Focar nas regras de convivência com a
participação dos alunos e criar um mapa de indisciplina
junto com outros colegas e gestores pode ajudar a prevenir
e eliminar as causas da indisciplina ativa.

 

Indisciplina, multiculturalidade e inclusão são temas que preocupam educadores no mundo todo.

No mês de julho deste ano, tive o prazer de dialogar com professores municipais na sede do CMP sobre esses temas e fiquei muito feliz ao saber que estratégias pedagógicas efetivas vem sendo adotadas também em Passo Fundo, RS. Menciono esse aspecto porque fui professora da referida rede até 2007, quando tive a oportunidade de vir trabalhar nos EUA, também como professora.

 

O CMP Sindicato (Sindicato dos Professores Municipais de Passo Fundo) desenvolve, pelo terceiro ano consecutivo, o projeto Saberes em Ciranda. Esta atividade formativa, voltada aos professores municipais, desenvolve uma metodologia onde o Cirandeiro (pessoa convidada para apresentar uma reflexão inicial) e os Cirandeiros (participantes que se inscrevem voluntariamente) fazem trocas de aprendizagens, dialogam de forma direta entre si e compartilham, ainda, de comida, alguma bebida (suco, chá ou refrigerante) e música ou poesia. Esta ideia nasceu porque os professores desejam participar de dinâmicas formativas onde sejam mais protagonistas do que meros ouvintes. Saberes em Ciranda envolve um grupo de 35 professores e professoras, tem duração de duas horas, realiza-se mensalmente e é um sucesso principalmente porque envolve a ideia da proximidade e aprendizagem professor para professor. O projeto é coordenado pelo professor Nei Alberto Pies, desde o início de sua implantação.

Durante os últimos dez anos, tenho conduzido reflexões comparativas sobre educação entre as Américas e esses temas tão importantes tanto no Brasil como nos EUA. Nesse artigo vou abordar a indisciplina. A definição de indisciplina pode ser teoricamente complexa ou reduzida “a ausência de disciplina”, sendo assim, pode ser simplificada a “desobediência ao conjunto de regrasde conduta impostas aos membros de uma coletividade”.

 

A indisciplina pode ser passiva ou ativa

Na manifestação passiva, os estudantes podem se recusar a participar de projetos, esperar o adulto que fiscaliza as regras estar ausente para ventilar suas idéias, cochichar, não copiar a matéria, entre outras formas menores.

 

O papel do professor mediador para enfrentar a indisciplina, as agressões físicas e conflitos nas escolas. Uma experiência na cidade de Baurú, SP.

Já, na manifestação ativa da indisciplina, existe confronto entre pessoas, questionamento das regras e desentendimento com o adulto responsável pelas mesmas, os exemplos mais comuns são discussões com colegas e professores, agressividade verbal e física, chegando ao ponto de interromper a aula.

 

Diferenças da educação brasileira e da educação norte-americana

No meu tempo de educadora brasileira há mais de dez anos atrás, relembro episódios frequentes de indisciplina ativa na minha sala e na sala de meus colegas, vamos dizer, a bagunça, as brigas, os bate-bocas.

No meu trabalho com estudantes nos EUA, não encontrei indisciplina ativa, mas sim passiva. As regras e o sistema norte-americano são tão firmes que os estudantes não expressam sua indisciplina. Sendo assim, também não expressam sua afetividade. Jamais presenciei uma bagunça, um bate-boca ou uma briga em sala de aula.

Isso não quer dizer que indisciplina ativa não exista aqui, mas ela é mais rara porque existem consequências pesadas e imediatas aos que quebram as regras, como expulsão, reprovação e até mesmo constrangimento público. Uma sala de aula em que não há reclamações, uma maravilha, certo?

Na verdade, essa supressão dos sentimentos, falta de afetividade e expressividade gera outros problemas. A preocupação aqui é com atiradores em massa. Estudantes que, ano após ano, reprimiram seus sentimentos, seguiram as regras e de repente explodem e perdem conexão com a realidade, pegam uma arma, matam seus colegas e professores e se matam. Esses episódios são tão frequentes nos EUA que preparação para enfrentar atiradores em massa, faz parte da formação de professores.

Reportagem da TV Band, do Brasil, sobre mudanças recentes na educação dos EUA, realizada em 2015.

Qual a alternativa para a indisciplina então? Nas minhas palestras agrupo os modelos educativos nas seguintes categorias: afetiva e criativa – Brasil, competitiva e eficiente – EUA e educação integral – Europa.

Tanto o modelo brasileiro como o americano apresentam seus prós e contras. Uma educação baseada na afetividade estimula a criatividade e a segurança dos estudantes, mas talvez crie dificuldades para controlar o andamento de certas atividades. Aqui meus colegas freireanos e montessorianos vão se apoiar na idéia que o controle não é necessário, que se deve ter autoridade sem ser autoritário, etc. Essa discussão vou deixar para um outro momento.

Uma educação regrada e competitiva, como nos EUA, contribui para o desenvolvimento do futuro profissional e da sociedade como um todo, mas ignora o desenvolvimento pessoal.

Assim sendo, gera depressão, mata a criatividade e é capaz de gerar traumas profundos. Já, a educação integral seria o modelo que creio ser mais adequado para o sucesso escolar. Na educação integral faz-se o mapa da indisciplina, incluindo diagnóstico, causas e estratégias, bem como trabalhando a disciplina (e não a indisciplina) em si mesma.

Envolver os estudantes na construção, implementação e avaliação das regras de convivência torna-se um dos métodos mais efetivos para reduzir as manifestações de indisciplina.

Alguns professores da rede municipal de Passo Fundo sabiamente já colocam essa idéia em prática desde o primeiro dia de aula. Quando surge algum problema com quebras de regras, uma estratégia seria formar um comitê para decidir ou julgar o caso, esse comitê inclui a participação dos próprios estudantes para decidir o que fazer com o estudante que quebrou a regra.

Quero apresentar algumas estratégias práticas que já utilizei para contornar ou amenizar problemas com disciplina. Tais sugestões seriam evitar as seguintes condutas enquanto educador: parar o grupo sempre que não obtêm êxito; usar termos negativos para respostas ou longas explanações; pensar que o problema é pessoal e os educandos estão contra você; presumir que existe somente um caminho para se chegar ao resultado final e; subestimar a capacidade dos alunos.

 

Como proceder na indisciplina ativa?

Inicialmente avalie a situação mentalmente, depois revise valores e o impacto no grande grupo, mas acima de tudo é importante que essa situação não seja ignorada, ampliada ou que sirva de influência para os demais alunos; escute e perceba as limitações ou potencialidades, seja empático, flexível e converse individualmente com cada integrante do grupo, cuidando para que não se sintam humilhados ou excluídos; organize trabalhos em grupos colocando estudantes com diferentes habilidades para compartilhar as tarefas.

Essas sugestões não eliminarão futuros problemas com indisciplina, portanto focar nas regras de convivência com a participação dos alunos e criar um mapa de indisciplina junto com outros colegas e gestores pode ajudar a prevenir e eliminar as causas da indisciplina ativa.

Acima de tudo, a afetividade da educação brasileira deve ser mantida e fortalecida, sempre que possível, pois educar exige coragem e amor.

Parabéns colegas educadores da rede municipal de Passo Fundo-RS.