Boa parte do público dos intocáveis do mundo intelectual diz que a “a mídia manipula”, e é este mesmo público que usa do critério da mídia para achar quer os intocáveis são mesmo bons intelectuais. Sacaram?

 

“Os intocáveis” foi uma série de TV sobre o gangsterismo americano durante a Lei Seca, baseada em livro de 1947. A série foi exibida na TV americana entre o final dos anos de 1950 e o início dos anos 60. Vi na TV brasileira, não muito depois. Incrível aquilo. Por mais que o agente Eliot Ness cercasse os bandidos, eles sempre escapavam. Tinham protetores em baixos e altos escalões.

Eram de uma violência inaudita no trabalho de arrebanhar adeptos. Fora isso, corrompiam até o mais tenaz policial ou a mais pudica dona de casa. Em determinados momentos, o telespectador realmente ficava angustiado, pois a forma de serem ajudados chegava a dar a impressão de que nos Estados Unidos houve uma época em que os policiais haviam se tornado algozes de boa gente.

“Os intocáveis” marcou minha infância. Quando vejo coisas como “foro privilegiado” ou “palestrantes acima do bem e do mal”, quando vejo idolatrias, sinto calafrios. É como se Eliot Ness, o policial incorruptível, estivesse patinando novamente.

No mundo intelectual, ou quase isso, a intocabilidade não é só um mal moral, mas um erro fundamental do intelecto contra ele mesmo.

Toda blindagem intelectual contra alguém que fala, principalmente se feita pela claque de alguém, leva ao gangsterismo.

Não tínhamos tanto isso nos oitenta. Havia um certo gosto pela crítica e pela resposta. Nos anos noventa, isso da blindagem começou a aparecer. Agora, virou prática no Brasil.

Há palestrantes, piadistas, falando coisa conceitualmente errada, mas ninguém pode criticá-los. Eles são “os queridinhos da mídia”. A claque que os segue se agarra a eles para poder se ver como culta, já que estudar, esse pessoal não vai mesmo.

São os típicos filisteus da cultura, apontados por Hannah Arendt. Protegem seus palestrantes para se protegerem, para terem conforto diante do espelho. E isso leva à propagação e perpetuação do erro.

As pérolas dos novos intocáveis começa a se solidificar. Exemplo? Um deles inventou de cocoricar a tese dogmática, aparentemente democrática, de que não se deve criticar a democracia de modo radical, não se pode sair dela, é necessário sempre aperfeiçoá-la.

Os intocáveis não gostam de se confrontar com as teorias filosóficas

Nessa hora, não é possível levantar o dedo e pedir a palavra para dizer algo simples: quer dizer, professor intocável, que eu devo ler Platão para, logo em seguida, ficar contra ele? Ou nem devo ler Platão? Afinal, democrata ele não era. Aliás, sua cidade ideal, justa, era exatamente a cidade contrária àquela democracia que matou Sócrates. Ou seja, se eu puder pensar Platão a sério, estarei então defendendo um estado autoritário?

Desse modo, não posso estudar filosofia, não é? Pois tenho de ler posicionado, dogmaticamente a favor da democracia! No limite, esse tipo de professor, fica mesmo irritado quando outros, tão dogmáticos que ele, colocam no seu focinho a tese da “escola sem partido”.

O problema não é só os das questões do exemplo acima, o problema é que no Brasil de hoje querer criticar esses intocáveis é atrair para si, como Eliot Ness atraía, o ódio da claque dos G&S (Gângsters e Simpatizantes).

Não se pode falar deles, não se pode dizer que estão errados. Eles mesmos se calam, fingem não escutar. Sorrateiramente, inflam a claque contra os que criticam.

Os da claque gritam, batem pé, atacam de modo que não exista reação, por exemplo, dizendo que toda crítica ao intocável da vez é inveja. Assim fazem a blindagem. A regra deles é a seguinte: se qualquer expert em um assunto criticar o palestrante de sucesso na mídia, voltamos nossas baterias de canhões para a falta de sucesso na mídia do crítico.

