Frágil origami. Talvez seja também como a música,
que se mostra encantadora e surpreendente no sutil
e imprevisível intervalo das notas, fronteira do improviso,
da brincadeira e da liberdade.

 

Havia um origami de elefante caído no meio-fio, perto de uma lixeira. Parei, olhando-o detidamente.

O papel estava manchado de batom. Aliás, marca de um beijo vermelho.

Peguei-o, percebendo que fora feito num papel de carta. Uma carta de amor, escrita numa caligrafia fina e nervosa, talvez de mulher.

O texto, absolutamente desencontrado, revelava o desespero de um amor irrealizado, de uma paixão que irrompera forte, destruída pelo tempo, pela falta de sentido da vida. Larguei o origami no chão, abandonando-o à própria sorte.

Fui-me com a certeza de que a vida, a nossa vida, lembra um origami, revelando em suas dobras, verdades e não verdades, ilusões, sonhos, esperanças e fracassos, tornando a visão linear impossível para quem quer que seja.

Os espaços abruptamente interrompidos, as dobraduras e as ousadas alternâncias geométricas dizem muito daquilo que somos, levando-me à crença de que a existência, de fato, é um origami…

Frágil origami.

Talvez seja também como a música, que se mostra encantadora e surpreendente no sutil e imprevisível intervalo das notas, fronteira do improviso, da brincadeira e da liberdade.