O jornal O NACIONAL, de Passo Fundo, RS, completou, nessa quinta-feira, 19 de junho de 2025, 100 anos de circulação no formato impresso.
Dessa trajetória, me considero no direito de reivindicar 30%. Seja como assinante ou como colunista, como ambos, na verdade, tenho participado, ativamente, nos últimos 30 anos da “vida” deste jornal.
Admito, como marco inicial da minha relação com O NACIONAL, a data de 21 de outubro de 1995. Foi numa edição de final de semana, Ano 71, Nº 19.857, que junto com a nova proposta de previsão de tempo e clima para Passo Fundo e região, na página 4, circulou aquela que considero a minha primeira coluna assinada em O NACIONAL, sob o título “Os prognósticos de tempo e de clima” (há contribuições avulsas anteriores).
Entenda-se que eram tempos de serviços precários de Internet no Brasil. A proposta de um modelo inovador de previsão de tempo e clima para Passo Fundo e região exigia atualização diária e consulta, via FTP, aos resultados de previsões numéricas do Serviço Meteorológico dos EUA, as únicas disponíveis, naquele momento, para 5 dias de antecedência.
Em 1995, havia edições de O NACIONAL nas segundas-feiras. E foi assim que, para contornar a dificuldade de atualizar nos domingos as previsões, em escala diária, para as segundas-feiras, que, no espaço ocupado pelas previsões, passamos a assinar, semanalmente, uma coluna sobre meteorologia, clima e agricultura. Essa história é contada com maior riqueza de detalhes na edição especial do Centenário de O NACIONAL.
As colunas tinham de ser escritas na redação de O NACIONAL, que na época ficava na Avenida 7 de Setembro, no moderno sistema informatizado composto por PCs da marca Itautec e no software Carta Certa, que hoje fazem parte de museus de tecnologia da área de informática. Invariavelmente, naqueles idos tempos, as edições fechavam tarde da noite.
Não era fácil, nesse início, conseguir concentração e escrever as colunas em um ambiente, onde, além de um aparelho de televisão, que ficava sempre ligado, no volume máximo, havia uma fumaceira infernal. Quase todos fumavam na redação, menos eu. Algo impensável, nos tempos atuais. E, para arrebatar, em meio dos gritos da Fátima Trombini (in memoriam) aloprando a redação para que as matérias fossem baixadas logo. Além da presença do Luiz Carlos Schneider, sempre concentrado no fechamento das tradicionais páginas Fontes em OFF.
Invariavelmente, quando chegava a casa, pelo cheiro de cigarro, por imposição da mulher, as roupas iam direto para a máquina de lavar. E, para conturbar um pouco mais o ambiente, em algumas férias, surgia, na redação, um adolescente metido a engraçadinho, que tinha predileção por atazanar o Schneider, uma vez que neto do patriarca da família Castro e filho do fundador de O Pasquim, o jornalista Tarso de Castro. Esse piá, anos mais tarde, viria se tornar no consagrado ator do grupo Porta dos Fundos, que atende pelo nome de João Vicente de Castro.
No começo eu escrevia apenas sobre temas afetos à meteorologia e à agricultura. Essas colunas acabariam sendo reunidas na série de livros Meteorologia: Fatos & Mitos (1997), Meteorologia: Fatos & Mitos – 2 (2000) e Meteorologia: Fatos & Mitos – 3 (2003), cujo primeiro, com edição de 3000 exemplares, esgotou rapidamente. Os demais saíram com 2000 e 1500 exemplares, estando também esgotados.
Coordenei diversos cadernos especiais de O NACIONAL, sobre trigo e agricultura, sempre escrevendo na redação e acompanhando de perto a diagramação, com destaque para TRIGO NO MERCOSUL, que circulou como encarte na edição de 30 de abril de 1997. Esse encarte foi o assunto do Grande Expediente da Câmara dos Deputados, em 21 de maio de 1997, que teve como orador o então deputado Airton Dipp. A coletânea desses artigos foi publicada em formato livro (316 páginas), pela Embrapa, em 1999, levando a minha assinatura e a da saudosa jornalista Maria de Fátima Trombini, como organizadores.
À medida que o tempo passou, fui deixando de lado os temas exclusivamente técnicos e comecei a tratar de assuntos diversos. A maioria deles ligados à popularização da ciência e à literatura, especialmente com foco na produção dos escritores locais. Houve épocas que assinei duas e até três colunas semanais.

Esses artigos acabariam, em 2001, me levando a ingressar na Academia Passo-Fundense de Letras e a ser distinguido como Patrono da 23ª Feira do Livro de Passo Fundo, em 2009. Também, seriam coligidos nos livros Cientistas no Divã (2007), Galileu é meu pesadelo (2009), A ciência como ela é… (2011) e Ah! Essa estranha instituição chamada ciência (2021).
A minha presença na redação de O NACIONAL, aos poucos, com o avanço da Internet, foi rareando e as colunas começaram a ser escritas em qualquer local que estivesse e enviadas por e-mail. Atualmente, pelo WhatsApp. Há quem diga que na redação hoje reina um silêncio quase sepulcral. Fátima não deixou seguidores. E não há qualquer resquício de fumaça de cigarro no ar. Sempre tive apoio e tratamento especial da direção e do pessoal da redação de O NACIONAL. A todos a minha gratidão!
Prezado Múcio de Castro Filho e equipe, passando pelo pessoal da redação, área administrava, comercial até as oficinas de impressão e montagem do jornal, fiquem certos que nada que não tenha relevância dura 100 anos. Nossos respeitos ao O NACIONAL e que venham outros 100 anos!
Múcio de Castro Filho, recebendo da Câmara Municipal de Vereadores de Passo Fundo, Placa de Honra ao Mérito pelos 100 anos do Jornal O Nacional.

Créditos fotos: Redes sociais de O NACIONAL/ Prefeitura Municipal de Passo Fundo.
Autor: Gilberto Cunha. Também escreveu e publicou no site “Enchente no RS: um ano depois”: www.neipies.com/enchente-no-rs-um-ano-depois/
Edição: A. R.












Admirável história, tornada memória nesta crônica, por Gilberto Cunha. Este Confrade da APLETRAS é demais!