Eu não sei porque Deus criou cajueiros,
mas eu acho que foi para ser amigo de uma menina
que morria de medo das pessoas grandes,
porque elas só têm garfos e facas na cabeça.

 

Na minha pequena casa de dois vãos não tinha vaso em cima da mesa como decoração. O que decorava a nossa casa era um cajueiro bem grandão, no quintal. Todo o mundo que chegava a minha casa ficava espantado com o meu cajueiro.

Ele era bem grandão mesmo! Eu tinha orgulho de dizer: é meu amigo! É meu amigo! E todos riam de mim. Quem já viu árvore ser amiga de gente? Era assim que pensavam meus familiares e algumas pessoas que visitavam a nossa casa.

Eu não sei porque Deus criou cajueiros, mas eu acho que foi para ser amigo de uma menina que morria de medo das pessoas grandes, porque elas só têm garfos e facas na cabeça.

Eu e meu cajueiro éramos um só. Às vezes eu até me sentia uma cajueira. Para quem nunca teve irmãos, nem amigos de verdade e precisava conviver com pessoas de mentira era preciso ter um cajueiro como amigo.

Talvez vocês não saibam, mas os cajueiros gostam de conversar de madrugada, e quase todas as noites eu abria a porta da cozinha bem devagarzinho para não fazer barulho e ia conversar com ele, eram conversas meio assim, sei lá, assim, conversas, é, eram conversas. Aí quando o dia amanhecia eu acordava com o grito da minha mãe:

– Dormiu de novo embaixo do cajueiro?

Ela me dava umas palmadas bem fortes na bunda para eu não repetir mais aquilo. Só que eu não suportava a voz do meu cajueiro me chamando de madrugada para ir ficar perto dele, porque mais medo tinha eu dele adoecer do que de levar umas palmadas de vez em quando. Então, um fazia companhia para o outro. A gente gostava de olhar à lua. Era assim: a gente só olhava. Nada mais.

A coisa mais difícil do mundo foi quando a vovó morreu. Ela morava bem longe. Eu tive que me arrumar às pressas. Nem tive tempo de me despedir do meu cajueiro. Fiquei três dias longe dele. Eu chorava a morte da vovó e chorava também a saudade do meu cajueiro. Nunca descobri por quem mais chorei de verdade.

Quando a gente ama alguém a coisa mais difícil desse mundo é ficar um minuto longe dessa pessoa, imagine três dias. Cheguei a perguntar ao sol se ele não estava atrasado para seu crepúsculo e a lua se ela não estava com sono.

Vovó foi enterrada e eu fiquei feliz com aquilo. Enquanto todos choravam eu tinha vontade de sorrir, agora podia voltar para perto do meu cajueiro. Bem, aí meu pai inventou de ficar mais uns dias perto do meu avô.

Para acabar com a saudade do meu cajueiro comecei a desenhar cajueiros de todos os tamanhos na parede da casa da minha avó morta ou da casa do meu avô vivo, como vocês preferirem. Levei uma surra bem boa por riscar as paredes branquinhas da casa dos meus avós.

Voltei para casa e a primeira coisa que fiz foi abraçar meu cajueiro. Quer dizer abraçar parte do tronco dele. Era um tronco bem grosso. Ele parecia com raiva de mim, não aceitou minhas desculpas, e eu como sabia fazê-lo sorrir comecei a fazer cócegas nas suas folhas. Então, ele sorriu muito pedindo para eu parar.

O cajueiro (Anacardium occidentale) é originário da região nordeste do Brasil. Existem dois tipos: o comum (ou gigante), que pode atingir entre 5 e 12 metros de altura, e o anão, com altura média de 4 metros.
O fruto do cajueiro, a castanha de caju, possui em seu interior uma amêndoa que, quando seca e torrada, é popularmente conhecida como castanha-de-caju. Além do fruto, a casca da árvore é também utilizada como adstringente e tônico. O tronco do cajueiro produz uma resina amarela, conhecida por goma do cajueiro, usada na indústria do papel até a indústria farmacêutica. Sua madeira, durável e de coloração rosada é também apreciada.
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Certa manhã, mamãe inventou de fazer uma faxina no meu quarto. Ela pegou meus sapatos pretos que tinham me acompanhado durante anos para jogar no lixo. Lixo?! Sim, iam para o lixo. Deixei que ela os colocasse na lata do lixo, mas de noitinha fui lá e tirei meus velhos sapatos pretos. Cavei um buraco embaixo do meu cajueiro e os enterrei lá.

