Aprender a sonhar: uma proposta ofensiva para a educação

222

Se as coisas são inatingíveis… ora! Não é motivo para não querê-las… Que tristes os caminhos, se não fora a mágica presença das estrelas! (Mário Quintana, Das utopias)

Sonhar é um dos recursos humanos mais importantes para alimentar a vida e “suportar” a realidade. Mais que sua possibilidade como recurso psíquico, nos interessa explorar sua importância política, visto que se faz mais do que um recurso, stricto sensu, tornando-se um dos principais alentos à construção de alternativas alterativas, insurgentes, transformadoras, revolucionárias. Mas, como sonhar em temos de profundas incertezas e de “retorno ao pior do passado”? Não seria o caso de parar de buscar futuros incertos e, em troca, abraçar momentos efêmeros?

Como sonhar em tempos preditivos? Como fazer da educação um lugar do sonho e do aprender a sonhar? Pensá-lo como parte da educação, como parte do processo de ensinar e aprender é o que nos propomos nesta brevíssima reflexão. E sugerimos que se apresente como uma “proposta ofensiva” para a educação.

Antes de seguir, um breve esclarecimento. “Proposta ofensiva” se inspira no que sugeriu Jacques Derrida no texto “Dónde comienza y cómo acaba un cuerpo docente[1], no contexto da reflexão sobre o ensino da filosofia na França. Trata disso depois de afirmar que “não há lugar neutro ou natural na educação” (1982, p. 61) e de tecer considerações sobre “desconstrução”, que “sempre teve em princípio por objeto o aparato e a função da educação em geral, o aparato e a função filosófica em particular e por excelência” [hegemonizada de forma “falogocêntria”] (1982, p. 66). É na oposição ao que seria uma proposta “escatoteleológica” que sugere que, na que apresenta, estejam “propostas ofensivas”. Propostas deste tipo “se ajustariam ao mesmo tempo ao estado teórico e prático da desconstrução e tomariam formas muito concretas, as mais eficientes possíveis na França, em 1975” (1982, p. 69).

Com o perdão do exagero, uma “proposta ofensiva” não se contenta em defender o que posto, mas se abre imaginativamente para o novo, para gerar o novo, para acolher, cuidar, nutrir e cultivar, “o-que-vém”. A abertura altruísta é a marca de um tipo de educação assim construída, feita não para “repetir e transmitir”, mas para criar e transgredir, insurgir.  Por isso “tudo a ver” propor ensinar a sonhar como ofensivo. Ofensivo não no sentido de causar ofensa e/ou agressão, mas no sentido de promover ataque… para atingir a uma norma, preceito, regra, no sentido de transgressão. Isso implica enfrentar um contexto excessivamente preditivo, que fagocita o criativo, a criatividade, transformando o que se acumulou em insumo para consumir, operando por padrões que apontam tendências – o que, aliás, acontece também com várias pautas chamadas progressistas.

Trabalhar o sonho implica na possibilidade de futuro e de discutir o que pode significar e, principalmente, como será construído e quiçá, realizado, ainda que não integralmente. Futuro é sempre incerteza… um certo acreditar na “possibilidade do impossível”.

I

Para alimentar o sonho é preciso alimentar aquilo que o torna possível. Entre os alimentos do sonho estão os conflitos e as contradições da realidade da vida… algumas delas, quem sabe, venham a ser superadas… são elas que indicam o grau da imperfeição persistente e que segue precisando ser transformada… matar o conflito e a contradição equivaleria a matar o sonho… o impossível não está na harmonia das muitas possibilidades e sim na desarmônica que as caracteriza, ainda que, na busca de harmonia, o que dificilmente se consegue realizar totalmente…

O futuro, quando capturado pelo controle preditivo, se desenha aos moldes de padrões pretéritos comprometidos com interesses coagulados em tendências que alimentam modelos de consumo acumulativos para quem é capaz de capturar as informações necessárias à produção dos padrões e de desenhar as possibilidades ajustadas aos ganhos de quem as controla. Não há lugar para “futuros outros” que não sejam aqueles desejáveis por quem programa a inteligência que os gera: é generativa, no sentido bem estrito do que se pode engenheirar controladamente. Criação? Nada… mais do mesmo, do mesmo que enche as burras do 1% que concentra a riqueza do mundo.

