São os anos sessenta, e vida decorre
sem grandes atrativos, exceto a leitura.
Mas temos uma utopia; não podemos desfrutar
as inconsequências da juventude. Somos a mocidade
precocemente amadurecida, que há de conduzir
o Brasil de volta à Democracia.

 

São os anos sessenta, e vida decorre sem grandes atrativos, exceto a leitura. Estou percorrendo a obra de Erico Verissimo.

A renúncia de Jânio Quadros é o primeiro susto. Depois, o episódio da Legalidade: Leonel Brizola tenta garantir a posse do Vice João Goulart, que volta de uma viagem à China. Brizola prepara-se para defender o Palácio Piratini contra um bombardeio anunciado.

(*) Oswaldo França Júnior foi autor, entre outras obras, de Jorge, um Brasileiro (1967), que inspirou seriado de tevê e filme, O homem de macacão (1972), Aqui e em outros lugares (1984), Recordações de amar em Cuba (1986) e No fundo das águas (1987). Morreu jovem, num acidente de trânsito, em 1989.

Aliás, quem irá evitar essa tragédia é um futuro escritor, Oswaldo França Junior(*), mineiro, então muito jovem, servindo à Aeronáutica. Ele, juntamente com alguns colegas, sabotaram os aviões que atacariam o Palácio do Governo. Naturalmente, Oswaldo sofreu as consequências de seu ato.

Passo no Vestibular de Filosofia Pura. Na UFRGS: a única possibilidade de cursar uma Faculdade. O estudo me apaixona; grandes professores como Gerd Bornhein e Frei Antônio do Carmo Cheuiche. A um ano do Golpe de Estado, a vida anda de cabeça para baixo.

Começam as perseguições, as pessoas simplesmente desaparecem da noite para o dia. Ouve-se histórias de horror. Colegas da Filosofia são presos; professores foram e são demitidos e exilam-se no Uruguai, Argentina, Chile, depois na Europa, corridos pelos golpes que se sucedem na América Latina.

Começamos a nos reunir sob o patamar da Faculdade de Filosofia, centro de grandes debates e tensões. Iniciam-se as passeatas, silenciosas ou falantes, da Faculdade ate ao centro da cidade. A polícia nos acompanha pelo trajeto, alguns infiltrados do DOPS, fotografam-nos para os inquéritos, as pessoas do povo nos aplaudem e seguimos pela Paulo Grama, Sarmento Leite, João Pessoa, Salgado Filho, Borges de Medeiros, Rua da Praia. Na Praça da Alfândega os líderes discursariam, nos arrancando gritos e aplausos…

… não, na Praça da Alfandega somos reprimidos por cavalos e policiais, e espancados aos golpes de cassetetes. Corremos para as lojas do centro, e lá nos refugiamos. Os lojistas descem as cortinas de ferro: som que jamais haverei de esquecer. Dentro, no escuro, esperamos por minutos e horas, até poder voltar para casa. Nossos pais, naturalmente, nos imaginam na Biblioteca, que é, na verdade, onde gostaríamos de estar.

Mas temos uma utopia; não podemos desfrutar as inconsequências da juventude. Somos a mocidade precocemente amadurecida, que há de conduzir o Brasil de volta à Democracia.

Avançamos nosso intento, em 21 anos de dores e perdas, com nossa jovem coragem e com o medo de nossos pais.

Na mesma Praça da Alfândega, a Feira do Livro persiste.

Assista à reportagem sobre a escolha de Valesca de Assis
como patrona da 63ª Feira do Livro de Porto Alegre.
Acessse o link aqui.

Conheça um pouco mais da Patrona da 63ª Feira do Livro de Porto Alegre.
Acesse o link aqui.

Booktrailes 03 Valesca de Assis

 

 

, patrona da 63ª Feira do Livro de Porto Alegre 2017.