Novo anti-intelectualismo

Assim, surge o velho anti-intelectualismo, que fez escola nos anos da Ditadura Militar: os professores pesquisadores, os professores de sala de aula, os professores que falam coisas complexas para um público específico, não são nada, são gente “sem sucesso”.

O sucesso não é obter mais o resultado da pesquisa, mas é o de não obter resultado nenhum e ficar conhecido. O filósofo Peter Sloterdijk tem falado sobre esse fenômeno de nossos tempos, no terceiro volume da Trilogia das Esferas, o Schäume (Espumas), que é da emergência do autor sem obra. Claro que há também o autor com meia obra. Ou o autor com obra fingida, aquele livro que é simplesmente a auto-ajuda produzida nas palestras – sendo que a tese inicial, acadêmica, ficou no passado, e talvez nem seja grande coisa.
Isso tudo tem um reflexo claro e ruim na juventude. O aluno que invade uma escola apoiado pelo palestrante dele, ou o aluno que vai lá bloquear a invasão, também apoiado pelo palestrante dele, são os considerados estudantes. Os alunos que ganharam as olimpíadas (inclusive internacionais) de matemática ou física, ou os alunos regulares que estão produzindo textos interessantes e não faltam em aula, não são nada.

O modelo de intelectual não é o daquele que estuda e, no silêncio dos laboratórios ou no silêncio dos grupos de pesquisa, resolve problemas ou equaciona novos problemas, mas é o do que não lê nada e fala muito. A mídia acaba dizendo o que é um professor, um intelectual. A boneca de Stand Up!

O outro, o professor mesmo, ganha pouco, rala o dia todo, cumpre seu horário (o palestrante nunca está na universidade, quando é professor, claro!), corrige provas, vira um chato por corrigir o aluno. Ora, isso não pode. Aluno é facilmente seduzido pelo palestrante da mídia, que ensina errado, ensina o fácil, e pede em troca a condição de intocável. E a obtém. Há nisso um tipo de pacto de mediocridade, entre seguidor e seguido.

Conheça mais ideias de Paulo Ghiraldelli (Programa do Jô)

Auto-ajuda e discursos de religiosos

Qual a diferença desse palestrante de auto-ajuda e o Padre Fábio ou o Padre Marcelo ou o Bispo Macedo? Um discurso racional? Errado. Há pouca diferença. Um discurso vazio, de senso comum, perto de um discurso aparentemente racional, não gera nenhuma diferença quando os dois são dogmáticos. Discurso dogmático é errado sempre, o que ele cria é sempre o não-pensante, o voluntário da gang de proteção dos intocáveis.

Os palestrantes tocam o pau: um que virou até ministro da Educação chegou a dizer que Lolita é um livro sobre estupro! Ora, falou de um livro famoso sem ter lido. Um outro, com freudiano cachimbo na boca, disse que Sócrates era “politicamente incorreto”, talvez nunca tenha visto o discurso do ateniense, no Críton, falando em favor das leis da cidade, mesmo após sua condenação.

Sem contar aquele com cara da hiena Hardy (de Lyppi & Hardy), que fala do eterno retorno de Nietzsche como se fosse a ideia de que a história é cíclica, um erro quase infantil. É o império do “falo qualquer coisa”.

Acha que estou errado nisso que escrevi? Calma! Espere! Antes de responder, comece a prestar a atenção então nos intocáveis. Comece a perceber como que na cozinha da casa deles, eles preparam seus blindadores.

Repare como que certa mídia, bem específica, os utiliza. Veja como eles transitam com facilidade onde forças bem conhecidas e organizadas estão em vigência.

Reparem que uma boa parte do público dos intocáveis diz que a “a mídia manipula”, e é este mesmo público que usa do critério da mídia para achar quer os intocáveis são mesmo bons intelectuais. Sacaram?
Algumas reações a este texto apenas o confirmarão. Querem ver?