O futuro é capturado por uma retórica ideológica da “inovação”. Os sonhos são literalmente roubados. São traficados, como são as informações e os dados que lhe dão base… não são e nem estão ao comum, ao em comum. A distinção entre preditivo e criativo é aparente, visto que o generativo presente no que seria o criativo é tão controlado quanto o preditivo. Rigorosamente tudo está sob os controles dos modelos matemáticos programados (popularmente chamados de algoritmos). O modelo vai “criar” tendo por base aquilo que aprendeu no treinamento, não somente nos dados, mas principalmente no “modelo”, dos padrões, das distribuições e das estruturas. É uma questão de input e output. A aprendizagem é um acontecimento maquínico, um treinamento, um machine learning.

Num mudo assim, insistentemente programado, agravadamente emburrecido, covardemente capturado, fica difícil a imaginação, quase impossível educação para sonhar. Mas é ela o que alimenta o impossível… é ela que abre para a possibilidade de aprender a sonhar… aprender do sonho… Buscaremos em inspirações críticas subsídios para seguir a sonhar e a fazer da educação um sonho que alimente sonhos…

Davi Kopenawa, em A queda do céu,[2] faz do sonho o principal alimento da educação. Segundo ele, os “brancos”, os napë, aqueles que, na língua yanomami, são equivalentes a “inimigos”, “estrangeiros”,[3] temos uma prática de conhecimento que, no fundo, é de esquecimento (“seu pensamento é cheio de esqueci­mento” (2015, p. 140)), e precisamos anotar tudo em “peles de papel” o que vamos falar, pior, nossa fala não vem de longe e nem vai muito longe… esta talvez seja a mais dramáticas das qualidades do “sombrio”: estar cada vez mais desenraizados e cada vez mais abandonados dos sonhos.

O sonho é o modo de conhecer as coisas. Pois, “quando queremos conhecer as coisas, esforçamo-nos pa­ra vê-las no sonho. Esse é o modo nosso de ganhar conhecimento”. É por ali que se chega aos espíritos, sem os quais não é possível conhecer as coisas: assim é que se abrem os “os caminhos dos xapiri” e, dessa forma, podem fazer “crescer meu pensamento” (2015, p. 465). Com as palavras dos espíritos “dentro de nós”, têm a garantia de que “não se perdem jamais”. Ademais, com elas é que “podemos pensar com retidão” (2015, p. 466).

O conhecer, finalidade precípua da aprendizagem é um exercício de introjetar, de ouvir, de colocar dentro aquilo que faz “crescer meu pensamento”, os espíritos, os xapiri. A verdade construída pelo pensar reto, não vem do excesso de preocupação com os objetos, as mercadorias, o mundo exterior, mas com o mais profundo e permanente cultivo aberto e profundo do próprio espírito no encontro com os espíritos ancestrais. O saber, mais, a sabedoria, não vem do dado e nem dos dados, vem da “escuta” dos espíritos, mais do que “história” (2015, p. 458), são “nosso histórico” (2015, p. 466).

Franz Hinkelammert, na Crítica à Razão Utópica (1983)[4], diz que há uma polarização decisiva entre o possível e o impossível, sendo que ela tem como critério limite a “reprodução da vida humana real e concreta”.

Uma razão utópica no mau sentido é aquela que trabalha com um mau infinito, com um impossível limitador, quase que como que com uma distopia, uma ilusão. O que fica patente é que o impossível é necessário, não porque coincidam no que há de conteúdo que faz do impossível uma necessidade, o que se tornaria uma determinação, o que exatamente o destruiria em sua condição de impossibilidade. A questão é que a necessidade do impossível se põe como um contrafático ao possível ao modo da política como arte do possível e somente com a abertura ao impossível haveria as condições para efetivar o possível. Sem horizonte não haveria caminho.[5]

Paulo Freire, na Pedagogia do Oprimido (1968)[6], diz que o exercício de superação das “situações-limite” mediante “atos limite” indica que há um conjunto de processos e de tarefas que cabem ao ser humano na dinâmica concreta de sua libertação. No horizonte está a inauguração do “inédito viável”, que consiste no “mais além delas e em relação com elas”, as “situações-limite” (1975, p. 110).

O novo, a liberdade, não está fora da realidade; é parte da construção da libertação, de sua viabilização não como o mesmo da opressão, mas como o inédito, da humanização. O “inédito viável” implica no “desaparecimento da opressão desumanizante” e, para isso, “é imprescindível a superação das ‘situações-limite’ em que os homens [e as mulheres] se acham quase coisificados” (1975, p. 111). O inédito viável é um modo de afirmação da possibilidade do impossível ou, da realização de alternativas que enfrentem acontecimentos que limitam a ação. Ele é a porta aberta para a efetivação da libertação como realização de uma utopia que é inédita e viável.

