Abordar as religiões de matriz em um curso de extensão significa
trazer para o território da universidade os sujeitos que constroem essas tradições religiosas. Nosso objetivo era valorizar os saberes tradicionais das religiões de matriz africana, desfazendo noções discriminatórias e racistas, a partir da troca de saberes entre as comunidades acadêmica, passo fundense e o povo de santo.

 

O final do ano se aproxima e é hora traçar as perspectivas para o próximo. Para isto, proliferam-se orientações ritualistas das mais diversas tradições religiosas para essa transição. Contudo, neste período nenhuma outra religião é mais lembrada que as de matriz africana.

Ialorixás e babalorixás são chamados para programas de televisão para previsões do ano, segundo o orixá regente do ano. Não são raras as vezes observar pessoas pulando as 7 ondas na praia. O que faz com que a relação com as religiões de matriz africana fique restrita somente a estes dias? Ou, em outras palavras, por que os rituais destas religiões não estão presentes em outros períodos do ano? Qualquer resposta à essa pergunta é complexa. Contudo, uma possível pode estar no racismo presente na sociedade brasileira.

No ano de 2016, pelo projeto de extensão UPF e Movimentos Sociais: desafio das relações étnico-raciais, coordenei o curso de extensão em saberes tradicionais: religiões de matriz africana. O curso foi ministrado por mim, pela Ialorixá Carmem Holanda (de uma tradição do candomblé), Baba Akinele (do batuque), com auxilio do Laboratório de Estudo das Crenças (LEC/PPGH) representado pela professora Gizele Zanotto e o estudante extensionista Jeferson Sabino e com o apoio das seguintes entidades: Associação Cultural das Mulheres Negras, Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo, Coordenadoria de Promoção da Igualdade Racial, Sociedade Beneficente e Cultural Ilê Asé Alafim Oba Aganjú Jetioká (Carazinho), Egbé Asé Akinele, Associações dos Remanescentes dos Quilombos da Arvinha e Mormaça (Sertão), IFSUL, Grupo Alforria/Confraria de São Miguel.

A Universidade, pelo seu methier acadêmico, com muros quase intransponíveis, estabelece uma relação de distanciamento com as religiões de matriz africana. Estas, em alguma medida, na maioria das vezes, são concebidas como objetos de nossos projetos acadêmicos. Mas, este não era nossa abordagem.

Abordar as religiões de matriz em um curso de extensão significa trazer para o território da universidade os sujeitos que constroem essas tradições religiosas. Nosso objetivo era valorizar os saberes tradicionais das religiões de matriz africana, desfazendo noções discriminatórias e racistas, a partir da troca de saberes entre as comunidades acadêmica, passo fundense e o povo de santo.

No curso de extensão compreendemos saberes tradicionais como aqueles construídos a partir de uma identidade própria, história partilhada, memória e um território, que lhes permite desenvolver relações próprias e diferenciadas com a natureza, tanto no plano simbólico quanto no campo das técnicas e modos de fazer e produzir, distintas daquelas existentes nas sociedades urbano-industriais (Cunha, 2007).

As religiões de matriz africana estão baseadas em saberes construídos a partir de tradições orais que ancestrais, orientados por valores simbólicos que fogem à lógica burocrático-racional. Cada ialorixá traz consigo o saber acumulado, através de experiências transmitidas do passado, durante o contato social do grupo – nas instituições familiares, religiosas, educativas.

Esses saberes tradicionais africanos tomaram conta da UPF, em dez encontros temáticos que contemplavam a diversidade das religiões de matriz africana, culinária e orixás, linguagens e atabaques, natureza e cura, intolerância religiosa, que culminaram na formatura. Contudo, alguns encontros foram realizados no ile Igbè Asè Akinele como forma de ir ao encontro dos territórios destas tradições. O curso tinha como participantes estudantes da UPF e professores da UPF e da rede pública de ensino, das áreas do direito, jornalismo, publicidade e propaganda, serviço social, educação, história, psicologia, que estavam dispostos a colocar as lentes da matriz africana. A sala de aula, como templo de produção do conhecimento, com folhas de árvore dispostas ao chão fora transformada simbolicamente num terreiro.

É importante que a universidade contribua, não na visibilidade destas religiões, mas na construção de uma outra perspectiva sobre elas. As religiões de matriz africana, em muitas vezes, na sociedade brasileira, são classificadas como categoria de acusação. Neste sentido, as universidades têm um papel fundamental ao combater concepções discriminatórias e racistas. Porém, este posicionamento não pode ficar somente no plano téorico, ele necessita ser publicizado.

A formatura do curso de saberes tradicionais foi um momento importante no qual a universidade reconheceu os saberes produzidos por essas tradições religiosas. São saberes orientados por parentescos entre pessoas e divindades que constróem vidas, por mãos calejadas, que no soar dos atabaques, informam uma orixalidade, por corpos, construidos ritualmente, que ao transgredir tempo e espaço, nos ressignificam no axó e que merecem respeito e reconhecimento.

Portanto, as religiões de matriz africana devem ocupar os espaços da sociedade. Eles podem nos ensinar a reestabelece nossos vínculos com a natureza, com os nossos ancestrais, com o nosso corpo. São saberes recheados de afeto, tão raros em nossa sociedade, que não podem ficar restritos ao final do ano de forma tão caricata.

Referências bibliográficas

CORREA, Norton Figueirado. O batuque do Rio Grande do Sul: antropologia de uma religião afro-rio-grandense. São Luis: Cultura e Arte, 2006.

CUNHA, Manuela Carneiro da. Relações e dissensões entre saberes tradicionais e saber científico. REVISTA USP, São Paulo, n.75, p. 76-84, setembro/novembro 2007, Disponivel em http://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/13623/15441.

PRANDI, Reginaldo. O CANDOMBLÉ E O TEMPO Concepções de tempo, saber e autoridade da África para as religiões afro-brasileiras. RBCS Vol. 16 nº 47 outubro/2001. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69092001000300003.

Documentários

Atlântico Negro – Na Rota dos Orixás. Disponível aqui.

A Tradição do Bará do Mercado – Documentário Completo – Porto Alegre/RS. Disponível aqui.

 

Crédito foto: Ingra Costa e Silva
Autor: Frederico Santos dos Santos
Coordenador do Curso de Especialização em Ciências Sociais – 2ª Edição
Professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais
Universidade de Passo Fundo