O “Deutsches Requiem” de Borges, por mais incrível que possa parecer, soa atual. Em tempos belicosos, quando ideias e movimentos fascistas e nazistas, sem qualquer disfarce ou travestidos sob outros rótulos, insistem em ressurgir nos mais diversos países, inclusive no nosso, nunca é demasiado refletir sobre a tragédia que outrora causaram no mundo.
As reflexões do oficial nazista Otto Dietrich zur Linde, na noite que precedia ao seu fuzilamento, dão o tom do conto “Deutsches Requiem”, de Jorge Luis Borges. Nelas não há qualquer sinal de arrependimento.
Otto Dietrich havia abraçado o nazismo como missão de vida. Estava convicto que a ordem sonhada pelo nazi-socialismo triunfara. Não denotava o menor abalo nas suas convicções ideológicas. Não esboçou qualquer defesa nos tribunais. Ao contrário, sentia-se gratificado pelo julgamento ter durado tão pouco. Não queria ser perdoado, pois não havia culpa nele, apenas ser ouvido.
Insistia que, quem o escutasse, iria compreender a história da Alemanha e a futura história do mundo. Quando o relógio da prisão marcar 9 h tudo estará terminado. Talvez, apesar da serenidade com que esperava o derradeiro momento, no seu íntimo, lamentasse que, ao contrário dos seus antepassados militares, que tiveram mortes gloriosas nos campos de batalha, ele seria executado como torturador e assassino.
No seu Réquiem Alemão (“Deutsches Requiem”), Jorge Luis Borges tem lado. E isso ele deixou explícito no epílogo do livro “El Aleph”, publicado, originalmente, em1949, pela Editorial Losada, que incluiu o conto “Deutsches Requiem”, ao destacar: “na última guerra, ninguém pode desejar mais que eu a derrota da Alemanha; ninguém pode sentir mais que eu a tragédia do destino alemão; “Deutsches Requiem” quer entender esse destino que não souberam chorar, nem sequer suspeitar nossos “germanófilos”, que nada sabem de Alemanha”.
O que Borges conseguiu com o seu “Deutsches Requiem” foi realçar a tragédia que o nazismo e a guerra impuseram à Alemanha. O mal que os utópicos ideais nazistas e a sua política de extermínio causaram, ao se escancarar, aos olhos do mundo, o holocausto judeu e a triste realidade dos campos de concentração, que personificaram, mais do que qualquer outra coisa, a barbárie e a bestialidade humana. Nada menos que a desumanização da humanidade.

O título do conto de Borges foi, claramente, tomado do “Ein Deutsches Requiem” de Johannes Brahms, peça composta por volta de 1865. E, tanto o Réquiem Alemão de Brahms, inspirado na Bíblia de Lutero, quanto o de Borges, ao contrário da liturgia católica, cujas missas de réquiem começam com orações pela paz dos mortos, são dirigidos aos vivos. Em vez do “dai-lhes, Senhor, o repouso eterno” (requiem aeternam dona eis, Domine), ambos louvam “felizes são os que choram, pois serão consolados” (Mateus, 5:4). E, por vivos, nesse caso, entenda-se: nós!
Otto Dietrich zur Linde, num final e tarde, em 1º de março de 1939, em Tilsit, por ocasião de distúrbios numa rua atrás da Sinagoga, teve uma perna transpassada por duas balas. Essa perna teve de ser amputada. Apesar do sofrimento, pela gravidade do ferimento, não esmoreceu. Havia se entregado de corpo e alma aos ideais de Adolf Hitler e à construção do Terceiro Reich. E, assim, sentiu-se revigorado, quando, em fevereiro de 1941, foi nomeado subdiretor do campo de concentração de Tarnowitz, onde, à semelhança de Sobidor, Auschwitz, Dachau e outros tantos, assassinatos em massa de judeus eram perpetrados sem qualquer compaixão.
Os dilemas de consciência de Otto Dietrich zur Linde, admite ele, começaram quando o insigne poeta judeu David Jerusalém foi transferido de Breslau para Tarnowitz.
Otto Dietrich, apesar da sua fé inabalável no nazismo, era um homem culto. Leitor de Schopenhauer, Spengler, Nietzsche e Lucrécio. Resistia admitir, mas admirava David Jerusalém, um homem da poesia, um homem do livro, que havia dedicado a vida a cantar a felicidade, personificando valores que haviam sido banidos da vida do oficial nazista. Era a sua imagem especular.
Desesperou-se ao contemplar que a sua consciência ainda não havia sido irreversivelmente tomada pelo nazismo. Lutou para não cometer o pior dos pecados, segundo ele, a piedade. E, por isso foi severo com o homem que ele descreveu como o poeta de olhos memoráveis, de pele citrina, de barba quase negra, para não permitir que a compaixão o abrandasse. Foi implacável com David Jerusalém, impingindo-lhe a tortura que o levaria a perder a razão e a dar fim à própria vida, data não casual, em 1º de março de 1943. E, ao cabo, as mortes de ambos se entrelaçam, conforme a ironia de Borges, explícita na escolha da epígrafe do conto, tirada do Livro de Jó (13:15), conforme a Bíblia do Rei James: “Ainda que ele me mate, nele confiarei”.
O “Deutsches Requiem” de Borges, por mais incrível que possa parecer, soa atual. Em tempos belicosos, quando ideias e movimentos fascistas e nazistas, sem qualquer disfarce ou travestidos sob outros rótulos, insistem em ressurgir nos mais diversos países, inclusive no nosso, nunca é demasiado refletir sobre a tragédia que outrora causaram no mundo.
Autor: Gilberto Cunha. Também escreveu e publicou no site “Ainda resta esperança, segundo J. Shukla”: www.neipies.com/ainda-resta-a-esperanca-segundo-j-shukla/
Edição: A.R.












O “Deutsches Requiem” de Borges, por mais incrível que possa parecer, soa atual. Em tempos belicosos, quando ideias e movimentos fascistas e nazistas, sem qualquer disfarce ou travestidos sob outros rótulos, insistem em ressurgir nos mais diversos países, inclusive no nosso, nunca é demasiado refletir sobre a tragédia que outrora causaram no mundo.
Autor: Gilberto Cunha.