Considerações sobre a vida política na contemporaneidade

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A característica humana de agir e reagir diante dos fatos, neste momento da história política, tornou-se intimidatória, atemorizante mesmo. Diante das circunstâncias desfavoráveis, os indivíduos se condicionam por sentimentos de ódio e violência, com vistas a destruir aquilo que os desagrada.

O mundo que construímos para habitar se reveste de características que nós produzimos, como valores. É possível que o estabelecimento desses valores nem sempre corresponda à expectativa de um mundo ético, no sentido de um mundo fundamentado no que é bom e livre do que é mau.

Estaríamos pensando em utopias irrealizáveis? Ou desenhando um mundo em que os humanos seriam somente pessoas virtuosas? 

Não se trata de fantasias ou contos de fada. Antes, trata-se do desejo de um mundo justo, cuja solidariedade possa ser construída.

O que percebemos é que o mal também habita o mundo, expresso nas ações humanas, cujos valores são construídos pelos sujeitos com seus desejos e contradições. Há necessidade de criarmos formas de superação desse mal e do fenômeno da violência, como decorrência imediata do mal, para que possamos redimensionar a perspectiva de um mundo ético, em que a liberdade e a igualdade sejam seus fundamentos.

A característica humana de agir e reagir diante dos fatos, neste momento da história política, tornou-se intimidatória, atemorizante mesmo. Diante das circunstâncias desfavoráveis, os indivíduos se condicionam por sentimentos de ódio e violência, com vistas a destruir aquilo que os desagrada.

A racionalidade humana tem como uma das características agir e reagir, utilizando mecanismos de aniquilamento e de destruição. Os fornos de Auschwitz não foram idealizados por alguém desprovido de racionalidade, mas por inteligências nas quais os sentimentos de solidariedade e alteridade estavam ausentes.

A tensão não resolvida entre racionalidade e barbárie, como traço cultural da espécie humana, ainda nos amedronta.

Sabemos que as conjunturas da governabilidade e do convívio na sociedade civil não carregam consigo os traços da inocência, desejando uma vida política equilibrada. Ao contrário, constata-se cotidianamente a intolerância e a ausência de solidariedade entre os humanos, na medida em que a beligerância se tornou soberba na sociedade, alimentando a competição entre os sujeitos. Tudo isso estimulado pela ideologia do progresso, que constrói uma corrida para saber quem é o melhor na olímpiada da história.

Talvez fosse permitido pensarmos que a crise ética, que assola o mundo, nos seus quatro cantos, produziu uma espécie de pessimismo persistente. Reflete de parte dos indivíduos o desinteresse e o descaso com a coisa pública, tanto em termos de participação na vida civil, quanto no âmbito da cidadania efetiva, cuja consequência resulta na ruptura do tecido social.

Vemos isso nos continentes em que os povos se fortalecem ou se aniquilam pela guerra contínua, na tentativa de impor um único pensamento, uma única verdade. Nas diferentes situações, constatamos a negação da alteridade, expressas em atitudes intolerantes e preconceituosas, que separam os bons dos maus, construindo muros, numa logica maniqueísta atrasada e absurda.

Os desafios atuais estão a exigir de nós compreensões dialéticas ampliadas, que fortaleçam a democracia para viabilizar a liberdade, condição de convívio inteligente na vida política da sociedade civil.

Os sujeitos sociais devem pactuar a vida digna, sem estarem reduzidos à esfera da escassez. Uma nova utopia? A utopia é o que nos diferencia dos outros seres da natureza, expressando nossa condição humana, nas esferas da racionalidade e da liberdade.

Autora: Cecilia Pires. Também escreveu e publicou no site “Sobre o ódio”:Sobre o ódio – Nei Alberto Pies

Edição: A. R.

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