O sonho de sociedade onde não escolarizados, adolescentes,
jovens, mulheres, representantes da diversidade sexual, negros,
trabalhadoras domésticas, estudantes das classes sociais sem condições materiais,
sem casa, sem-terra e trabalhadores em geral tenham prioridade na atenção social
vem sofrendo duros golpes nos últimos três anos.

 

As pessoas sem as mínimas condições materiais não devem ser caracterizadas como problema, mas como ponto de partida para o aperfeiçoamento da vida humana. Esta tese foi testada no Brasil, no início do século XX e seu resultado foi positivo não apenas na dimensão material, mas especialmente na constituição de um clima (espiritualidade) positivo e otimista.

Nos últimos anos se avolumou a antítese, afirmando que os espaços de poder com maior reconhecimento social são para quem passou pelos critérios do mérito ou da meritocracia. Além disso, esta antítese, que se transformou em nova tese, responsabilizou as camadas sociais, que não possuem condições materiais mínimas, pela instabilidade moral e insegurança institucional que infestou nosso cotidiano.

Em outro artigo, defendo que “a sociedade atual está desintegrada e se desintegrando com o aumento dos conflitos e dos confrontos nas relações. Estes confrontos contribuem para o aumento da insegurança na dimensão pessoal e são indicadores de um declínio da nossa civilização.

Cuidados com as relações e comportamento humano – Israel Kujawa

 

O sonho de uma sociedade em que os não escolarizados, os adolescentes, os jovens, as mulheres, os representantes da diversidade sexual, os negros, os trabalhadores domésticos os estudantes das classes sociais sem condições materiais, os sem casa, os sem-terra e os trabalhadores em geral, tenham prioridade na atenção social, vem sofrendo duros golpes nos últimos três anos.

A vinculação entre crise moral e as camadas sociais, historicamente desatendidas pelo mercado e pelo estado, foi etiquetada, impregnada em grupos de pessoas e líderes que representam a defesa do aperfeiçoamento da vida social, a partir da inclusão incondicional e universal.

A substituição, polêmica e contraditória do comando político brasileiro, em 2016, e as reformas aprovadas no último ano são a materialização do divisionismo e da equivocada responsabilização moral dos setores que vinham tendo atenção prioritária.

A melhora da vida em sociedade passa por recolocar o foco das atenções e das prioridades nas pessoas, especialmente nas pessoas que não atingiram as condições materiais básicas para um desenvolvimento humano saudável.

Ao longo da história humana, muitos são os personagens que direta ou indiretamente focaram seus projetos de vida vinculados com a defesa de um justo compartilhamento dos bens materiais e espirituais.

Em decorrência da quantidade e do anonimato não é possível citar estes personagens, contudo, entre todos, um personagem localizado na mudança da época antiga para a medieval, merece ser destacado: Jesus Cristo. Este personagem marca a cronologia do nosso tempo, indicando que estamos no ano 2017 e seu representante máximo, no momento, é um argentino reconhecido pelo simbólico nome de Francisco.

A escolha em 2013 deste nome teve por finalidade identificar um dos personagens máximos do cristianismo, São Francisco de Assis, que esteve ao lado dos pobres.

A responsabilidade pela atual crise moral, que afeta o conjunto das pessoas, que afeta o conjunto das instituições vinculadas com a igreja, com o mercado e com o estado, não é causada pelas classes sociais com menos acesso material e cultural, muito menos por seus defensores.

Os últimos episódios indicam que um novo patamar da vida social, com um nível satisfatório de administração das instabilidades e das crises deve estar, portanto, com a centralidade das atenções nos setores sociais menos privilegiados, apontando caminhos que nos aproximem do sonho de uma vida social com condições igualitárias.

Antonio Mesquita Galvão afirma que “a ética, como ethos (bom comportamento moral vivido à luz do direito natural), não é vivida nem buscada, e, por configurar-se uma situação de injustiça, não há paz. “A justiça produzirá a paz!” (Is 32,17), ensinou o profeta. A falta de paz numa sociedade é indicador da ausência de justiça. E, nesse particular, ética e moral funcionam como colunas de justiça”.

Crise da ética e ausência de justiça: reflexões de 20 anos