Em quem somos transformados quando não somos nós mesmos?

574

Eu sou uma das tantas Tatis… (Depoimento resposta da Tatiana, personagem a que se referiu Nelceu Zanatta, em sua crônica: “Mas por que esta menina saiu do meu lado para se afundar nas drogas?”)

Resposta a texto de nossa autoria, publicado no site www.neipies.com/mas-por-que-esta-menina-saiu-do-meu-lado-para-se-afundar-nas-drogas/

“Eu sou uma das tantas “Tatis” a que o seu artigo poderia se referir, visto a quantidade de mulheres envolvidas pelas garras do álcool e outras drogas.

 Mas a Tati que sou hoje ganhou forças… Em muita teimosa ao procurar ajuda para entender por quê? Por quais motivos uma menina de classe média, criada numa família católica, com todo amor que poderia receber na época, com valores e cuidados ambientais, envolveu-se neste mundo sombrio e fétido – o submundo – onde medo e alívio andam juntos?

A resposta chegou ao encontrar outros e outras como “eu”, sofrendo, sem conseguir parar, pois a dependência química, como o nome já fala, é uma doença que nunca começa realmente nas drogas.

Começa no vazio!

A primeira vez a gente escolhe experimentar, as outras vezes, são as drogas que escolhem por nós, pois o cérebro atingiu um clímax de prazer imediato e que meu corpo jamais havia experimentado.

Assim como um corpo que atinge o orgasmo pela primeira vez e não se contenta mais com roçadas de pernas, havia ali 50 mil vezes mais potência. Neste ponto não há escolha… Tentei pedir ajuda.

Mas a ajuda não veio, tinha muita vergonha de ser eu e ser mais uma na estatística que estava na lista de “drogados”, marginalizados. Quantas Tatis ainda estão nas ruas?

A maioria das pessoas não sabe por onde as drogas entram na vida de seus queridos, e eu posso dizer com certeza: o álcool e as drogas entram pelo vazio.
Onde tem um buraco na alma, qualquer coisa cabe e algumas pessoas nunca saberão o nome dos seus próprios vazios.

Eu, inquieta, fui procurar algum nome em meio as minhas ausências,
e o primeiro que encontrei, ao ler um diário da minha mãe, descobri que meu pai biológico tinha a deixado no hospital, no dia do meu nascimento e nunca mais apareceu…
Ahh esse  meu vazio foi a falha paterna, o suporte, o escudo, a regra, o espelho que me daria um direcionamento do que é um homem, e, talvez, tendo-o conhecido, não estaria procurando um pai nos meus namoros; cuidador, protetor…

Sem referências, qualquer coisa servia.

Foi aí que entrou esse namorado, bonito, forte, com boas características aparentes, para ser o meu par romântico idealizado. Eu era romântica e sempre esperei pelo príncipe encantado que viria me salvar. Hoje, entendo que eu queria mesmo era um salvamento da angústia, do vazio, do desejo de pertencimento, de não ser abandonada.

Não sabendo discernir o homem do objeto do amor e sua idealização, eu fui completamente ingênua e apaixonada, experimentando pela primeira vez, sem saber, que já possuía uma pré-disposição em me apegar a tudo que me desse colo e foi isso que a droga fez; me deu colo primeiro. Depois me tirou tudo.

Mas eu me transformei no meu milagre, eu e muitos outros nos grupos de apoio que insistem em se ajudar, mutuamente, anonimamente, e onde a cada dia chegam mais e mais pessoas que não querem usar, mas não sabem o que fazer para parar.
Hoje, no dia em que respondo este seu artigo, completam-se 15 anos, 6 meses e 14 dias que eu não uso qualquer substância que altere minha mente. Tudo começou com um dia, depois mais outro, um de cada vez, bem devagar. Lembro da minha mãe, em que nunca desistiu de mim.

Fui internada em uma clínica a forças, pois a minha Mãe queria me salvar. Não há salvação por si própria.

Depois de formada psicóloga, aos 38 anos, a minha missão estava em ajudar os outros. Montei uma clínica e queria que fosse parecida com a clínica que me abrigou, claro com muitas melhorias. Afinal, eu já estive dos dois lados: o do paciente, que chega completamente derrotado e sem forças, e o outro, uma empresária, psicóloga e com muita disposição em auxiliar aqueles que estão perdidos nas garras da ilusão.

Fiz o meu propósito para, aproximadamente, 2 anos, atender os pacientes e suas famílias, todos adoecidos de dores encobertas pela cereja do bolo: a “droga.” Quem dera o problema fosse somente a retirada das substâncias!!!

Ao retirar as drogas, encontra-se o sintoma, o vazio, cada um com o seu nome, cada um com a sua história de vida.  Nesse espaço de dor e luta é que todos têm em comum: uma ausência, ainda viva, um trauma, uma violência sexual, um abandono, uma rejeição… Um pai ou uma mãe alcoólatra.

Dentre todos, não se encontra uma pessoa que não carregue em sua sombra, as marcas de seu precipício. Então, cabe-nos descobrir onde ele está e qual o seu verdadeiro tamanho, para tentar ressignificar… Porque preencher é impossível. Aprende-se a viver apesar do vazio, porque não tem mais como remediar tamanhas feridas internas, sendo a maioria nascidas na infância, tão primitivas, onde se leva muito tempo para nominá-las e muito mais muito tempo para alcançá-las.

Cabe a mim, hoje, ser o próprio colo que me faltou.  Sou mãe dos meus filhos, sou avó, sou psicóloga, estudando, continuadamente, e aprendendo inglês como a segunda língua, em uma escola presencial em New Jersey, EUA.

Foi aqui que eu vim parar, meu amigo!

Sou grata por todas as vezes em que você me ouviu e, sem saber, também ocupou este lugar de “colo;” o colo da escuta, que realmente ouve.

Quem sabe, talvez, esta mensagem chegue para muitas Tatis e sirva de incentivo para o recomeço de uma nova vida.

Acredito, desde o lugar de onde eu vim, ter muitos milagres como o meu acontecendo.

Minha mensagem: busque ajuda! É possível! Existe vida abundante após as drogas, e o único caminho que não funciona é o que se tenta superar a sós”.

(Autora: Tatiana Gomez)

Autor da coluna: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu e publicou no site “Você quer que eu empilhe troféus: já pensou em conquista-los comigo?”: www.neipies.com/voce-quer-que-eu-empilhe-trofeus-ja-pensou-em-conquista-los-comigo/

Edição: A. R.

DEIXE UMA RESPOSTA