Nesse dia, eu descobri que podia enterrar tudo embaixo do meu cajueiro e comecei a enterrar a minha tristeza de me achar diferente das outras crianças. Diziam que eu era uma menina muito esquisita: não falava quase nada, não brincava com ninguém, não comia direito e ainda passava horas a conversar com um cajueiro. Podia ser doença? As pessoas grandes inventam doença para tudo.

No outono, as folhas do meu cajueiro caíam bastante. Daí, eu pegava um saco de estopa e apanhava uma a uma. Depois escondia tudo no porão da nossa casa. Nunca contei isso para ninguém só para vocês estou contando agora, e não contem para mais ninguém. Já pensou se descobrem que no porão da minha casa está cheio de folhas secas de um cajueiro? Vão dizer que eu sou doida. E se doido não fosse chamado de doido, queria ser doida.

A gente aprende a gostar das coisas e nem sabe o motivo, só sabe que gosta.

Foi assim que aconteceu comigo. Eu gostava daquele cajueiro por demais. Gostava tanto que ficava feliz de verdade nos dias sem sol e sem chuva, aqueles dias que os meteorologistas não conseguem acertar como o tempo vai ficar. Era mais ou menos assim: gostava um tanto de mim, um tanto do papai, um tanto da mamãe e um tantão do meu cajueiro. Eu acho que ele sabia que eu gostava muito dele, não que eu tenha falado, sempre tive vergonha de falar o que sentia para as pessoas.

No dia do aniversário do meu cajueiro pendurei bolinhas de encher nos seus galhos, convidei os passarinhos para festa de aniversário e me vesti de palhaço. Mas eu não sabia que ele tinha medo de palhaços e o pobrezinho tomou um susto enorme de mim, um susto tão grande que começou a tossir sem parar. Os pássaros e eu ficamos preocupados, não sabíamos o que fazer. Um pardal, desesperado, me pediu para eu limpar o rosto e tirar a peruca. Quando meu cajueiro viu que era eu foi ficando calmo e a tosse diminuindo.

O medo é uma coisa meio desconhecida. Quem já viu ter medo de palhaço vocês podem pensar. Mas tem gente que tem medo de muita coisa, eu conheci uma pessoa que tinha muito medo de comer.

O meu cajueiro tinha medo de palhaços e pronto. Era preciso aceitar.

Em tempos de cajus eu só de propósito não chegava perto do meu cajueiro. Morria de inveja daqueles cajus bonitos, cheirosos, enormes. Eu queria ser uma castanha, ser filha do meu cajueiro.

As castanhas que cresciam rapidamente pareciam donas do mundo. Ah! Eu nem ligo! Não ligo mesmo! Você não tem seus cajus e suas castanhas então fique com eles. E eu me trancava no quarto a querer ler todos os livros do mundo numa só noite, de raiva e inveja.

Frutos do cajueiro.

Pedi ao papai para fazer um balanço de madeira pendurado no meu cajueiro e passei todas as tardes a me balançar pra lá e pra cá cantando músicas para ele. Eu me sentia uma cantora famosa!

Um dia, ele me pediu para parar de cantar, não aguentava mais a minha voz gasguita! Eu fiquei tão zangada que abandonei balanço, sandálias e tudo o mais. Saí andando apressada e tranquei a porta da cozinha na sua cara: praft!

Fiquei de mal do meu cajueiro. Como ele podia dizer aquilo de mim? Como ele ousava reclamar da minha voz? Ele também tinha um tronco tão horrível e eu nunca reclamei, tinha raízes tão feias e eu nunca reclamei. Ele era incompreensível ou sincero demais, seja como for isso não se faz com um amigo, pensei.

