O que vou falar para os meus pais agora que eu soube que o meu irmão é gay?

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“Então falou Pedro, dizendo: reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas;” ¹

Era uma sexta-feira de outono quando saíamos da escola, assim como andávamos todos os dias, juntos, direto pra casa; o meu irmão e eu.

Naquele dia o vento era mais forte, parecia, soprando determinado e sem se importar com os cabelos de todos os que saiam da escola para suas mesas de almoço: em suas mesmas casas, em seus mesmos caminhos.

Bem que notei algo diferente; no vento e no olhar do Juvenil.  Desse modo eu o chamava porque além de ser mais novo, era obrigado a ouvir os meus conselhos, todos os dias. Os bons e os nem tanto.

_ O que foi agora meu irmão?  Tem cinco minutos!  Havia respeito entre a gente, mas muita zoeira, igualmente.  É que a convivência vai dobrando a intimidade e o limite que demarca nossas opções e escolhas vai desaparecendo, aos poucos.

_Bispo, é o seguinte: (é que ele me chamava de bispo, porque a última palavra tinha de ser a minha) – eu preciso contar uma coisa que vai ser uma bomba, falou.

Como nos anos 70 os bispos tinham uma influência espantosa em suas comunidades, ele achava que eu deveria ser padre e, depois, bispo.  _Pra mandar em todo mundo, falava. Ora, vejam!  O tempo coloca todos os solidéus em seu lugar.

Não fui ao seminário, por um triz e nem tenho amigos bispos, embora os admire.

_ O tempo está passando Juvenil, jogue pra fora!

_ Sabe o que é, eu não sou como você.

_ Claro, respondi!  – nem poderia, somos dois.  Cada qual com o seu igual.

_ É que os meus iguais são diferentes dos seus.

_ Vai falando, Juve, eu vou ouvindo…

_É que você vai me odiar, ou, o nosso pai vai me odiar, ou, a nossa tia vai odiar.  Sei não, mas um ódio sempre sobra pra quem resolve ser autêntico.

_ Tá me deixando nervoso Juve!  Atire pra fora!

_ Eu esperei tantos meses, talvez anos, mas resolvi ter uma conversa mais crua com você.  Não tenho muitos amigos, vai, e em você confio. Vamos lá!  Vou falar, já que é uma péssima notícia pra você e todos nós e que se ferre o mundo; eu não aguento mais!

Eu não me enquadro, não sigo a lista de vocês, não sou do seu time…Sou gay!

_ Como é que é?  Tá de brincadeira Juve!

_ Não estou não e quer saber, nem pra casa almoçar eu vou. 

Paramos em uma esquina por uns minutos e eu o olhava com certo ar de deboche, esperando mais uma de suas gargalhadas: espalhafatosas, alegres, incontidas.

Mas o riso não veio.  Ficamos parados no tempo, congelados, como que empurrando o frio mais pra dentro de nossas almas.

Em alguns minutos e o seu rosto lindo e sempre meigo, foi transformado como que em um altar de água e sangue. Não veio o riso e, em seu lugar, o que surgiu foi o rosto mais desesperado que pude contemplar.

Nossos livros caíram no chão.  Sentamo-nos ao lado de uma escada, que não se tinha ideia pra onde subia.  Ele chorando baixinho, como que vertendo um estoque de lágrimas estocadas há anos. Eu, culpado, por não perceber a sua metamorfose no tempo.

_ Não sou como você, eu sinto muito – falava baixinho.  Não gosto das brincadeiras de vocês, não gosto de suas piadas, não tenho interesse em beijar a quem vocês tanto desejam. Eu, simplesmente, não consigo ser igual, mesmo que nesses anos todos tenha tentado.  Mas agora não aguento mais.

_ Caramba, que soco!  – falei. 

_Tá vendo, eu não me expresso dessa forma, eu simplesmente não consigo.  Escolho as palavras, amo as palavras e procuro as melhores. Não dou apelido a ninguém, não debocho de ninguém, em nenhum momento.  Até pra caminhar eu me sinto diferente.

Mas não sou diferente em nada, pode me despir e ver.  Não estou doente também, não tenho qualquer doença contagiosa. O único contágio que sofro é o da não aceitação.

Eu me sinto exposto o tempo todo, e, andando pela rua, tenho a impressão que as pessoas veem os meus ossos. Todos os olhares me seguem, como setas que penetram em mim; como se eu pertencesse a um mundo desclassificado.

Onde eu errei?  Será que fui escolhido para a rejeição, propositalmente?

Quanto desprezo vou ter que enfrentar para ter um espaço que se chama meu?

_ Ele tinha razão, então!   A notícia se espalhou e as águas se dividiram.  Os que ficaram junto a nós dois, com sua compreensão e tolerância. Os que permaneceram amigos e apoiaram as decisões do intrépido Juvenil, lindo e cheio de sabedoria e coragem. Quanta gratidão!

Mas havia os que o julgaram com censura e preconceito, em seu andar mais delicado, em suas mãos gesticulando ao vento, vendendo a segurança de quem não precisa ser igual pra ser; simplesmente, ser o que se deve ser.

Muitos se afastaram, outros acusaram minha mãe e a sua pretensa proteção ao ‘menor’, como também o chamavam. A maioria sumiu!

Que pena! As ressalvas pela vida dos outros são meros espelhos, pelos quais relutamos em reconhecer…

Mas voltando ao dia da sua confissão intempestiva, há um fato a registrar.

Mesmo na hora sagrada do almoço, para uma família italiana, conservadora, tudo poderia acontecer, entre pratos que batiam à mesa e garfadas, sem medida, pelos comensais.  Todas as ofensas sempre estiveram liberadas à mesa, as críticas e a falta de piedade com os vizinhos.  Tudo podia; menos faltar o almoço.

