O homem, diz Heidegger, é criador de mundos. Eu concordo com ele. A pergunta que fica no ar é: em que mundo você vive?

 

Tenho prazer em pensar perguntas sem respostas que sejam definitivas. É a mania dos filósofos, perguntar, lá onde o senso comum não vê problema algum.

Os teólogos também fazem perguntas essenciais, mas eles sempre são socorridos pelo além, pela revelação que vem de fora. O filósofo não. O filósofo está no limite da razão. No máximo pode ter intuições e inspirações humanas, demasiadas humanas, mas nunca divinas. O que lhe é limite é, contudo, sua grandeza.

Falar a partir do não absoluto é libertador, pois é com menos pretensão e responsabilidade nas costas.

Paulo Freire deixou explícita a sua consciência de que todo conhecimento é inacabado, no sentido de que é um processo que se desenvolve continuamente.

Pensar livremente, eis a primeira tentativa de dizer o que nos faz humanos, que remete a uma segunda. Errar também nos faz humanos.

Os animais não humanos não erram. Os animais não humanos são perfeitos e estão mais próximos de Deus do que dos humanos. Os humanos não, os humanos, erramos. Erramos episteme e moralmente. Erramos na emissão de opiniões e erramos quando pretendemos conhecer, inclusive cientificamente.

O que faz o avanço da ciência não é o conhecer comprovado, mas o erro e a falseabilidade que torna todo conhecimento, sempre provisório. Erramos moralmente. E como erramos moralmente! E é humano que assim seja.

Os que se acham bons são, a bem da verdade, risíveis. Eu rio dos que se dizem do “bem”, “nós do bem” etc. São dignos de pena os que se dizem “do bem”. Falta-lhe humildade, que é o que nos faz, verdadeiramente, humanos, pois viemos do “húmus”.

Rir é outra coisa que nos torna humanos. O humano é o único animal que ri. Rir nos faz humanos, porque rir é uma faculdade do espírito. O animal não humano não ri. Ele é perfeito. Nada lhe falta e nada há de sobra nele. Em nós não.

No humano o espírito nos torna livres, mas a liberdade instaura em nós a falha, o erro, o tropeço. E no tropeço, o riso. O palhaço é o que erra e no erro nós rimos. O palhaço está aí para nos recordar que somos humanos, falhos e contra a lógica. O riso é o tropeço na lógica.

O riso é também a nossa salvação. O bom humor nos salva. Humanos sérios demais, os executivos do mercado, ou os pragmáticos sisudos, são, sobretudo, inumanos. Eles se acham, mas são uns robôs…

Rir é a salvação. Rir, inclusive, dos que desferrem golpes querendo tirar o nosso bom humor… Imagine alguém querendo se enforcar. Se no ato de dar um chute na escada, para que o peso livre do corpo pressione a corda e o nó o sufoque, se nesse ato ele conseguir rir do que está fazendo, então, estará salvo…! Rir é o princípio da vida. Não leve a vida tão a sério, ria!

O que mais nos define como humanos? O pensamento? Mas animais também pensam. A linguagem? Mas animais não humanos também se comunicam. A sociabilidade e a politicidade? Mas animais também convivem e organizam a convivência. A moral e a religião? Os animais são até melhores do que nós na empatia, na ajuda e amor ao próximo… Religião? Haverá melhor religião do que fazer o que tem que ser feito? E os animais fazem com, perfeição, tudo o que fazem. Não seria isso um ato religioso de religamento com o ser primordial? Observe o voo de um pássaro ou a corrida de um leopardo, perfeição! Os animais são religiosos, sem hipocrisia…

O que nos define essencialmente? Não há resposta que seja definitiva para essa pergunta. Heidegger fala “no abert”, na condição de criadores de si e de mundos. A pedra não tem mundo, o animal é pobre de mundo.

O homem, diz Heidegger, é criador de mundos. Eu concordo com ele. A pergunta que fica no ar é: em que mundo você vive? O mundo em que vivemos é criação e responsabilidade nossa. Se não há satisfação nele, revolta-se! Se há satisfação, então desfrute. Ambos com moderação…!

O que nos faz humanos: Mário Sérgio Cortella, Monja Coen e Pepe Mujica.