1ª Carta – A Dor e a Esperança em Sala de Aula: Vozes de Uma Professora da Rede Municipal de Passo Fundo

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Repercutimos interessante reflexão de professora da rede municipal de Passo Fundo, RS. Dentre as ricas reflexões, destacamos que “quando os professores não têm condições mínimas de trabalho, quando suas experiências são desconsideradas, é a própria base do ato educativo que é corroída. Boa leitura!

No cotidiano da rede municipal, percebo o cansaço que atravessa os gestos e a voz dos colegas. Já não são apenas os corpos que acusam a sobrecarga é a mente que adoece. A desvalorização se materializa em salários defasados, infraestrutura negligenciada e na ausência de políticas públicas que promovam, de fato, nossa dignidade. Como nos lembra Paulo Freire, a escola pública não é neutra, mas um espaço de disputa política, onde ideologias, saberes e interesses sociais se confrontam. Nesse contexto, a prática docente é constantemente atravessada por estruturas burocráticas, exigências desumanas, interesses econômicos e a falta de reconhecimento social.

A dor que se instala nas escolas é mais do que individual ela expressa uma realidade coletiva, marcada por um sistema que insiste em tratar o ensino como mera execução técnica, desconectado da vida, da escuta e do cuidado. No entanto, ensinar exige mais do que conteúdo: exige vínculo humano, exige afetividade. Freire compreende a afetividade como parte inseparável do ato educativo, pois ensinar é também amar, respeitar, escutar, criar presença e construir vínculos reais com os sujeitos da aprendizagem. Quando as relações dentro da escola são esvaziadas de afeto, a esperança e a criação se tornam mais difíceis. Essa realidade exige atenção urgente.

Em Pedagogia da Autonomia, Freire afirma que: “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.”

Mas como criar essas possibilidades quando a rede municipal nos sobrecarrega com tarefas excessivas, ausência de suporte e esvaziamento emocional? Como dialogar, formar e transformar se estamos adoecidos?

A falta de reconhecimento e o distanciamento da sociedade agravam ainda mais esse cenário. Frequentemente, somos tratadas como simples executoras de tarefas, e não como profissionais que formam consciências críticas, que constroem cidadania e que atuam sobre a realidade. Essa própria noção de realidade como experiência vivida, sensorial e histórica é central na pedagogia freiriana. Ao contrário da educação bancária, que ignora o mundo concreto dos educandos e educadores, Freire propõe uma educação que parta da realidade cotidiana como ponto de partida para a reflexão crítica. A prática pedagógica precisa partir do mundo vivido para ter sentido. Quando os professores não têm condições mínimas de trabalho, quando suas experiências são desconsideradas, é a própria base do ato educativo que é corroída.

Freire também nos alerta que: “A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não pode temer o debate. A análise da realidade. Não pode fugir à discussão criadora, sob pena de ser uma farsa.” Mas como exercer essa coragem em um ambiente onde o debate é silenciado? Quando defender a escola pública vira motivo de censura? Quando reivindicar condições de trabalho é visto como afronta?

Amamos o que fazemos, mas o amor, por si só, não paga as contas, não afasta o adoecimento, nem assegura condições para seguir lutando. O reconhecimento da dor é, portanto, um primeiro passo para transformá-la. Pesquisas sobre saúde pública e educação popular mostram que o adoecimento docente é reflexo de estruturas sociais excludentes. A escola, que deveria ser lugar de formação, cultura e acolhimento, tornou-se muitas vezes o local onde se acumulam e explodem tensões políticas, econômicas e emocionais.

Ao afirmar que: “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo; os homens educam-se entre si, mediatizados pelo mundo”, Freire nos lembra que a educação é um processo coletivo e relacional. No entanto, sem apoio, sem políticas de valorização e com a intensificação das cobranças, os professores seguem isolados, desamparados, tentando sustentar sozinhos uma estrutura que deveria ser responsabilidade de toda a sociedade.

É por isso que a escola também precisa ser lugar de construção de consciência crítica ou, como diria Freire, de conscientização. Esse processo vai além de conhecer conteúdos: é desenvolver a capacidade de interpretar e agir sobre a realidade, compreendendo que ela não é estática, mas construída socialmente, e por isso pode (e deve) ser transformada.

A educação não pode ser um ato de repetição. Precisa ser um movimento de leitura do mundo, de denúncia das injustiças e de anúncio de possibilidades. Dentro desse movimento, é essencial compreender nossa historicidade: somos condicionados pela realidade, mas não determinados por ela. Podemos agir sobre o que nos cerca.

A escola precisa possibilitar aos sujeitos estudantes e professores essa percepção de que a história não é destino, mas construção. O presente que nos oprime não precisa ser o mesmo futuro que construiremos. Diante disso, é urgente afirmar: é essencial formular políticas públicas que considerem o docente como sujeito de saúde, dignidade e valorização. A sociedade precisa resgatar o entendimento de que investir na escola pública é investir no futuro coletivo. Precisamos de condições para exercer o magistério com alegria, criatividade e compromisso.

Por fim, mantenho a fé no poder transformador da escola, como Freire defende em Pedagogia da Esperança. Mas é uma esperança que caminha junto com a luta, com a denúncia e com a ação. Somente com políticas públicas justas, com escuta real da categoria e com valorização concreta, poderemos transformar a dor em potência, e a sala de aula, em território de criação, liberdade e cuidado. Apesar dos desafios, seguimos acreditando na educação como prática da liberdade.

Como nos ensina Freire, “A educação é um ato político e não pode ser neutra.” Educar é resistir, é sonhar, é reconstruir a realidade com afeto, consciência e coragem juntos.

Autora: Mestranda Juliana Alves Gomes, Instituto Federal Sul-Riograndense.

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