Enrique Dussel em 14 Tesis de Ética (2016)[7], discute o tema no contexto do “princípio da factibilidade”. A proposta de “possível” é apresentada por Dussel sob a denominação de “factível”, “operável”, “depende de muitos níveis de possibilidade”. Ele distingue “o que é possível de ser pensado […] mas que é impossível empiricamente [como o planejamento perfeito]”; o que “pode ser empiricamente possível segundo as leis necessárias da natureza, porém impossível a partir de outras condições” (2016, p. 97); o que “pode ser economicamente possível, porém politicamente impossível”; “ser politicamente possível, porém culturalmente impossível” e assim sucessivamente (2016, p. 98).

O utópico, assim como a alteridade, “irrompe” como o que “nunca foi imaginado como possibilidade”, irrompe como “poder-ser”, como “pro-jeto”. Este novo não é uma “potência no sistema”, não é “passagem da potência ao ato”. Pelo contrário, é a passagem “do impossível ao ato”, uma “atualidade imprevisível”, sempre “acrescentada pela liberdade do [da] outro [outra]”, mais do que uma “probabilidade estatística”, “fixa um novo atalho”, nas “pegadas da alteridade”.

A experiência criativa, fonte da utopia e alimento da libertação, constitui o “princípio criativo ético de factibilidade”. Este princípio é enunciado da seguinte maneira: “devemos pretender a criação de práxis e de instituições que, em favor da vida das vítimas e partindo dos acordos por elas feitos, efetivem empiricamente aquilo que é possível. Possibilidade que, como um horizonte, encontra-se aquém da impossibilidade do idealista (de extrema esquerda ou de direita que, por exemplo, nega o Estado, um porque é inevitavelmente sempre repressor e o outro em nome da liberdade de mercado) e além da impossibilidade do conservador, pondo em obra com sabedoria prática (a phrônesis subsumida no consenso comunitário) o novo, possível e melhor que o vigente, em favor dos oprimidos, sabendo que os erros são inevitáveis, que a aplicação do princípio é falível, porém que podem ser corrigidos no processo da práxis pela interpelação e participação das próprias vítimas” (2016, p. 184).

Enfim, o principal desafio é realimentar o sonho, para o que é necessário recuperar as condições para escutar os espíritos, fazê-los dançar, para o que é preciso “reencantar o mundo”. Aprender a sonhar, a alimentar o sonho, a acreditar que o impossível tem possibilidade, é recolocar a imaginação não só no poder, como pediam as juventudes do maio de 1968, mas em tudo, na vida, em toda a vida e, especialmente na educação como prática do sonhar… com aprendizagem que faz sonhar e que alimenta as imaginações…

Autor: Paulo César Carbonari. Doutor em filosofia (Unisinos), professor de PPGPDH/UFFS e membro da coordenação nacional do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH Brasil), coordenador do Projeto Sementes de Proteção Popular (SMDH/MNDH, Avuar com apoio da União Europeia). Também escreveu no site “Ainda estamos aqui”: www.neipies.com/ainda-estamos-aqui/


[1] Publicado numa coletânea [versão em espanhol do original de 1976]: GRISONI, B. Políticas de la filosofia. Trad. Oscar Barahona e Uxda Doyhamboure.México: Fondo de Cultura Económica, 1982. p. 57-108. OBS. Todas as citações são traduções nossas.

[2] KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. Trad. Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

[3] Ver nota explicativa no Prefácio de A queda do céu, de Eduardo Viveiro de Castro (2015, p. 12-13).

[4] HINKELAMMERT, Franz. Crítica à Razão Utópica. Trad. Alvaro Cunha. Rev. H. Dalbosco. São Paulo: Paulinas, 1988.

[5] Ver nosso artigo “Utopia e Libertação: alternativas para fazer possível o impossível!”, publicado em CASTRO, Fabio C. L. de; SERPA, Valentinne (orgs.). Filosofia Latino-Americana. Semana Acadêmica do Curso de Filosofia da PUCRS. Porto Alegre: Fundação Fênix, 2020. p. 117-136. Disponível em https://fundarfenix.com.br/ebook/62-filosofia-latina-americana/ 

[6] FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975.

[7] DUSSEL, Enrique. 14 Tesis de Ética. Hacia la esencia del pensamiento crítico. Madrid: Trotta, 2016.

Edição: A. R.

DEIXE UMA RESPOSTA