa poderei prender seu coração.

Ao contrário de seus esforços para contê-la, Rita carregava um amor confuso pela vida, pelas noites e madrugadas e que a sucessão deles a deixava mais infeliz. Sua paixão instável era a casa e a sua tentativa em amar um homem de paz e tolerância e que nunca sequer erguera a voz com ela. Mas onde há muita paz há também vazio.  Zeca, o homem a quem afeiçoou-se anos atrás, após vê-lo caído pelos bares, quando perdeu sua primeira esposa, era o seu chão. Não havia amor, o amor complexo, o amor dos equilíbrios a que tanto ela sonhava, que põe homens e mulheres a cuidarem uns dos outros e a se cansarem, igualmente. Porque o amor também cansa!

Nasceu assim uma cumplicidade humana, difícil de entender e explicar, quando os opostos tendem atrair-se; mais por suas contradições do que pelos seus desejos.

Infelizes os dois, Rita pensava em sua casa como um pequeno castelo de madeira escura, sempre brilhando, em seu rigor diário com o seu lar e seus pertences. Quando Zeca chegava, ainda noite, um café, assobiando fumaça pra fora do bule, aguardava-o. Café com sorriso e uma vontade imensa de tê-lo em seus braços. Fervia Rita de um amor não correspondido, pois os braços de Zeca foram consumidos pela matança do dia.

Pudera! Qual amor é possível manter quando se passa o dia pensando em matar?

Zeca, era o mais exímio adestrador de facas.  Em minutos desmembrava uma galinha.  E, em meia hora, um porco não lhe fazia de difícil. E assim crescera, com facas afiadas, poucos amigos e a vontade de estripar.

Como acontece com o que não se quer, fora transferido novamente para o seu cargo anterior; de uma guarita sem graça para matança de aves.  Quaisquer aves posto que odiava asas.

Rita, parecia, nunca fizera frente com a real paixão de Zeca; a sua faca.  Límpida, com o cabo torneado, em perfeita empunhadura, nada a roubaria de sua escolha. E a trazia escondida, quieta, como todos os que caminham calados pelas ruas assim que anoitece.

Por vezes, consumia a tarde de sábados na pequena varanda de casa, limpando suas unhas com a ponta da adaga, tamanha a sua precisão. Fitava sua faca tão compenetrado, a ponto do galo Jeremias, que passeava pelo pátio, ressentido e desconfiado, cruzava ao largo da varandinha, medo que tinha, decerto, de se tornar o próximo caldo.

Depois, Zeca cansado, sentado rente à mesa, com o olhar perdido na boca aberta de um velho fogão à lenha, azul desgastado, tentava contar os estalos que faziam a lenha gemer, maltratada que era pelo fogo.

Soubesse Zeca sobre a paixão escondida de sua Rita, não olharia desta forma para a lenha ardente. Contida em um corpo abaulado e beirando a perfeição, imaginasse ele em que mundo a Rita passava suas tardes de solidão e apaixonada, sabe-se lá por quem, sonhando com um amor que ainda haveria de acontecer, Zeca não olharia mais para o fogo.

Rita, ainda jovem, nos idos de seus 14 anos, linda que era, foi apresentada a uma cigana por sua mãe, para que a sua sorte fosse lançada.  Ao ver tamanha beleza, a cigana foi franca; ela pode morrer de paixão!

_Porque todo o coração de uma mulher, dizia ela a sua mãe, bate trocado quando decide se perder por amor.  O que se acha por amor, pelo mesmo amor, acha-se a dor.

_Credo! Respondeu!

Sua Mãe nem queria pagar por tal prenúncio. Mas foi o que ouviu e teve de pagar pela sentença.

Quanto ao Zeca, claro, passando os dias e horas contados, seu andar o denunciava como um homem que nasceu para fazer poucas perguntas.  Além da sua coleção de facas, a sua fixação tinha outros contornos, cor e nome:  o medo de perder o amor de Rita.

Uma menina perfeita para um casamento infeliz.  Justo ela, com tantos sonhos a sonhar e tanto amor para dar e trocar, casou-se com um homem obtuso e calado, dados a pensamentos extraviados e que somente ele poderia descortinar.

Amor não havia, sequer paixão.  Pois a paixão tem pressa em passar, mas amar é uma escolha.

Rita escolheu cedo demais. Apresentado como amigo de seu pai, colega de matadouro, casou-se. Um futuro incerto em troca de futuro nenhum.  Até para quem pensa ter nascido infeliz a beleza se contorce em ajudar.  Como o destino de muitas que saíram da pequena cidade, amava a vida, mas temia aventurar-se em dias amargos, como muitas de suas amigas da primeira infância confessavam. 

Ao fugirem do tédio de sua vila, de oportunidades escassas, algumas voltaram. Outras fugiram com caminhoneiros ocasionais, sumiram com estranhos, e ainda as que se viram às portas de meretrícios, pois sem o amparo de um amanhã, muitas preferiram doar o seu corpo em troca de uma segurança qualquer. Não seria de todo improvável, que em algum momento, em alguma manhã, Rita também tenha sofrido a tentação de trocar gemidos por moedas.

Preferiu ficar, mas queria mais.  Casou-se casta e tinha o apelido de noviça, pois seu rosto resplandecia uma alegria inocente e seus gestos delicados, mais lembravam uma vestal do que a menina de um vilarejo do interior. Um fosso patriarcal e sempre impiedoso para paixões intensas, onde o casamento não era uma rota para o amor, mas um caminho para todas as vocações da submissão.

E foi o que aconteceu!  Após os primeiros anos de um amor imaginado, viver transformou-se em servir.  Já não era amor, aliás.  Mas como desfazer os nós da frieza de quem já amou e viu esmorecer sua cumplicidade, na rotina de dias que se sucedem em uma vida sem paixão?

Zeca dormia com a sua faca embaixo do travesseiro, como um cinto de castidade portátil para os desejos de Rita.

Um dia… Sempre um dia, o velho circo passou pela cidade. E nele havia um trapezista.  Quem resiste ao ver um humano voar? Então, Rita pensou em asas… E voou.

Mas uma faca estava em seu caminho.

(continua)

Introdução do livro ‘A Paixão de Rita Pawlosky’, escrito por Nelceu Alberto Zanatta e que a partir deste romance, baseado em fatos de sua infância, assinará seus textos como NAZanatta.

Autor: NAZanatta. Também escreveu e publicou no site “Valentina”: www.neipies.com/valentina/

Edição: A. R.

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