Onde não há Política no seu sentido pleno, de promoção do bem-comum, de atendimento a quem mais precisa, sobra a politicagem, a promoção pessoal de um vereador, de uma liderança, etc.

 

 

Talvez apenas os adultos entendam esse termo “pinguela”. Lembro da minha infância, quando em visita a meus tios e tias no interior de Seberi, RS, atravessávamos alguma ponte de madeira para transeuntes, construída de forma artesanal pelos próprios agricultores. Muitas vezes essas pontes ofereciam riscos, e nós, crianças, apesar da diversão, tínhamos medo de atravessá-las.

Pontes precárias que eram chamadas de pinguelas.

Faço essa digressão para trazer ao debate um tema incômodo, mas absolutamente necessário. E parto de uma “pinguela”, só que agora localizada no perímetro urbano, na divisa entre Porto Alegre e Viamão.

Gostaria de saber quem construiu a pinguela, se foi o serviço público ou foi iniciativa dos próprios moradores. Mas, o fato é que essa ponte/pinguela, de tempos em tempos precisa de reparos. E quem faz esses reparos? Para fazê-los são necessários equipamentos, material e pessoas capacitadas para a realização do reparo.

Como presidente da Associação de Moradores, várias vezes fui cobrado de providenciar o reparo da pinguela. Numa oportunidade até fiz o contato com o Centro Administrativo Regional (CAR), da Lomba do Pinheiro, e não fui atendido. Mas sempre me perguntei: “para onde vou encaminhar essa demanda?” Isso é função de quem? Do serviço público ou da iniciativa dos moradores? Se for dos moradores, de onde sairão os equipamentos e profissionais qualificados?

De forma mais ágil e com boa vontade, um morador da comunidade, assessor parlamentar, resolveu o problema do seu jeito: ele próprio fez os reparos da pinguela. É claro que ele não tinha os equipamentos e nem a capacitação técnica para realizar o serviço. O resultado é que, um mês após, a ponte necessita novamente de reparos.

Diferente do meu tempo de criança, quando cada momento era gravado apenas em nossa memória e lembrança, hoje o reparo da ponte é registrado com fotos que logo chegam a muitas pessoas através das redes sociais. Desconfio até que o uso dessas imagens tem um objetivo político de promoção do vereador para o qual o referido morador trabalha. Esse mesmo vereador costuma referir-se às ações de seus adversários como “politicagem”. Mas, o que é politicagem? E o que é Política?

A TV Caroço Lança o quadro Se Liga! Um quadro que vai chamar a atenção da galera para todas as coisas que precisam ser discutidas e alertadas na nossa sociedade, o primeiro vídeo vem falando sobre politica e politicagem. Um alerta pra todos!!

Partindo do exemplo da pinguela, não aquela do interior de Seberi, mas essa de uma das capitais que já foi referência em serviços e políticas públicas para o mundo, podemos perceber que alguma coisa está errada.

Para que não haja politicagem é preciso que existam políticas e serviços públicos. Para que existam serviços é preciso que os órgãos da prefeitura funcionem e que os servidores públicos sejam qualificados e valorizados para a realização desses serviços. Infelizmente não é o que está ocorrendo em Porto Alegre. A administração pública está ausente, não realiza os serviços necessários, especialmente nas periferias; não qualifica e não valoriza os servidores e servidoras.

O que sobra? Onde não há Política no seu sentido pleno, de promoção do bem-comum, de atendimento a quem mais precisa, sobra a politicagem, a promoção pessoal de um vereador, de uma liderança, etc. Não é assim que se administra uma cidade, especialmente uma capital tão importante.

O Papa Francisco disparou contra a ordem mundial que fez do dinheiro “um ídolo” e lamentou que se destinem “somas escandalosas” de dinheiro para salvar aos bancos e só “a milésima parte” para resgatar refugiados ou imigrantes. “Quem governa então? O dinheiro. Como governa?

Para as pinguelas, ruas, água, esgoto, etc. são necessários serviços qualificados. Para a saúde, transporte, educação, etc. são necessárias políticas públicas com perspectiva de futuro. Somente a Política com P maiúsculo pode construir a cidade que desejamos e evitar a politicagem.