Livros no lugar de telas

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Repercutimos, com certo atraso, entrevista de Martha Medeiros ao Jornal Extra-classe, jornal do SINPRO-RS, Ano 30, número 284, setembro e outubro de 2025. Esta entrevista revela o amor de Martha à literatura e a sua convicção do papel da leitura na formação das novas gerações.

Livro é expansão, aventura, viagem, autoconhecimento, promessas que as redes sociais não têm como fazer. “A entrega tecnológica nos satisfaz, mas não nos transforma”, afirma Martha Medeiros ao sintetizar as vantagens da literatura em comparação com as redes sociais. “Me pergunto como fazer para que a garotada que já nasceu com um celular na mão se interesse por um objeto sem luz, sem cor, sem imagem e som – e sem os algoritmos, que roubam a espontaneidade de tudo, moldam os nossos desejos. O jeito talvez seja divulgar o livro como algo que também é extremamente moderno”, aponta nesta entrevista a patrona da 71ª Feira do Livro de Porto Alegre – de 31 de outubro a 16 de novembro, na Praça da Alfândega.

Nona mulher a representar o maior evento literário a céu aberto da América Latina, Martha nasceu em Porto Alegre, em 20 de agosto de 1961, tem 40 anos de literatura, mais de 1 milhão de livros vendidos ao longo de uma exitosa carreira como cronista de jornal: escreve de forma ininterrupta há três décadas na Zero Hora e há 21 em O Globo.

Extra Classe – São 71 edições e apenas nove patronas. Por que essa invisibilização das mulheres na Feira do Livro de Porto Alegre?

Martha Medeiros – Nove patronas é pouco, claro, foram 62 homens até aqui. Mas a visibilidade das mulheres na literatura está cada vez maior e confio que muitas outras merecerão essa distinção, a fim de equilibrar este número e fazer justiça ao talento das escritoras gaúchas. O caminho está aberto para Eliane Brum, Leticia Wierzchovski, Claudia Tajes, Lilian Rocha, Eliane Marques, Julia Dantas, Carol Bensimon e tantas outras.

EC – O que representa ser patrona da Feira em um ambiente político contaminado pelo desprezo à cultura e às mulheres?

Martha – O desprezo à cultura e às mulheres é herança de um governo federal que não está mais aí. Temos que olhar para frente e saudar a diversidade. De minha parte, pretendo ser uma anfitriã da Feira, receber os leitores com alegria e informalidade, transmitir a ideia de que a leitura é um prazer tão necessário como escutar música, ir ao cinema. As pessoas não maratonam séries? Por que não maratonar um livro, emendar um capítulo após o outro, até concluí-lo?

EC – Acredita que a tua literatura, de maneira geral, deu voz às mulheres? Por quê?

Martha – Tenho muitos leitores homens, mas sem dúvida que a maioria do meu público é composto por mulheres, e com elas a identificação se dá mais naturalmente. Temos vivências e emoções em comum. Certamente, já dei voz a muitas delas, mas não existe estatística que comprove isso. O retorno é pessoal, acontece na rua, dentro do supermercado, na fila de autógrafo. Elas relatam que, em determinado momento de suas vidas, eu escrevi algo que foi inspirador, que as ajudou a tomar uma decisão, ou que as fez sentirem-se menos sozinhas. São frases recorrentes e que me enchem de satisfação, pois a literatura tem mesmo esse poder. Marina Colasanti teve o mesmo efeito sobre mim, abriu janelas no final da minha adolescência, trouxe assuntos que ajudaram a me formatar como mulher. É maravilhoso quando a gente se conecta sem precisar se conhecer pessoalmente. É um vínculo invisível, mas igualmente poderoso.

EC – Teu primeiro livro foi de poesia. Como começou a escrever crônicas e ficção?

Martha – Quando comecei a publicar poesia, em 1985, eu ainda era redatora publicitária, minha principal atividade. Publiquei quatro livros sequenciais, mas era um hobby, a poesia não pagava minhas contas. Só depois que voltei do Chile, onde morei por quase um ano, é que surgiu a oportunidade de escrever crônicas em jornal, sem nunca ter pensado nisso antes. Foi um divisor de águas. Minha primeira crônica saiu em julho de 1994, em Zero Hora. Era praticamente um calhau (não sei se é um termo que ainda se usa). Só mais adiante é que conquistei uma coluna assinada, e à medida que fui me estabelecendo, troquei a propaganda pela literatura. Quando me senti segura para novos voos, lancei Divã, meu primeiro livro de ficção, em 2002, a convite de uma editora carioca. O livro foi muito bem recebido no Rio de Janeiro e não demorou para virar peça de teatro. Ali, comecei a expandir meu trabalho para o resto do país. Dois anos depois, passei a ser colunista de O Globo.

EC – Quais são as tuas referências na literatura?

Martha – Além de Marina Colasanti, sempre fui muito fã do já saudoso Luis Fernando Verissimo, com quem divido o box Dose única, da editora Vitrola, a ser lançado em breve. Caio Fernando Abreu foi também um autor que me encantou desde o início, desde Morangos mofados, quando percebi o fascínio de se mergulhar mais profundamente em si mesmo. Eu lia mais autores nacionais que estrangeiros na adolescência, mas lembro também de Somerset Maugham, Herman Hesse, Dorothy Parker… Fome, de Knut Hamsun, me impressionou muito. Hoje, são inúmeros autores, brasileiros e estrangeiros, que me arrebatam. Acabei de ler O desabamento, de Edouard Louis. Estou gostando muito da autoficção que se produz hoje. E comecei ontem Dia de ressaca, da francesa Maylis de Kerangal, que já havia me cativado com o seu Coração e Alma.

