Curupira e quem mais na COP30?!

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O Brasil, ora país sede da COP30, com apoio dos cientistas, grupos ecológicos, governantes, imprensa e da população como um todo, busca liderar a luta contra o aquecimento global, procurando criar as melhores condições para prevenir mais prejuízos à Mãe Terra. Verbas há, mas ainda falta muita vontade política.

Como textos também dialogam, promovemos, nesta publicação, uma “conversa” entre dois gêneros discursivos, de dois escritores: a crônica, de Eládio Weschenfelder; e a poesia, de Roseméri Lorenz. Afinal, se até os textos dialogam, por que todos não podem fazer o mesmo?

Curupira e quem mais na COP30?! (De Eládio Vilmar Weschenfelder)

“Antes de tudo, para facilitar a vida do leitor, é necessário esclarecer os sentidos do título acima. COP30 significa Conferência das Partes, ou Conference of the Parties, em sua 30ª edição.

De um lado, as partes representam 19 países-membros associados, os quais se reunirão, por um período de duas semanas, em novembro de 2025, em Belém/PA, para avaliar a situação das mudanças climáticas e propor medidas de combate à poluição e formas de descarbonização do planeta Terra.  Lá os representantes dos países membros buscarão debater alternativas conjuntas para conter o aquecimento global, propondo ações sustentáveis à vida saudável dos oceanos, continentes, rios, lagos e florestas. 

O outro núcleo temático refere-se à presença do mascote Curupira, uma das figuras mais importantes do folclore brasileiro. Retratado, na maioria das vezes, como uma espécie de anão de cabelos vermelhos, de grande força física e pés invertidos (com os calcanhares para frente, para fins de desnortear os malfeitores da natureza), o Curupira representa a cultura dos povos originários, cujo foco é a preservação do meio ambiente. Ele é o símbolo protetor dos animais e guardião das florestas.

Nessa biosfera vital, seres lendários, como ele, combatem os caçadores e os devastadores, que exploram, mais do que o necessário, os recursos naturais, sem considerar as consequências, tanto aos povos originários como aos residentes urbanos e ribeirinhos.

Assim, tal figura lendária denunciará, como mascote da conferência, os problemas enfrentados pelos povos da região, os quais sofrem com a degradação ambiental e a consequente perda da subsistência e da qualidade de vida.  Nesse sentido, nada mais coerente do que evocar também outros seres do folclore brasileiro, como o Saci-Pererê, a Caipora, o Boitatá, para também sensibilizarem o público participante sobre a necessidade de se proteger a diversidade natural, em pleno coração da Amazônia Legal.

Faltando alguns meses para a realização da COP30, a pergunta é quem virá para debater o tema das mudanças climáticas, espelho das desigualdades sociais? Os negacionistas, com certeza, não aparecerão. Recolhidos em suas torres urbanas, ofuscados pela ganância, não veem o que se passa além das sombras e das nuvens cibernéticas. Feitos cínicos ideológicos, vociferam: “Aquecimento global, enchentes, furacões, incêndios devastadores, secas inclementes, geleiras polares em derretimento irreversível!? Tudo não passa de delírio dos ecologistas!”

A previsão é de que o Presidente da alegada “nação mais poderosa” não virá. Mas muitos representantes de seus Estados virão. Contrariando o consenso mundial, que busca fazer uso de formas de energia mais limpas para reduzir o consumo de combustíveis fósseis para fins de mitigar a emissão de gases do efeito estufa, Trump retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris. E, mais, para o enriquecimento dos EUA, promete aumentar a produção de petróleo e gás, incentivando a produção de carros a combustão, o que prejudicará a indústria de carros elétricos. Isso, com certeza, contribuirá para o aumento geotérmico global. Como escreveu o jornalista Rodrigo Lopes, “A alegada Era do Ouro está mais para a Idade Média” (ZH em 20.01.25).

Que venha também o Papa Leão XIV à COP30! Nascido nos EUA, o Bispo migrou ao Peru, país membro da Amazônia Internacional. Durante anos, viveu entre os povos originários. Seria de bom tom ainda a participação da CNBB, já que, por ocasião da abertura da Campanha da Fraternidade 2025, reforçou a importância do evento. A instituição, aliás, declarou que “A Campanha da Fraternidade expressa a disponibilidade da Igreja, no Brasil, em contribuir para que, durante a COP30, as nações possam se comprometer com práticas que ajudem na preservação da maravilhosa obra da Criação”.

Por sua vez, o Presidente do Brasil, colocou o governo federal à disposição do Estado do Pará para fins de ajudar no que for necessário ao evento, mesmo que o saneamento básico da capital, Belém, ainda esteja a níveis muito baixos, especialmente no que se refere ao tratamento da água e do esgoto. Promete que o Estado do Pará vai encantar o mundo por suas belezas naturais e pela diversidade cultural.

Também o Governador do Pará expressou orgulho por sediar uma conferência tão relevante: “É um privilégio para o Brasil e para o Estado do Pará. Estamos ávidos para receber a todos, trabalhando para que possamos, por um lado, fazer um belo evento, mostrando que a Amazônia está preparada para receber os conferencistas à construção do desenvolvimento sustentável na região, o verdadeiro pulmão desse planeta”.

