Este depoimento é para lembrar a você, querido professor,
que sem amor nada conseguimos em sala de aula.
Educamos alunos preparados para concursos e o mercado,
mas nunca preparados para a vida.

Quando fui professora do terceiro ano do ensino fundamental I na Escola Municipal Sérgio de Oliveira Aguiar no município de Extremoz, Rio Grande do Norte, a minha turma era composta por quatorze crianças entre os seis e oito anos de idade. Eram quatro meninas e dez meninos.

No dia anterior ao meu primeiro dia de aula pintei a sala de cor branca e colei figuras feitas de EVA nas paredes. Limpei as janelas e o piso da sala.

Coloquei uma toalha e um vaso com flores em cima da mesa. Lembro-me de que o filósofo Michel de Montaigne fala que uma sala de aula deve ser acolhedora e ter janelas e vasos com flores. Escolhi livros na biblioteca e criei um cantinho para a leitura. Estava quase preparada para receber os meus alunos! Quase por quê? Porque eu me sentia ansiosa para ver aqueles rostinhos olhando para mim, eu não sabia como seria recebida pelas crianças.

Finalmente, o dia amanheceu e cheguei à sala de aula. Recebi os meus alunos com um sorriso no rosto e mais espantada do que eu estavam eles com a decoração da sala. Todos disseram um uníssono “Uau”. Os dias foram se passando e a gente aprendendo a conviver uns com os outros. A gente pintava, brincava, cantava, corria e estudava.

Os alunos disseram-me que antes ninguém brincava com eles em sala de aula, que a professora só fazia ensinar a matéria e pronto. Ela nunca nos contava uma história, disse um deles. O outro reclamou ainda “ela nunca brincou com a gente”. Pedi para que desenhassem eles brincando e falaram-me que não sabiam desenhar.

Eu disse que todo mundo sabe desenhar. Não existe desenho feio ou bonito. E os convenci a desenharem as suas brincadeiras”.

Um dos desenhos era um menino brincando de empinar papagaio. Os dias passaram-se e na semana seguinte eu os ensinei a fazer um papagaio. Começava assim as nossas aulas de artes.

Um dia, o Gabriel adoeceu na sala de aula e mandei chamar a sua mãe. Enquanto eu cuidava dele com carinho a mãe, brutalmente, entrou na sala e o levou para casa. Naquela tarde tive uma conversa com os meus alunos e eles me disseram que sentiam falta de abraços, de ouvir historinhas e de brincarem com os pais em casa.

Pensei: meus alunos estão precisando de amor e não somente aprenderem a fazer continhas. Acho que vou ensinar os dois para eles”.

Mas como ensinar o amor às crianças? Amando-as. Fazendo-as sentirem-se amadas. E foi o que eu fiz.

Que ser humano queremos ajudar a formar e como envolver a todos (ou muitos)  para que se incluam no projeto educativo proposto? A afetividade, impregnada pelo testemunho,  carrega os valores universais do respeito à alteridade, da solidariedade, da gratuidade, do cuidado do patrimônio social, do empenho pessoal pela justiça social.

Educação e relações de afetividade

No outro dia, cheguei na sala de aula com a ideia de criarmos um desenho animado onde todos participariam com as suas vozes e eu faria um bonequinho para cada um.

O nosso filminho se chamaria simplesmente “Meninos da praia”. As meninas não gostaram da ideia do nome do filme, porque eu só falava dos meninos, mas eu disse para elas que aquele nome acolhia a todos era apenas um jeito que escolhi de falar. Mas, preferi mudar o nome do filminho para “Crianças da praia”. E assim agradei a todos. Nós éramos democráticos. Tudo era submetido à votação.

Dessa forma começou o meu ensino com o amor e nunca mais parei de dá amor aos meus alunos. Eu levava flores para eles, criei o grupo de monitores que ajudavam àqueles que precisavam de reforço nos estudos, antes de terminar as nossas aulas cada um me dava um abraço de despedida e ensinei-lhes a desenhar.

A hora do desenho era a que eles mais gostavam, pois eu sempre dizia que cada pessoa desenha do seu jeito e levava desenhos de artistas do mundo inteiro para eles verem e se entusiasmarem.

