Num reino encantado, bem longe daqui, mas perto de Susa, reina Luzé. Luzé de luz com muito brilho. O rei tem estranha mania de tocar e intervir em tudo. Onde toca e intervém, joga suas luzes e seus brilhos. Alimenta a ilusão de que reina sobre tudo e sobre todos. Tem pretensão de sempre ser paparicado e exaltado, mesmo quando seus feitos não são os mais acertados e apropriados.

Seu reino é encantado, mas os encantos não afastam as contradições. Luzé considera-se sempre o mais esperto e o mais astuto de todos os reis.  Luzé conta, solidariamente, com contribuições bem medidas e intencionadas de três importantes súditos: Matzu, Zimbá e Neco. Junto com eles, organiza um complexo círculo de governança e de poder. Matzu, um obstinado por frações de poder. Zimbá, um oportunista de plantão. Neco, o mais fiel defensor e escudeiro.

Nenhuma mulher é uma referência em seu reino. Luzé faz questão de estar rodeado de mulheres, ocupando espaços de poder e dividindo responsabilidades. Todavia, sempre em funções bem subordinadas a ele. As mulheres lhe servem na resolução dos maiores problemas, dadas suas capacidades intelectivas e intuitivas.

Luzé sabe que todo reinado corre riscos. Para tanto, deseja imprimir, sem perder tempo, sua grande marca: ocupar todos os espaços físicos para garantir-lhe uma importância relevante. Deseja constituir espaços determinados para o lazer, entretenimento e a diversão do povo. Pretende ainda doar outros espaços para novos empreendimentos para gente influente de seu reino. O rei Luzé tem certeza de que o brilhantismo de suas ideias sempre será maior do que todas as vozes críticas que sobrevivem no seu reino, quase sempre combatidas por sutis mecanismos.

Nesta sua tentativa de ocupar a cidade e dar-lhe novos significados e novas roupagens, vale-se da influência de seus mais importantes súditos. Para realizar seus desejos impetuosos, Luzé faz alianças programáticas com o líder Matzu. Como é jovem, Matzu joga com sua força, sua oratória e jovialidade para impressionar tanto o rei e seus admiradores. Ele até tenta, mas não consegue esconder o desejo de, mais tarde, ser recompensado com um espaço mais privilegiado de poder no reino.  Desejaria, um dia, ser apresentado com grandeza e em praça pública aos súditos e governados pelo rei, como também fora o desejo de Amã, súdito do rei Assuero.

Zimbá é outro líder que colabora significativamente com o rei Luzé. Zimbá é líder de um grupo de governados que mantém os serviços essenciais do reino: educação, saúde, segurança, trânsito, habitação, tributação e pequenas obras. Para muitos deles, nunca inspirou muita confiança. Até bem pouco tempo atrás, declarava-se ferrenho questionador das obras do rei. Contudo, resolveu aliar-se em troca de futuras benesses.

Neco, como todo fiel escudeiro, é sempre firme e fiel ao rei. No passado, alimentava indignação e rebeldia. Para quem o conhecia há mais tempo, passa a impressão de que Neco transformou o vigor das suas rebeldias juvenis em defesas sempre coloquiais, seguras e certeiras em defesa de todas as iniciativas do rei. Talvez, por isso mesmo, o rei não precise nem mesmo de defesas de outros súditos, que lhe são mais próximos.

Com tanto sucesso nesta sua engenhosa forma de governar, o rei Luzé se sente cada vez mais mimado e querido por todos os seus súditos e governados. Quando aparece, mostra sempre um sorriso bem aberto, fácil. Sempre impressiona pela desenvoltura da chegada, pelo calor quase excessivo dos abraços, pelos acenos insistentes e pelos discursos empolgantes.

Contaram que já há súditos e governados que desconfiam dos verdadeiros propósitos do rei Luzé. Preocupam-se os desejos impetuosos do rei que trata de esconder a realidade para seus governados para fins de se perpetuar no poder. Muitos destes já leram O Livro de Ester. Sabem que em todo o reino precisa haver um Mardoqueu e uma Ester para que o poder possa estar a serviço da justiça e não a serviço das vaidades e interesses pessoais de quem quer que seja. Desejariam até mudar de reinado, mas ainda estão órfãos de um líder que represente seus desejos de mudança.