Bem estar e saúde integral do docente

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Repercutimos, com alegria e satisfação, texto da médica e professora Ana Paula Seibert. Esta publicação é baseada na apresentação e participação no X Congresso dos Professores Municipais de Passo Fundo, realizado pelo CMP SINDICATO no dia 29 de agosto de 2025, que teve como tema central: Precarização da Profissão Docente: e agora?

“Ao propor a reflexão sobre a saúde do professor, antes de mais nada, é preciso pensar sobre o que entendemos que seja saúde: Exames em dia? Dosagem de múltiplas vitaminas? Uso de medicamentos? Sabe-se que a saúde, conforme definição da Organização Mundial da Saúde (OMS), desde 1948, é muito mais do que isso.

De forma muito mais ampla, saúde é, não apenas a ausência de doença ou enfermidade, mas sim um completo estado de bem-estar físico, mental e social. Nós, seres humanos, não somos apenas seres biológicos.

Múltiplos fatores, a saber, o estilo de vida, as redes sociais e comunitárias, as condições de trabalho e vida, como o ambiente de trabalho, a educação, habitação, serviços de saúde, e condições socioeconômicas, culturais e ambientais gerais, influenciam na saúde de todos nós. A saúde é socialmente determinada. É esse o entendimento mais atual do chamado “Paradigma Biopsicossocial”, que é um dos modos de pensar sobre a saúde, utilizado pela área da saúde coletiva, bem como pela minha especialidade dentro da Medicina.

A saúde mental, por sua vez, tão importante para os docentes, sofre a influência de todos esses determinantes sociais, e é definida pela OMS não como um estado sempre calmo de espírito ou a ausência de dificuldades, mas sim como um estado de bem-estar que possibilita desenvolver habilidades pessoais e responder aos desafios da vida (no trabalho, inclusive), contribuindo com a sua comunidade. Qual outra profissão contribui tanto com a comunidade quanto o professor?! Esse trabalhador que forma todas as outras profissões…

Por que falar de saúde docente?

Entre 2022 e 2023, mais de 62% dos professores da educação básica relataram sintomas constantes de estresse, ansiedade ou depressão conforme dados do INEP. Aproximadamente um terço dos professores sofrem da Síndrome de Burnout, em um grupo estudado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), aquele fenômeno atrelado ao trabalho em que a pessoa perde o senso de propósito e tem a sensação de esgotamento laboral.

Ainda, existem os problemas com a voz- instrumento de trabalho – que afetam mais as professoras mulheres, as doenças musculoesqueléticas (dores lombares, tendinites, síndrome do túnel do carpo, etc). E como se não bastasse, a violência escolar triplicou nos últimos 10 anos, tornando esse ambiente de trabalho potencialmente hostil e/ou abusivo.

Os principais fatores de risco para o adoecimento docente incluem fatores individuais, como a obesidade e sedentarismo, tabagismo, abuso de álcool, a história familiar das doenças, presença de doenças crônicas, rede familiar frágil, etc. Mas também fatores coletivos: preconceitos diversos (de gênero, machismo, etarismo, racismo, entre outros), somados à desvalorização docente, a presença de discursos de ódio, a precarização das condições de trabalho, a carga horária excessiva, a vulnerabilidade social da própria comunidade escolar, a fraqueza de mecanismos promotores da saúde docente…

O professor Laércio Fernandes dos Santos escreveu uma interessante reflexão sobre esta temática, a partir de suas anotações no X Congresso dos Professores Municipais de Passo Fundo. Leia também: www.neipies.com/professores-herois-na-propaganda-politica-mas-viloes-no-orcamento-publico/

De fato, percebe-se um grande desequilíbrio entre as exigências feitas ao professor e o apoio recebido, e com esse desequilíbrio, o desamparo ao docente, que é o fator mais adoecedor de todos.

