Revela-se oportuna a volta da Secretaria da Mulher no Estado do Rio Grande do Sul. Afinal, por meio de uma estrutura própria, a articulação e o fortalecimento de ações voltadas à proteção, à promoção e à autonomia das mulheres poderão tornar-se mais efetivas. Salve Diadorim, Capitu, Macabea, Ana Terra! Salve todas as circulantes das veredas perigosas de nossa sociedade! Que vossa luta não seja vã!
Esta publicação é escrita a duas mãos, pelos Convidados Eládio Vilmar Weschenfelder e Roseméri Lorenz.
(Por Eládio Vilmar Weschenfelder)
“Quando mergulhei pela primeira vez no romance Grande Sertão: Veredas, (1946), de João Guimarães Rosa, talvez pela imaturidade, pela extensão, ou pela forma de sua narração, prometi me banhar outras vezes nas mesmas águas literárias. Resultado: a compreensão de seus múltiplos sentidos, magicamente, ampliou-se para maior e melhor, pois procurei andar por novas veredas, seguindo o rio em suas variadas faces.
Senti-me estimulado a reler e treler o referido romance rosiano em tempos diferenciados, em exatos intervalos de dez anos. Nesse hiato, um estudioso machadiano confessou, em sala de aula, que, no Brasil, há três grandes escritores, os quais deveriam ter recebido o Prêmio Nobel de Literatura: Machado de Assis, João Guimarães Rosa e Rubem Braga. Passado um mês, retificou o parecer, revelando que dois deveriam ser os grandes ícones literários: Machado de Assis e João Guimarães Rosa.
Em Machado, textos como Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas e contos como O Alienista, Pai Contra Mãe, O Espelho, Na Arca, O Sermão do Diabo, dentre outros tantos, impressionam pelo mais alto grau parodístico com outros clássicos da literatura ocidental. Por sua vez, as leituras das obras de Rosa, como Sagarana, Corpo de Baile, Primeiras Estórias, Manuelzão e Miguelim e, em especial, Grande Sertão: Veredas, fascinam pelos neologismos, pela construção dos personagens e pela forma inusitada das narrativas.
No entanto, para a surpresa da turma, ao término da disciplina, tal estudioso concluiu que, no Brasil, dentre tantos poetas, contistas, cronistas e romancistas há, na verdade, apenas um grande escritor canônico: João Guimarães Rosa. A afirmação tornava-se ainda mais espantosa, considerando que a referida disciplina intitulava-se “A Ficção de Machado de Assis”.
Ainda espantado e balançando entre a qualidade das obras machadianas e roseanas, mergulhei de vez no Grande Sertão: Veredas, percorrendo o espaço interiorano de Minas Gerais, Goiás e o Sul da Bahia, tendo como grande guia o Rio São Francisco. Fui descobrindo que a obra é um dilúvio de antíteses e metáforas, que explora o antagonismo entre o bem e o mal, o Deus e o Demônio, a violência belicosa, fruto das intrigas de interesse político e econômico, onde a justiça era feita com as próprias mãos. Vida para uns, morte para outros.
Havendo poucos interlocutores, o recurso predominante utilizado por Rosa é o monólogo. Uma espécie de “diálogo reflexivo”, onde os neologismos são significativos nessa luta com as palavras. Poliglota e estudioso dos regionalismos, Rosa lutou com as palavras, mesmo sabendo que, no sertão, o instrumento de luta eram as balas voadoras, cuspidas a partir das carabinas explosivas. Não foi uma luta vã, pois as palavras renovadas ainda estão vivas e contundentes.
A grande questão da obra situa-se entre os jagunços Riobaldo e Diadorim. Ele decisivamente um homem; Diadorim, em meio à guerra, finge ser um guerreiro, mas é Maria Diadorina. Entretanto, isso não fica evidenciado, pois ela se disfarça de homem para lutar, lado a lado, como homem e contra os homens. Uma figura complexa que dissimula a identidade, uma mistura de gêneros, em um universo muito dúbio do ponto de vista da sexualidade, do bem e do mal.
Foi aí que, visitado pela “Eureca”, me dei conta de que toda essa dualidade de Diadorim também já fora manifesta, em Maria Capitolina, a enigmática Capitu, da obra Dom Casmurro, de Machado de Assis. Capitu, uma mulher à frente de seu tempo, empoderada e dominadora dos homens; e Diadorim, a dama andrógina, a quem Riobaldo idolatra (capaz de persuadi-lo, até mesmo, a pactuar com o diabo), mas que por ela foi preterido em prol da ocultação de sua identidade feminina. Lado a lado, aí estão duas mulheres, cada uma no seu devido tempo e espaço, unindo e separando dois mundos: o mundo afetivo e o mundo do sertão. Mas ambas andando pelas veredas.