Nunca apliquei avaliações com os meus alunos. Eles não precisavam ser avaliados. Sabiam produzir textos como nunca vi na minha vida, faziam poesias que era uma beleza e desenhavam príncipes, princesas e fadas como ninguém.

Eu nunca tive jeito para desenhos realistas, mas uma vez inventei de desenhar cada um deles. E eles gostaram da brincadeira de serem desenhados. Fizemos uma exposição na feira de ciências com os nossos desenhos que foi um sucesso.

Este depoimento é para lembrar a você, querido professor, que sem amor nada conseguimos em sala de aula. Educamos alunos preparados para concursos e o mercado, mas nunca preparados para a vida.

O amor em sala de aula é bastante importante.

A aprendizagem de uma criança acontece quando há desejo de aprender. Quando a família não vê o processo de aprendizagem como algo importante e a escola não faz investimento nesse aluno, fica difícil despertar nas crianças o desejo pelo saber, pois se todos desistiram dela porque ela não desistiria?

Educação e afeto – Ana M. Detoni

Os meus alunos faziam bagunça como todos os outros, mas a um simples gesto de emoção meu e eles silenciavam. A minha escola era pequena e muito simples, mas era o que eu tinha. Ensinei filosofia e inglês aos meus alunos mesmo sem constar da grade curricular. Queria que eles soubessem como enfrentar a vida quando adultos.

Eu me preocupava com os sentimentos dos meus alunos e quando eles mentiam para mim ficava triste. A mentira surgia sempre quando eles faltavam à aula.

O aluno Guilherme faltava bastante e os seus amiguinhos diziam que ele ficava brincando na rua quando não vinha à escola. No outro dia tive uma conversa franca com Guilherme e ele me falou que gostava de brincar na rua. Então, disse a ele que a partir daquele dia a gente ia correr na praia todas as sextas-feiras. A escola se localiza numa praia. Ele ficou feliz com a notícia e nunca mais faltou à aula.

A introdução da filosofia se deu quando um dos alunos veio me perguntar por que iriam pintar o muro da escola. Eu respondi que o muro estava com lodo. Ele me perguntou “O que é o lodo?, Por que nasce o lodo?” Eu vi que aquele porquê levaria a outros porquês e dei uma aula sobre o lodo. Foi linda a nossa aula! Surgiram as mais diferentes perguntas sobre o lodo! E nunca mais paramos de filosofar.

Eu tinha o Dudu, o Cadu e o Edu. Cada um com o seu jeito meigo de ser. O menino Edu gostava de continhas e produzia bastantes historinhas com apenas sete anos de idade. Era um grupinho fechado o dos Eduardos. Eles gostavam de brincar entre si.

O amor que eu dava aos meus alunos nunca era demais. Eu tinha o cuidado de levar chocolates para cada um deles, de repetir a explicação da atividade e fazia atividades individuais em seus cadernos todos os finais de aulas.

Eu tinha a missão de escrever quatorze tarefas distintas para cada um dos meus alunos todos os dias. As tarefas eram elaboradas de acordo com o desenvolvimento cognitivo de cada um.

Um dia, o aluno Igor me trouxe, de casa, um livro enorme de contos de fadas para que eu lesse para eles. Eu li o conto dos Três Porquinhos que marcou a nossa turma. Passaram a somente querer ouvir esse conto. Acho que eu imitava as vozes dos porquinhos de um jeito engraçado. Antes de começar as nossas aulas nós rezávamos um Pai Nosso e agradecíamos a Deus por estarmos ali. A música que nos marcou foi “Era uma vez” que cantávamos todos os dias.

Hoje faz onze anos que fui professora daquela turminha. E ontem recebi uma ligação de Guilherme que conta agora dezessete anos. Ele me disse que estava com um problema sério e que só tinha a mim para pedir ajuda. Por que eu, Guilherme? Porque a senhora foi a única pessoa que me amou nessa vida. O problema de Guilherme era coisa de adolescente, ainda bem. E lá fui eu dormir chorando, emocionada. O meu menino cresceu, pensei!

Na edição 300 da revista NOVA ESCOLA, convidamos o professor e filósofo Mario Sergio Cortella para ser entrevistado por três educadores da rede pública de ensino. Nesse vídeo, Cortella explica o papel da afetividade e vínculo com o professor para a aprendizagem do aluno.