Por outro lado, encontrar a sua rede de apoio, os “cúmplices”, dentro e fora da escola, repensar o papel de profissionais de saúde mental, como os psicólogos, dentro da escola, voltando o olhar para os professores também, fazer uso da intersetorialidade, acionando assistência social, saúde e outros setores sociais quando necessário, são alguns fatores protetivos da saúde docente!

A nível individual, é importante lembrar dos seus limites também, além do seu propósito. Buscar estratégias para lidar com as diferenças, fazer pausas (sempre que possível), alongar-se, hidratar-se, praticar exercício físico (esse com efeitos comprovados tanto para a saúde física quanto mental/social) são outras formas de se cuidar! 

Observar os sinais do corpo e da mente é igualmente importante. Cada um tem o poder de se conhecer. A recorrência e a persistência de sentimentos de tristeza, desânimo, baixa energia, falta de propósito no trabalho, ou em outras áreas da vida, pensamentos de morte, angústia e sintomas ansiosos indicam a a necessidade de buscar ajuda com profissional de saúde. Não deixe o fósforo queimar por inteiro. Olhe para você antes disso.

Por último, mas não menos importante, problemas coletivos exigem soluções coletivas. O enfrentamento à violência, a construção de políticas de valorização docente (cultural e financeira), o aprimoramento dos dispositivos legais e sociais para a promoção de sua saúde e outras ações, só são possíveis a partir da persistência do coletivo.

O professor, portanto, pode estar submetido a diversos fatores de risco que podem prejudicar a sua saúde, no exercício da profissão. A atenção à saúde docente ainda é um desafio, mas compreender as dificuldades e discutir estratégias de enfrentamento a elas, de preferência intersetorialmente (saúde e educação), são passos importantes para superá-lo.

Buscar conexões interpessoais e vínculos significativos ao longo do caminho, da forma como muitos professores que passaram pela minha vida fizeram, e como busco fazer hoje com meus estudantes, é importantíssimo para a nutrição emocional do propósito do professor. Aliar estratégias de cuidado individual às estratégias coletivas é o que mais pode trazer repercussões positivas na saúde e no bem estar docente”.

Referências:

GUSSO, Gustavo; LOPES, José Mauro Ceratti (orgs.). Tratado de Medicina de Família e Comunidade: Princípios, Formação e Prática. 2ª Ed. Artmed

DUNCAN, Bruce B.; GIUGLIANI, Elsa R.J.; SCHMIDT, Maria Inês. Medicina ambulatorial: condutas de atenção primária baseada em evidências. 3. ed. Porto Alegre: ARTMED, 2004.

BRASIL. PORTARIA Nº 4.279, DE 30 DE DEZEMBRO DE 2010, Estabelece diretrizes para a organização das Redes de Atenção à Saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS)

Brasil. Ministério da Saúde. Política Nacional de Promoção da Saúde. [site da Internet]

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Guia prático de matriciamento em saúde mental / Dulce Helena Chiaverini (Organizadora) … [et al.]. [Brasília, DF]: Ministério da Saúde.

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BENEVIDES-PEREIRA, A. M. T. Considerações sobre a síndrome de burnout e seu impacto no ensino. Boletim de Psicologia, São Paulo, v. 62, nº 137, p. 155-168, 2012.

______. (Org.) Burnout: quando o trabalho ameaça o bem-estar do trabalhador.São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002.

NASCIMENTO, Kelen Braga do; SEIXAS, Carlos Eduardo. O adoecimento do professor da Educação Básica no Brasil: apontamentos da última década de pesquisas. Revista Educação Pública, v. 20, nº 36, 22 de setembro de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/36/josepho-adoecimento-do-professor-da-educacaobasica-no-brasil-apontamentos-da-ultima-decada-de-pesquisas

Autora: Ana Paula Seibert. Médica de Família e Comunidade; Mestra em Saúde da Família; Professora do Curso de Medicina na Universidade Federal Fronteira Sul

Edição: A. R.

1 COMENTÁRIO

  1. Agradecemos pela confiança e pelo envio deste interessante texto da autora Ana Paula Seibert. Obrigado!

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