EC – O livro perde leitores para o ambiente digital? Como lidar com isso e como evitar a dependência de crianças e jovens às telas?

Martha – Sem dúvida que a leitura perde para as redes, é uma competição desigual. O digital tem um poder de atração que condiz com o mundo de hoje, mais visual e imediatista. É preciso muito autocontrole para não se deixar abduzir pela quantidade inesgotável de conteúdo despejado nas redes. Eu pego o celular para buscar uma informação e, quando dou por mim, estou há vinte minutos olhando postagens de gente que nem conheço. É hipnótico. Por sorte, tenho o hábito da leitura desde criança, e capacidade de me concentrar, ainda que ela esteja um pouco comprometida. Também me pergunto como fazer para que a garotada que já nasceu com um celular na mão se interesse por um objeto sem luz, sem cor, sem imagem e som – e sem os algoritmos, que roubam a espontaneidade de tudo, moldam os nossos desejos.

O jeito talvez seja divulgar o livro como algo que também é extremamente moderno, que promete expansão, aventura, viagem, autoconhecimento. Essas promessas, as redes sociais não têm como fazer. A entrega tecnológica nos satisfaz, mas não nos transforma.

EC – Qual é a tua percepção sobre o espaço conquistado pela literatura antirracista, de gênero, periférica?

Martha – Sou uma fã empolgada da literatura que abraça distintos universos, que traz realidades apresentadas não por observadores distanciados, mas por quem vive o que escreve. Não acho que seja uma obrigação ser engajado, ainda que todo escritor, de certa forma, o seja, pela natureza da sua atividade, mas aplaudo a literatura que se propõe a ser inclusiva e faz isso com qualidade narrativa, como os livros de Jeferson Tenório, Eliane Marques, José Falero. Por muito tempo, enxergávamos o que acontecia fora da bolha através de um viés jornalístico e televisivo, que costumava favorecer uma visão marginalizada de quem fosse “diferente”. Ora, somos todos diferentes entre si, mas todos com direitos iguais. A literatura tem contribuído muito para esclarecer sobre essa questão que é básica.

EC – Qual é o papel da educação na formação de leitores?

Martha – Fico feliz de ver que a maioria das escolas hoje organiza sua própria Feira do Livro, e promove encontros entre autores e estudantes. É um passo. Mas é preciso investir em bibliotecas escolares, transformá-las num espaço de lazer e interesse dos alunos. Investir em atividades que os seduzam. Criar festivais de filmes baseados em livros, estudar as letras de música escritas por Chico Buarque, Leminski, Arnaldo Antunes. Agregar todas as artes em torno da literatura, incentivar grupos de teatro a montarem Guimarães Rosa, promover saraus de poesia, enfim, o livro tem que deixar de ser visto como algo chato. E, fundamental: pagar melhor os professores para que, entre outras coisas, eles possam consumir seus próprios livros, pois só assim conseguirão transmitir pra valer o amor pela leitura.

EC – Quais livros tu vais publicar neste ano de Feira?

Martha – Lançarei na Feira o box Dose única, da Vitrola: são dois livros de capa dura, em venda casada. Um é do Luis Fernando Verissimo, com curadoria de seus filhos, e o outro é um livro que reúne frases, versos, reflexões extraídas do meu trabalho nesses últimos 40 anos, “drágeas” da minha literatura, ilustradas pelo premiado artista gráfico Daniel Kondo. Ficou um projeto lindo, perfeito para quem quiser conhecer melhor, e de uma vez só, o trabalho de dois escritores do Sul. E a L&PM, com quem tenho uma longa parceria editorial, está relançando boa parte das minhas coletâneas em versão de bolso, o que celebro. Os pockets têm um custo mais acessível e são fáceis de serem transportados. Muitos, como eu, ainda preferem os livros físicos, então é uma bem-vinda facilitação.

FONTE: www.extraclasse.org.br/cultura/2025/10/entrevista-com-martha-medeiros-livros-no-lugar-de-telas/

Edição: A. R.

1 COMENTÁRIO

  1. EC – O livro perde leitores para o ambiente digital? Como lidar com isso e como evitar a dependência de crianças e jovens às telas?

    Martha Medeiros – Sem dúvida que a leitura perde para as redes, é uma competição desigual. O digital tem um poder de atração que condiz com o mundo de hoje, mais visual e imediatista. É preciso muito autocontrole para não se deixar abduzir pela quantidade inesgotável de conteúdo despejado nas redes. Eu pego o celular para buscar uma informação e, quando dou por mim, estou há vinte minutos olhando postagens de gente que nem conheço. É hipnótico. Por sorte, tenho o hábito da leitura desde criança, e capacidade de me concentrar, ainda que ela esteja um pouco comprometida. Também me pergunto como fazer para que a garotada que já nasceu com um celular na mão se interesse por um objeto sem luz, sem cor, sem imagem e som – e sem os algoritmos, que roubam a espontaneidade de tudo, moldam os nossos desejos.

    O jeito talvez seja divulgar o livro como algo que também é extremamente moderno, que promete expansão, aventura, viagem, autoconhecimento. Essas promessas, as redes sociais não têm como fazer. A entrega tecnológica nos satisfaz, mas não nos transforma.

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