Então, antes de bater à porta de casa para entrar, pois era o ritual que meu pai impunha, fomos até o porão da casa, em silêncio e abrimos um armário secreto:  viramos dois copos de uma cachaça intragável, que o nosso pai tomava todo o dia.  Combinamos o seguinte: caso eles não aceitassem, pai e mãe, eu diria que também era gay e que guardamos segredo nesses meses e anos até, mas, agora estávamos prontos pra sair de casa.

O Juve me abraçou como alguém partindo pra guerra. Pedi pra me ensinar a ver o mundo pelo seu olhar, pra que eu o seguisse em suas escolhas.  Eu o imitaria para salvá-lo em sua liberdade e para salvar a mim, de minhas próprias crenças amadurecidas na pocilga dos prejulgamentos, por tudo o que não me trouxesse a segurança do que fora cimentado na minha mente em anos… Nesta areia movediça a que chamamos de padrão social. Bem!

Nossos olhos avermelharam e ficamos um agarrado ao outro; até para não cair.  Subimos a escada da cozinha trôpegos, mas cheios de confiança e, eu, fora de mim, com toda a revolta silenciosa que arrastava com aquela família, beirava uma explosão. Abri a porta com uma força de quem entrou para brigar e apanhar.

_ Sentem vocês dois aí porque hoje não tem almoço!  – gritei.

Meu pai, mais censor que amigo, já puxou a cinta na mão, para enfrentar, em seguida, a maior força que um ser humano pode extravasar quando não tem mais nada a perder: a sua verdade!

E gritei forte com os dois, como alguém que se oferece para perder muito, propondo uma regra incomum e ser expulso, a seguir.

_ Sentem-se porque hoje é o dia da libertação!

Enquanto minha Mãe segurava o meu pai pela camisa, dono exclusivo da verdade na casa, dei um puxão no Juve para dentro da cozinha e ele, olhando para o chão, ficou escondido atrás de mim.

_ Quero falar pra vocês, de uma vez por todas e que fique bem claro nesta casa:  meu irmão é gay.

Houve um silêncio soturno e um olhar entre os quatro, como os olhares que anteveem trevas pelos céus. Todos olhando-se por segundos, maquinando um julgamento e uma acusação pronta para ser disparada na direção do outro.

_ Eu já sabia, disse minha Mãe! – quebrando a hora.

Um alívio colossal! Damos uma gargalhada impulsiva que até a vizinhança estranhou.

_ Já o meu pai se levantou e saiu sem almoço.  Fugindo de todos. Pode-se imaginar o que beberia pela tarde.

Foi o dia mais triste, nesta casa de papel e, igualmente, o dia mais alegre de nossas vidas.  Ganhamos um irmão por inteiro, vendemos o armário de sua solidão nesses tempos todos, em seu isolamento que passou ao nosso lado, mas que nem por isso deixou de sorrir um dia sequer.

Meus pais se separaram em seguida.

Eu me casei e por causa dos outonos de nossas vidas, onde sempre procuramos por frios que nos empurrem à proteção, mudei de cidade, tive filhos e netos.

Igualmente, casou-se ele, teve filhos lindos, todos iniciados na música; meu sonho desde a infância. Construiu uma família magnífica e exemplar, em todos os sentidos que um exemplo possa inspirar, onde o amor sempre se impõe sobre o seu gênero.

Meu irmão cuidou do meu pai até a sua partida.  Foram grandes amigos, conta ele, mas somente pelo final dos dias. No fim da vida, sempre há perdão disponível.

Faria tudo por ele, novamente.

Os anos 90 chegaram e minha mãe confessou, um dia qualquer, que na ocasião mentiu. Outro susto!

_Nem imaginava o que seria a palavra gay, falou. Mas o fez por medo e para proteger seus filhos, pra que o seu ‘tutor’ soubesse que ela os acompanhava, tendo em vista que a ela havia delegado, falsamente, a nossa educação. Disse ainda que chorou a noite inteira, mas que sentia um orgulho imenso; pelo retorno à alegria de meu irmão e pela minha coragem; seja lá onde eu a tivesse pedido emprestado.

Os três, que passamos por tantos silêncios juntos, ainda amamos um ao outro em profusão…

Há uma tensão nas manhãs de outono, que podem trazer declarações de amor inesperadas e que sobre as quais não há como esquecer em suas sutilezas; por que não são manhãs de inverno, ainda. Nem de verão.

Nestes dias nublados, congelantes, onde as pessoas se protegem com os cachecóis mais lindos, convém lembrar que contra julgamentos e condenações precipitadas, nunca e nem ninguém haverá de encontrar conforto.

Referências:

  • Atos 10:34

Ver também Deuteronômio 10:17, Romanos 2:11 e Tiago 2:9

(Versão de João Ferreira de Almeida, revista e atualizada)

Autor: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu e publicou no site “Quais são os limites de nossa empatia”?: www.neipies.com/quais-os-limites-da-nossa-empatia-sentir-o-desamparo-do-outro-ou-viver-a-sua-dor/

Edição: A. R.

2 COMENTÁRIOS

  1. Tua escrita sensível, permeada por sutilezas que capturam o leitor, revela a sensibilidade do teu ser. Parabéns por tocar e tratar com seriedade questões que compõem a complexidade do humano.

  2. Com esta linda crônica, o autor Nelceu Zanatta nos transporta para dentro da história, através da escrita.
    Maravilhoso!
    Parabéns, parceiro da literatura!

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