O próprio Guimarães Rosa[1], em relação à etimologia do termo veredas, numa carta ao tradutor alemão Curt Meyer-Classon, afirmou:
Mas, por entre as chapadas, separando-as (ou, às vezes, mesmo, no alto, em depressões no meio das chapadas), há as veredas. São vales de chão argiloso ou turfo-argiloso, onde aflora a água absorvida. Nas veredas, há sempre o buriti. De longe, a gente avista os buritis, e já sabe: lá se encontra água. A vereda é um oásis. Em relação às chapadas, elas são, as veredas, de belo verde-claro, aprazível, macio. O capim é verdinho-claro, bom. As veredas são férteis. Cheias de animais, de pássaros. As encostas que descem das chapadas para as veredas, são em geral muito úmidas, pedregosas (de pedrinhas pequenas no molhado chão claro), porejando aguinhas: chamam-se resfriados. O resfriado tem só uma grama rasteira, é nítida a mudança de aspecto da chapada para o resfriado e do resfriado para a vereda. Em geral, as estradas, na região, preferem ou precisam ir, por motivos óbvios, contornando as chapadas, pelos resfriados, de vereda a vereda.
Assim são as veredas: belas, mas também perigosas. De fato, como bem o disse Riobaldo: “Viver é muito perigoso…” Especialmente para as mulheres, por séculos, obrigadas a andar pelas margens da sociedade, relegadas, invisibilizadas. De um lado, Maria Capitulina, infiel ou não?! De outro, Maria Diadorina, homem ou mulher?! Capitu, julgada adúltera, sem provas concretas, a partir do mero depoimento do marido (ao qual, grande parte dos leitores dá crédito). Diadorim, não obstante os preconceitos machistas daquela época, fez de sua aparência andrógina um meio de viabilizar sua luta.
Na véspera dos 70 anos da publicação do Grande Sertão: Veredas (1956), as histórias de Diadorim e de Capitu podem constituir um bom pretexto à reflexão sobre a situação das mulheres na atual conjuntura, situação esta também marcada pela dualidade entre avanços significativos, como o aumento da participação feminina no mercado de trabalho, o acesso à educação, a participação política e uma maior liberdade, e desafios persistentes, como a desigualdade salarial, a dificuldade de ascensão a cargos de liderança, a sub-representação política, as diversas pressões sociais (como a multifuncionalidade e o padrão estético), e, principalmente, a violência de gênero. No que se refere a esta, aliás, cabe ressaltar o aumento dos bárbaros crimes contra as mulheres, posto que os feminicídios, no Brasil, são de quatro por dia, chamando a atenção o fato de que grande parte delas é atacada no rosto, exatamente a face, que revela sua identidade, reverberando seriamente sobre sua autoestima e suas relações sociais.
Tal situação só evidencia que a busca pela equidade de gênero deve ser uma luta de todos. Se queremos um país verdadeiramente justo, seguro e democrático, é indispensável garantir o fim da discriminação e do preconceito às mulheres em todas as esferas da sociedade.
Nesse sentido, revela-se oportuna a volta da Secretaria da Mulher no Estado do Rio Grande do Sul. Afinal, por meio de uma estrutura própria, a articulação e o fortalecimento de ações voltadas à proteção, à promoção e à autonomia das mulheres poderão tornar-se mais efetivas. Salve Diadorim, Capitu, Macabea, Ana Terra! Salve todas as circulantes das veredas perigosas de nossa sociedade! Que vossa luta não seja vã!
[1] ROSA, João Guimarães apud RÓNAI, Paulo. Seleta de Guimarães Rosa. São Paulo: José Olympio, 1973.

Um Ser tão Veredas
(Por Roseméri Lorenz)
Você
Despertou meu ser,
Sertão a florescer
Depois que a chuva vem.
Tem histórias pra contar,
Veredas a explorar…
Sem faca ou carabina,
Me ensina a lutar: Palavras inventar,
Enredo a se formar
E transformar o mundo ao redor.
Drummond já dizia:
“Lutar com palavras
É a luta mais vã.
Entanto,
Lutamos mal rompe a manhã”.
Amanhã,
Será, de novo,
Um novo dia,
De medo e valentia…
Ousa! Cria!
Me faz companhia
Na arte da grafia,
Sangria desatada
Que nada entretém,
Detém…
Refém
De algo que domina,
Envolve feito sina
E alucina
Sem querer.
– Venha nadar neste rio, Riobaldo!
Resistir já não dá mais,
Tudo embalde.
Não precisa ser assim,
Dia a dia,
Diadorim!
Assim como escrever,
O amor faz só faz doer
Se não pode ser.
Autora da coluna: Rosemeri Lorenz. Também escreveu e publicou no site “Ainda estão aqui”: www.neipies.com/ainda-estao-aqui/
Edição: A. R.











