“Se não vejo na criança uma criança,
é porque alguém a violentou antes
e o que vejo é o que sobrou de
tudo o que lhe foi tirado.”
Betinho

 

As inserções que vemos na TV como as do Médicos sem Fronteiras por ajuda, deixam-nos devastados de dor, por vermos campos de refugiados e cenas de guerra onde crianças morrem ou apenas sobrevivem por causa da fome, das doenças, das epidemias e da violência. São retratos da brutalidade com que os pequenos são tratados em nome da conquista por território, pelo fanatismo predador e pelas decisões de adultos indiferentes ao sofrimento de milhões de criaturas que arrastam sua desgraça pelo mundo.

Ninguém é igual a ninguém! (versão Crianças)

 

Herbert José de Souza (Betinho) morreu antes de ver que os nossos pequenos compatriotas estão, em grande medida, perdendo o brilho no olhar por causa do medo. Nosso país onde a vastidão territorial nos oferece tudo é um campo de guerra de uma crueldade camuflada. Vivemos uma matança pior do que em guerra declarada, o que disfarça nossa condição de um país pacífico. A infância brasileira está sendo vampirizada pelo crime organizado, em todas as suas dimensões.

Herbert José de Sousa (Betinho)

Ninguém ignora os crimes do tráfico de drogas alimentados pela teimosia fundamentalista em não aceitar formas inteligentes de combate, preferindo encarcerar homens e mulheres pobres, enquanto jatinhos e helicópteros singram os ares pátrios transportando produtos cujos donos são também os donos do país, na medida em que ocupam cargos capazes de decidir sobre os nossos destinos.

Também não ignoramos a rapinagem vergonhosa e institucionalizada, que deixa as escolas em estado de penúria, os hospitais sem condições de atendimento digno, os professores em estado de permanente luta pela sobrevivência e, cansados, doentes, sem condições de oferecerem o que têm de melhor, que é o exercício da profissão em sua plenitude. Sabemos da incapacidade que as instituições de saúde e de educação têm de cuidar da nossa infância como merece. Hospitais e escolas funcionam em permanente precariedade.

Sabe-se agora dos conluios entre empresas de transporte público e o poder. Enquanto o povo é transportado em carroças, pagando valores irreais, deputados são pagos pelos donos das sucatas para aprovar mais aumentos, à revelia dos direitos do povo de ir e vir. Segundo empresários do setor, estão sendo achacados pelos poderes legislativos pelo país afora.

As balas perdidas que matam crianças dentro de casa e nas escolas partem da guerra entre bandidos e polícia, deixando em seu rastro famílias destroçadas, que choram a perda de seus filhos e outras devastadas pelo medo.

“A alma da fome é política.” Esta frase é do sociólogo Herbert José de Souza, mais conhecido como Betinho, homenageado desta semana no De Lá Pra Cá.

 

Os direitos das crianças, incensadas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, são usurpados de norte a sul, por canalhas incensados pelas urnas, ou alçados ao poder por práticas no mínimo questionáveis.

Vivemos tempos de guerra, cujo campo não respeita as ruas que rugem por justiça social, onde as balas de borracha zunem, o spray de pimenta machuca e os cassetetes desrespeitam professores, funcionários com salários atrasados, enquanto a roubalheira corre solta.

Urge que cuidemos da infância, para que não tenhamos só o que sobrou dela, mas que ela seja preservada. Nossa luta pelos nossos filhos destoa da atitude presidencial em sua viagem a Hamburgo para uma participação relampado no G20, que, por não querer parar nas Ilhas Canárias para reabastecer o avião, resolveu voar em um avião maior, infinitamente mais caro, o que é um deboche a um país em crise. Isto é uma demonstração simbólica do que o Estado faz pelo país.

Queremos sorrisos, tranquilidade, comida boa, lazer, escolas bonitas e seguras, professores e professoras cuidados e bem pagos, condições dignas de transporte público, pais confiantes e crianças cujo brilho não tenha sido roubado. É pedir muito?

É difícil concluir que tudo isso é possível, desde que o fruto do nosso trabalho não seja roubado sistematicamente. Nós merecemos! Nossos filhos merecem! E as ruas exigem cada vez com mais veemência!

Para falar sobre felicidade, convidamos quem é pós-graduado no assunto.
As grandes transformações acontecem quando olhamos o mundo pelos olhos das crianças.