Uma educação que se resume em formar mão de obra barata está prestando um desserviço à humanidade. Equipes gestoras, professores e comunidade escolar como um todo precisam agir com criatividade e a ousadia, demonstrando que acreditam na potência do fazer educativo.
Chegamos em 2026 e eu não poderia me eximir da responsabilidade de refletir sobre o que aprendi no decorrer dos 365 dias de 2025, dentre os quais 200 foram letivos. Me refiro, especialmente aos desafios experimentados na educação pública, da qual sou “filho” e na qual sigo trabalhando como quem visa oportunizar para crianças, adolescentes e jovens uma experiência transformadora com o conhecimento. É deste, que depende o presente e o futuro da sociedade.
O que segue são tópicos, óbvios, porém vivemos tempos no qual isso precisa ser dito e continuamente reforçado.
1⁰- Infelizmente, para muitos dos que frequentam a escola, o conhecimento científico é encarado como obsoleto e sem sentido. Estes ignoram que a sociedade é construída por ideias que migraram para a realidade concreta da vida, do imaginado, ou seja, mundo virtual para o analógico/ mundo que é real. Uma das tarefas da escola é trabalhar com a imaginação das crianças, dos adolescentes e jovens, para que possam querer, sonhar e buscar construir um outro mundo possível. Isto não se faz com a oferta de um ensino focado no mercado, seguindo um modelo bancário tão bem criticado e combatido pelo patrono da educação – Paulo Freire.
2⁰ – Ideologias não são apenas textos, são forças em movimento que fazem o mundo acontecer. Trata -se, antes de mais nada, de valorizarmos a ciência apreendida e construída nos bancos escolares; de olharmos com atenção e visão crítica para qual ideologia sustenta as políticas educacionais, das Escolas Estaduais do Rio Grande Do Sul, objetos de estudo desta e outras reflexões postadas neste precioso site que propaga a ciência ao divulgar autores, cujos interesses sustentam a formação integral do ser humano. Não existe educação neutra.
3⁰ – Não pode ficar de fora o clamor por uma reforma necessária nos currículos de formação docente das universidades públicas e privadas. É urgente que os professores cheguem ao chão da Escola com amor por um fazer que pode ser transformador, com clareza metodológica, fiel a concepção de um ensino transformador, humano e humanizador. É necessário que educadores tenham consciência política e de classe que os motive ao engajamento sindical, que defenda seus direitos.
É esta organização que procura ser voz e força motriz da defesa da categoria, em muitos casos despolitizada, com esperanças anestesiadas e forte influência do neoliberalismo para o qual importa a meritocracia, o lucro e a força bruta de trabalho.
A esse respeito, convenhamos, nosso humanismo aponta para horizontes de sentido nos quais a pessoa tem valor, tem dignidade e potencialidades para desenvolver. É urgente despertar a capacidade de sonhar e querer mais de nossos jovens.
Leia proposta do professor Paulo César Carbonari: www.neipies.com/aprender-a-sonhar-uma-proposta-ofensiva-para-a-educacao/
Uma educação que se resume em formar mão de obra barata está prestando um desserviço à humanidade. Equipes gestoras, professores e comunidade escolar como um todo precisam agir com criatividade e a ousadia, demonstrando que acreditam na potência do fazer educativo.

4⁰ Para tanto, governos precisam entender que a melhoria na qualidade do Ensino requer investimento real naqueles sujeitos que fazem a escola acontecer, especialmente nos professores, esta gente que teima em apostar na formação de pessoas, estes humanos muitas vezes tratados como “máquinas”, forçados pelo sistema a abrir mão de suas convicções para responder às demandas impostas pelo neoliberalismo.
5⁰ – Professores não trabalham em uma fábrica com produção em série, não estão diante de uma esteira a serviço da indústria cultural. Na escola, não existe uniformidade e tratar crianças, adolescentes e jovens advindos de diferentes contextos como iguais é injustiça, e não é isso que desejamos, pelo contrário, queremos contemplar a diversidade e as especificidades de nossos educandos com equidade.
Quanto de equidade existiu na premiação de estudantes e equipes no ano de 2025? Quanto de justiça se aplicou ao avaliar os diferentes como iguais?
6º – Repetimos que as escolas não são esteiras e os estudantes não são robôs receptores de informações, tanto estes quanto os docentes trabalham lado a lado, ou pelo menos deveriam, para construírem aprendizado, educarem o agir que se deseja ético e justo. Convém que o ser humano seja considerado e promovido. Contrariando a lógica da IA, os educandos precisam aprender a questionar, serem provocados para reflexão e ação no sentido da valorização integral da pessoa.
7⁰ – Aprendi que seguirei sendo aprendente; entendi que não posso sucumbir ao desespero.
Considerando tudo o que acredito, remando contra a maré incauta do sistema, aprendi a desaprender, desconstruir e a reconstruir desde a práxis cotidiana minha opção pela docência. Aprendi com Valter Hugo Mãe que “quando se sonha grande a realidade aprende!”, os ideais se tornam palpáveis e a vida segue como desafio a ser encarado com propósito, visto que “quem tem um porquê enfrenta qualquer como” de acordo com Friedrich citado por Vitor Franklin.
Quais serão os enfrentamentos que se apresentarão para nós neste 2026?
Como vamos seguir alimentando nossos propósitos enquanto educadores?
Faço votos de que seu ano novo seja repleto de indignação produtiva e de sonhos para realizarmos, juntos e de mãos dadas, nutrindo em cada desafio esperança do verbo esperançar, porque como ensinou Paulo Freire:
“É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo”.
Por fim, convido todos e a cada um a pensar no que já aprendeu no vasto e desafiador campo da educação. Escreva seu aprendizado, reflita sobre o quanto foi possível crescer humanamente ao contribuir com a formação de outras pessoas. E entendamos, de uma vez por todas, que formação continuada se dá na opção por cursos de aperfeiçoamento, e, em pós-graduações, mas principalmente a partir do estudo da prática que cada um realiza.
Formação continuada se faz na práxis/ ação – reflexão e encaminhamento para a prática novamente. Este conceito encontra guarida na pedagogia benincaniana sobre a qual existem várias publicações neste site.
Leia também: www.neipies.com/a-pedagogia-inspiradora-da-praxis-benincaniana/
Feliz e esperançoso 2026 para quem chegou até aqui e deseja seguir aprendente.
Autor: Marciano Pereira. Também escreveu e publicou no site “Educação e meritocracia nas escolas públicas do RS”: www.neipies.com/educacao-e-meritocracia-nas-escolas-publicas-do-rs/
Edição: A. R.











Convido todos e a cada um a pensar no que já aprendeu no vasto e desafiador campo da educação. Escreva seu aprendizado, reflita sobre o quanto foi possível crescer humanamente ao contribuir com a formação de outras pessoas. E entendamos, de uma vez por todas, que formação continuada se dá na opção por cursos de aperfeiçoamento, e, em pós-graduações, mas principalmente a partir do estudo da prática que cada um realiza.
AUTOR: Marciano Pereira