Se a luta é coletiva, então que ela seja sustentada por mãos dadas de verdade. Não por discursos vazios.
(Por Keli Cristina dos Santos de Oliveira)
Eu já ouvi muitas vezes que a luta precisa ser coletiva. E eu concordo. Mas aprendi, na prática, que nem toda coletividade é verdadeira.
Existe a coletividade de palco, de discurso bonito, de postagem em data simbólica. E existe a coletividade real, aquela que acontece no cansaço, no bastidor, no dia em que ninguém está olhando.
Eu falo da luta das famílias atípicas. Das mães que não dormem direito.
Dos professores que se desdobram em salas lotadas. Das crianças que precisam de acolhimento e recebem improviso.
Das profissionais que também são mães e ainda assim são silenciadas quando ousam dizer que não estão dando conta.
Eu falo de uma inclusão que, muitas vezes, existe no papel… mas não chega no corpo de quem precisa.
Mas eu também falo de outras lutas.
Falo do feminismo que vira slogan, mas não sustenta mulheres reais quando elas incomodam, quando elas são mães, quando elas falham, quando elas dizem não.
Falo de quem levanta a bandeira da liberdade, mas julga a outra mulher pelas escolhas que ela faz com o próprio corpo, com a própria vida, com a própria maternidade.
Falo das causas LGBTQIA+ que ganham cor em mês específico, mas perdem apoio quando a realidade exige coragem, posicionamento e proteção verdadeira.
Falo de pessoas que defendem diversidade em público, mas no privado reproduzem preconceito, silêncio e exclusão.
Porque entre quatro paredes, longe das câmeras e dos discursos ensaiados, a verdade aparece.
A empatia vira incômodo. O acolhimento vira custo. E a responsabilidade sempre cai no colo de quem já está sobrecarregado.
E eu vejo.
Eu vejo quem levanta bandeiras para aparecer. Eu vejo quem usa causas para ganhar visibilidade, votos, reconhecimento.
Mas eu também vejo quem está ali, no chão da escola, na rotina da casa, na madrugada, sustentando o que ninguém quer sustentar.
A luta só é luta quando é coletiva, mas coletiva de verdade.

Coletiva é quando a mãe atípica não precisa implorar por escuta.
Quando o professor não adoece tentando dar conta do impossível.
Quando a criança é vista na sua singularidade e não tratada como problema.
Quando mulheres são apoiadas não só quando são fortes, mas também quando estão cansadas, confusas e vulneráveis.
Quando pessoas LGBTQIA+ podem existir com segurança, respeito e dignidade, todos os dias, e não só quando é conveniente.
Coletiva é quando as decisões são tomadas com quem vive a realidade, e não sobre quem vive.
Quando o discurso continua o mesmo dentro e fora da sala. Quando a prática acompanha a fala.
Quando a causa não é usada — ela é vivida.
Eu não me interesso por palcos. Eu me interesso por transformação.
E se for para lutar, que seja com verdade. Com coerência. Com presença.
Porque luta de verdade não é performance. É compromisso.
E compromisso não se prova com palavras.
Se prova com atitude, com constância e com coragem de fazer diferente, mesmo quando ninguém está vendo.
Se a luta é coletiva, então que ela seja sustentada por mãos dadas de verdade. Não por discursos vazios. Eu sigo. Com cansaço, sim. Mas com consciência.
Porque quem sente de verdade não consegue mais fingir que não vê. E é desse lugar que eu falo. E é desse lugar que eu luto.
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Autora: Keli Cristina dos Santos de Oliveira. Professora da educação infantil da rede municipal de Passo Fundo, RS. Mãe atípica.

Edição: A. R.












Agradecemos a confiança no nosso trabalho. Suas reflexões são muito potentes e importantes, ao desvelar a coletividade como força motriz das mudanças em sociedade. Parabéns, Keli Cristina dos Santos de Oliveira.