Imagine que você está sentada na sombra, alimentando seu filho de dois anos, tentando se refrescar um pouco e esperando alguns minutos para voltar ao trabalho. Um estranho se aproxima do seu bebê. Vai afagá-lo, pois o achou um bebê bonito. Você tinha certeza que ele era o mais lindo do mundo. Era, pois o estranho sacou uma lâmina e degolou a criança de apenas dois anos de idade. A vida do seu filho foi tirada no lugar que você acreditava ser o mais seguro: os seus braços.

Essa é a história de Sônia e Vitor Pinto e aconteceu há poucos dias, no dia 30 de dezembro de 2015, na rodoviária da cidade de Imbituba em Santa Catarina. Mas como uma história dessas não saiu em todos os veículos de comunicação? Porque não foi destaque na imprensa?

Porque Vitor era Kaingang. Sua mãe e o resto da família estavam na cidade para vender artesanato até o Carnaval e seu sofrimento parece não importar para o resto da população. Sua dor parece não importar para a imprensa nacional, que teria alterado sua programação inteira caso algo parecido acontecesse com uma criança branca.

O assassino foi preso no dia 1º de janeiro e aguarda a conclusão do inquérito policial. Classificado como frio e debochado Matheus de Ávila Silveira, 23 anos, se dizia satanista e amante da escuridão. Sua página no Facebook traz várias postagens que tratam destes assuntos. A polícia acredita que não se trata de crime étnico já que foi constatado que Matheus passa por graves problemas psicológicos.

Matheus, assim como Vitor, precisa de orações (para a entidade que você acreditar). De acordo com uma matéria escrita por Renan Antunes de Oliveira para o site Diário do Centro do Mundo, primos e tios do jovem afirmaram que ele, expulso de casa por ser homossexual, passava por graves transtornos e esperava atendimento psiquiátrico do posto de saúde do município. Quando foi preso vivia na rua e era alcoólatra e dependente químico antes da terceira década de vida, um ano mais novo que eu.

De acordo com os parentes, o jovem era espancado na rua pelo próprio irmão que não aceitava sua orientação sexual.  Ele sofria bullying na escola, por parte dos colegas que sem ter uma educação adequada, achavam que sua orientação era motivo para chacota e até agressões.

Ele já havia demonstrado desequilíbrio um ano atrás ao revidar o ataque verbal dos pais com violência, partindo para cima deles com uma faca. Ele foi preso e ao sair da cadeia foi expulso de casa, passando a morar nas ruas.

Vítor é vítima de uma pessoa doente e mais que isso: de uma sociedade doente. Que não lamenta a morte de um índio como lamenta a de um branco. Que não respeita a dor de uma família indígena como a de uma branca e que não se importa nenhum pouco com aqueles que sempre estiveram aqui e tem uma cultura lindíssima e que deve ser respeitada. Que não discute as condições que essas pessoas estão vivendo a mercê do mundo e sem qualquer amparo.

Matheus é vítima de uma sociedade intolerante e homofóbica, além de uma família que não lhe deu auxílio quando passou a demonstrar desequilíbrio. É ainda vítima de um sistema de saúde que não funciona e não lhe deu assistência, permitindo que ficasse fora de si a ponto de cometer algo desta proporção.

Para Vítor, nossas orações. Para Matheus, meu sentimento por sua história ter sido tão triste. Que a Justiça determine a melhor pena e que a mesma seja cumprida! Pois se fosse o contrário (um indígena degolasse uma criança branca) não tenho dúvidas que até música do plantão ia ter tocado alto nas emissoras.

Nada justifica a ação de Matheus. Com certeza ele não teria agido assim com uma criança branca e de olhos claros. Ele escolheu Vítor e sua mãe porque os estavam vulneráveis e desassistidos. Como todos os indígenas no Brasil.

Minhas orações ao curumim.