Até construir amizades, arrumar uma namorada, fui sempre que pude à lancheria do Nardes comer as bolachas recheadas e tomar a batida de banana na esperança de que às 15h30 de uma daquelas tardes a primeira namorada do Jonas entrasse para comprar bala de hortelã.
“Cabelos longos, olhar profundo e cativante…” – dizia Nardes, o dono da pequena lancheria que ficava embaixo do prédio onde, aos dezoito anos, fui morar pela primeira vez longe da família.
Nardes, não tenho certeza se era esse mesmo o seu nome, contava de uma jovem mulher, uma “guria” linda que todas as tardes passava pela calçada. Algumas vezes entrara para comprar bala de hortelã. “Ela foi a primeira namorada do Jonas, aquele cabeludo da banda. Quase namorada, porque em poucos dias ela não o quis mais”. E continuava a elogiar sua indescritível beleza.
Um dia, na lancheria, um homem mais velho alertou-me: “Nardes é um escultor preocupado em descrever uma obra de arte, não uma jovem mulher. Se é que ela existe”.
O problema era que eu, naquelas alturas, ainda solitário, apenas começando a conhecer os colegas de faculdade, queria que a primeira namorada do Jonas não fosse apenas uma escultura mental do dono lancheria. Sempre que dava, às 15h30, o horário mais provável de ela passar em frente à lancheria, estava eu lá comendo um pacote inteiro de bolacha recheada e tomando um copo grande de batida de banana.
“Olha! Olha! Ela está passando!” – foi só o Nardes falar e eu me virei para ver. De relance, só vi a cor azul de um vestido. Fiquei com vontade correr para a calçada, mas me dominei.
O Nardes poderia estar me aprontando, poderia ser outra guria e eu passar por bobo. Afinal, até então só escutava quieto, não revelava que estava mergulhado na fantasia criada por ele. Não me mexi. E o Nardes: “Perdeu! Perdeu de ver a imagem mais bonita que poderias ver na tua vida. Azar! Mas volte amanhã!”
Houve uma vez que, por ter passado a noite estudando para uma prova, cochilei com a cabeça escorada no braço sobre o balcão. Tive um sonho curto como o cochilo: a primeira namorada do Jonas estava de bermudas e suas pernas lindas estavam com os leves pelos arrepiados de frio; de repente, ela falou muito perto de mim perguntando se eu já tomara a batida de banana. Levei um susto que me acordou!
Outra vez, assim como quem pergunta por perguntar, quis saber o nome da primeira namorada do Jonas. Nardes apenas respondeu que não sabia e foi atender outros fregueses.
Não pude mais continuar negando, Nardes era um escultor mental, talvez nada além disso estava acontecendo. Mas a mentira dele, que bem podia não ser mentira, me fazia bem. Na solidão uma boa fantasia é útil, ajuda! É como uma luz de uma luminária (foto) a clarear a escuridão de quem se sente só.
Até construir amizades, arrumar uma namorada, fui sempre que pude à lancheria do Nardes comer as bolachas recheadas e tomar a batida de banana na esperança de que às 15h30 de uma daquelas tardes a primeira namorada do Jonas entrasse para comprar bala de hortelã.
P.S.: essa história é citada brevemente no longa metragem POR UMA ALEGRE MEIA TARDE. DRAMA 81′ que pode ser visto sem custo no YouTube Canal Jorge Salton ou pelo link: https://youtu.be/TCRQPkaFrAQ?si=JZLD172vkOW3s-OK
Autor: Jorge Alberto Salton. Também escreveu e publicou no site “Como faz bem ouvir, de vez em quando que seja, que nós também somos bons”: https://www.neipies.com/como-faz-bem-ouvir-de-vez-em-quando-que-seja-que-nos-tambem-somos-bons/
Edição: A. R.











