Um planeta com problemas e Shukla também. O seu protagonismo na ciência da mudança do clima e a sua postura pública em defesa da causa despertaram a ira dos negacionistas e desencadeou-se uma devassa nos seus financiamentos de pesquisa em busca de alguma malversação no uso dos recursos, especialmente oriundos de fundos públicos.
Jagadish Shukla, o laureado climatologista indiano, radicado nos Estados Unidos da América, lançou, recentemente, o seu livro de memórias, “A billion butterflies – A life in climate and chaos theory”. Mas além da história pessoal do autor, a obra contempla a narrativa de quem acompanhou de perto as descobertas que revolucionaram as previsões de tempo e clima no mundo, nas suas mais diferentes escalas, desde os prognósticos meteorológicos para o dia a dia, passando pelas variações climáticas sazonais e intrasazonais até as projeções de mudança do clima global.
Shukla que, atualmente, é professor emérito da George Mason University, no estado da Virgínia, embora, aos 80 anos, com aposentaria anunciada para 2025, usa como prólogo do livro a sua experiência como docente da disciplina básica sobre aquecimento global, Clima 101, que ministra naquela instituição.
Destaca que, todos os anos, inicia as aulas com a mesma pergunta, em que pede para levantar a mão quem se atrever a responder por que, à noite, esfria? Muitas mãos são levantadas. Ele escolhe, aleatoriamente, alguém para dar a resposta. Invariavelmente, com a concordância da maioria dos estudantes, a resposta tem sido essa: “porque o sol se põe e a Terra não recebe o seu calor”. Que tal? A resposta lhe parece correta? Você responderia dessa forma ou daria o seu aval? Lamento pela desilusão, não que esteja errada, mas é apenas parcialmente certa.
A resposta ideal seria a que possibilitasse entender o que é clima e o que pode causar a sua mudança.
Não se deve ignorar que a Terra, assim como qualquer objeto sujeito às leis da Física, está constantemente perdendo energia. Durante o dia, o Sol contrabalança essa perda de energia aquecendo a superfície do planeta com os seus raios solares (a atmosfera se aquece de baixo para cima). À noite, a Terra continua perdendo energia, mas não há a compensação do Sol. Anualmente, a Terra perde ao redor de 122.000 trilhões e Watts de energia para o espaço. Uma quantidade equivalente recebe do Sol. É o balanço entre essa entrada e saída de energia que determina o clima da Terra, que, ao longo dos últimos 10 mil anos, configurou uma temperatura média, na superfície do planeta, ao redor de 14,0 ºC. Todavia, nos últimos 150 anos, com a elevação da concentração dos gases de efeito estufa na atmosfera, a entrada de energia do Sol continua inalterada, porém a saída de energia para o espaço diminuiu, fazendo com que a temperatura média da Terra subisse para 15,0 ºC. Isso, expresso de forma simples, pela mudança positiva do balanço entre a entrada de radiação de ondas curtas (Sol) e a saída de radiação de ondas longas (Terra) é o que se chama de mudança do clima ou aquecimento global.
O professor Shukla admite que, no início chegou a relutar em aceitar a tese do aquecimento global. Mas abraçaria a causa do IPCC, integrando-se ao grupo de trabalho que trata da ciência física da mudança do clima, tendo se destacado como figura de proa do 4º Relatório do IPPC, de 2007, que seria agraciado, junto com Al Gore, com o Prêmio Nobel da Paz daquele ano. Foi esse relatório que estabeleceu que o aquecimento global era real, que era causado, principalmente, pela atividade humana e que o planeta estava com problemas. Desde então, relatório após relatório, o IPCC continua dizendo a mesma coisa.
Um planeta com problemas e Shukla também. O seu protagonismo na ciência da mudança do clima e a sua postura pública em defesa da causa despertaram a ira dos negacionistas e desencadeou-se uma devassa nos seus financiamentos de pesquisa em busca de alguma malversação no uso dos recursos, especialmente oriundos de fundos públicos. O processo foi, definitivamente, arquivado em 2017. Pagou um preço alto por defender a integridade da ciência do clima.
Inquestionavelmente, o aquecimento de 1,0 ºC na atmosfera pode representar a retenção de 7% mais de umidade no ar, antes de condensar, explicando a causa de se tornarem mais frequentes e devastadores os alagamentos por chuvas intensas no mundo (inclusive por aqui). As temperaturas dos oceanos podem ter impactos dramáticos no clima de locais distantes no mundo. Esse é o caso, por exemplo, de El Niño e La Niña, perturbando, a partir do Oceano Pacífico, o clima no sul do Brasil.
A esperança do Professor Jagadish Shukla reside no fato de que, das três coisas necessárias para manejar e mitigar a mudança do clima global, duas delas estão a nossa disposição.
A primeira: precisamos entender a ciência do clima. Isso é fato dominado. A segunda: necessitamos de tecnologias para diminuir a emissão dos gases e efeito estufa para a atmosfera. Indiscutivelmente, com a transição energética para energias limpas e a economia verde, avançamos muito. O que nos falta? Talvez vontade para abraçar a causa da ciência e da tecnologia, diminuído a voz ruidosa dos negacionistas de ocasião. A ação, segundo Shukla, é o melhor antídoto para a ansiedade climática que ora assola muitas pessoas no mundo.
Não é sem razão que Jagadish Shukla dedica o livro às netas Natasha, Aastha e Aarushi, na esperança que elas irão se adaptar e florescer no clima futuro que vamos lhes deixar como herança. Para elas e para as futuras gerações.
Autor: Gilberto Cunha. Também escreveu e publicou no site “Charlie Browm e Snoopy discutem o acordo de Paris”: www.neipies.com/charlie-brown-e-snoopy-discutem-o-acordo-de-paris/
Edição: A. R.











“A esperança do Professor Jagadish Shukla reside no fato de que, das três coisas necessárias para manejar e mitigar a mudança do clima global, duas delas estão a nossa disposição.
A primeira: precisamos entender a ciência do clima. Isso é fato dominado. A segunda: necessitamos de tecnologias para diminuir a emissão dos gases e efeito estufa para a atmosfera. Indiscutivelmente, com a transição energética para energias limpas e a economia verde, avançamos muito. O que nos falta? Talvez vontade para abraçar a causa da ciência e da tecnologia, diminuído a voz ruidosa dos negacionistas de ocasião. A ação, segundo Shukla, é o melhor antídoto para a ansiedade climática que ora assola muitas pessoas no mundo”. (Autor: Gilberto Cunha)