O Presidente da COP30, o embaixador André Corrêa do Lago, por ocasião do lançamento do evento, apresentou uma carta com as diretrizes e objetivos da Conferência. Sugeriu a formação de um mutirão na luta contra as mudanças climáticas, isto é, um esforço coletivo e amplo em favor da proteção do meio ambiente e da transição energética. Sinalizou que há sinais evidentes do aumento da temperatura global e que todos os países devem estar prevenidos para sua contenção, considerando-se o notório aumento do nível dos oceanos pelo derretimento das geleiras. Ao final da Carta, afirma que, apesar da retirada dos EUA do Acordo de Paris, o tempo de agir e preservar a natureza contra os malefícios do Efeito Estufa é agora.

Em recente visita à França, o Presidente Lula, juntamente com a Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, trataram sobre um futuro acordo entre o Mercosul e a União Europeia, o qual envolve questões relacionadas à agropecuária e ao meio ambiente. Por sua vez, o Presidente francês, Emmanuel Macron, confirmou a vinda à COP30. Na ocasião, o Presidente do Brasil participou da Agenda sobre os Oceanos, a qual tem relação com os preparativos do Brasil para sediar o evento.

Enfim, o Brasil, ora país sede da COP30, com apoio dos cientistas, grupos ecológicos, governantes, imprensa e da população como um todo, busca liderar a luta contra o aquecimento global, procurando criar as melhores condições para prevenir mais prejuízos à Mãe Terra. Verbas há, mas ainda falta muita vontade política.

Isso fica evidente a partir de duas questões a serem esclarecidas quanto ao que acontece no país sede da COP30:

  1. Como explicar a aprovação, por parte do Congresso Nacional, em 16/07/25, da Lei 2159/2021, que afrouxa as regras ambientais, as quais flexibilizam as licenças ambientais quanto ao uso da água nas pequenas e médias propriedades, para fins de construção de rodovias, hidroelétricas, viadutos e mineradoras, mediante autolicenças ambientais feitas pelos próprios poluidores? 

2- Como justificar as pesquisas para prospecção de petróleo na zona da foz do rio Amazonas, se o objetivo da COP30 é justamente discutir a diminuição do uso de combustíveis fósseis para combater o aquecimento global?

Valei-nos Curupira, Caipora, Saci-Pererê, Boitatá! Que os virtuosos exemplos do Negrinho do Pastoreio e de São Longinho ajudem os participantes da COP30 a acharem as boas intenções que movem a humanidade nesse pequeno planeta. Zumbi dos Palmares, Sepé Tiaraju, Chica da Silva, Chico Mendes, que venham seus espíritos guerreiros para lutar pela defesa da mãe natureza!  

Vozes da Amazônia (De Roseméri Lorenz)

“Ponha-se no seu lugar!”

Disse-me, a me insultar,

Um filho das caravelas.

“Não posso!” – eu respondi.

“Sempre estive aqui,

Da aquarela, faço parte.

Tu que manchaste a arte

Com o sangue de meu povo.

Querias um quadro novo

E destruíste o meu.

Nem sabes o que perdeu,

E perde todos os dias,

O país que te acolheu.

Na gananciosa cegueira,

Transformas mata em poeira,

Degradas o ambiente.

Por tua mente não passa

Que irás gerar desgraça,

Pois meio não é metade,

Mas essa totalidade

Onde estamos inseridos.

O gelo lá derretido

Inunda o quintal aqui.

E a árvore ali caída

Interfere em tua vida

Mesmo distante de ti.

Como pensas que a ti chega

A chuva que barra a seca,

A água que tu consomes?

Sem a floresta, ela some,

Já que os rios de cima,

Numa sintonia fina,

Alimentam os de baixo.

Não me vem com cambalacho

Pra querer levar vantagem!

Se a mata virar pastagem,

Garimpo e plantação,

Sobreviveremos não

Em um clima tão hostil.

O planeta está febril,

Mas preferes mais carbono.

Nem consideras os danos

Desse teu negacionismo.

Se a Terra é um organismo

E dela fazemos parte,

Não é só ela que arde,

Ardemos conjuntamente.

Por isso, bem francamente,

Te pergunto sem rodeios:

Será que teus vis anseios

E teus efêmeros gozos

Valem a vida de todos?

Assim, não vem decretar:

‘Ponha-se no seu lugar!’

Este é meu lugar… de fala!

(De fala, e não de cala).

Minha boca, tão oca,

É a oca onde ecoam

Clamores dos animais,

Vozes de meus ancestrais.

E sabe ainda o que mais?

Vivo aqui e em todo lado.

Quem sabe até camuflado

Aí, em teu DNA,

Um pouco de mim há?

Se não queres ajudar,

Não refreia minha luta,

Porque a minha conduta

Reflete a minha honra,

Que não se vende ou tomba

Por efeito de ameaça.

Não importa o que tu faças,

Este é meu lugar de fala.

Aqui, eu que digo cala!

E, da Amazônia, cai fora!

Sou Curupira, Caipora,

Sou Boitatá, Pererê.

Pra defender a floresta,

Só falta mesmo VOCÊ!”

https://www.instagram.com/reel/DMq4_9SSa1f/?igsh=azB0NXA3ZHF4aDQx

Assista também esta poesia na voz da autora.

Edição: A. R.

3 COMENTÁRIOS

  1. Sensacional. Dois textos esmagadores. Me sinto honrado em ter dois amigos dessa gergadura. E que o saci não perca a touca por conta dos que amam o concreto.

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