Para compensar sua falta diante de mim meu cajueiro começou a chorar todas as madrugadas, um choro que iniciou baixinho, depois foi aumentando, ficando alto por demais. Eu cobria minha cabeça com o travesseiro, mas aí era que ele gritava pra valer. Não aguentei mais. A saudade também já tinha comido parte do meu pé direito e se eu continuasse daquele jeito ia desaparecer em breve. Abri a porta devagarzinho e lá estava ele no meio do quintal, lindo, parecia o dono do mundo. Sorrimos um para o outro e eu corri para abraçá-lo diante do olhar da cerca do meu quintal.

Quando se tem um amigo de verdade não precisamos fazer muitas perguntas sobre a vida. Não sei se isso é bom ou ruim, porque a única coisa que me intrigava no mundo inteiro era essa história de que criança não sabe de nada.

Eu me sentia a menina mais sabida do mundo. Eu sabia onde moravam as estrelas e onde o sol dormia. Eu sabia onde os vaga-lumes brincavam e onde os pássaros escreviam poesias. Ninguém sabia que eu e meu cajueiro brincávamos de escolinha todas as tardes e que eu sempre ganhava dele nas contas de matemática.

“O mar é enorme.”, diziam as pessoas para mim. Mas, eu sabia que a maior coisa do mundo era o meu cajueiro! As pessoas não dão muita importância para um cajueiro, só quando ele dá muitos cajus gostosos para elas chuparem. Fora isso, um cajueiro é apenas um cajueiro. Uma árvore como outra qualquer. Mas, assim como as pessoas não são iguais, eu sabia que as plantas tinham cada uma algo que as diferenciava das outras. O meu cajueiro tinha a mania de dormir à tardinha e acordar no meio da madrugada com medo do escuro. A mamãe costumava apagar a luz do quintal para economizar energia. Isso era horrível nas noites sem lua cheia! O meu cajueiro entrava em pânico na escuridão. Sorte dele que, de vez em quando, apareciam bons vaga-lumes e iluminavam tudo.

Eu gostava muito de desenhar gatos sorrindo. Meus gatos eram todos pintados de preto. O meu cajueiro não entendia por que eu só tinha gatos pretos nos meus desenhos e me criticava. Mas, eu continuei sempre a desenhar gatos pretos. O meu cajueiro dizia também que gosto não se discute, se eu queria desenhar gatos pretos que desenhasse. A gente faz melhor quando faz o que gosta, dizia ele.

Tem planta que a gente compra para plantar e ficar bonita, tem planta que a gente ganha e tem outras que nascem no nosso quintal assim do nada.

O maior cajueiro do mundo está localizado no Rio Grande do Norte, na Praia de Pirangi do Norte, no município de Parnamirim, a cerca de doze quilômetros ao sul de Natal.
Foi plantado em 1888 pelo pescador Luís Inácio de Oliveira, sem nenhuma técnica ou cuidado especial. O cajueiro possui aproximadamente 8.500 metros quadrados de copa e foi registrado em 1994 no “Guiness Book: o livro dos recordes” como o maior do mundo.
Por que o cajueiro cresceu tanto? É incomum uma árvore ter proporções tão grandes. A conclusão que se chegou foi que o crescimento do cajueiro de Pirangi se deve a duas anomalias genéticas, que são: (1) os galhos crescem para os lados ao invés de para cima, como normalmente ocorre; (2) ao se curvar para o chão, pelo peso, os galhos começam a criar raízes e crescem novamente, de forma semelhante a novos troncos. Por isso, o cajueiro não é tão alto.
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Essa é a história do meu cajueiro. Ele não foi comprado, não foi presenteado, simplesmente nasceu ali. Mas e se ele tivesse vontade de conhecer outros locais, outras meninas, viajar, nadar? Eu tinha meus pés e minhas pernas que me levavam para conhecer o mundo todos os dias, mas meu cajueiro não podia andar. Perguntei a ele se tinha vontade de conhecer alguma coisa e fiquei espantada com a sua resposta: quero conhecer-me. Ora essa, e você não se conhece? Perguntei-lhe. Ele me disse que não muito. Achei aquilo tão estranho que toquei nele para ver se estava com febre foi quando encontrei o primeiro cupim dos milhões que estavam tomando conta do meu cajueiro.

Chamei papai e mamãe. Pedi pelo amor de Deus que eles chamassem o médico para tirar aqueles cupins do meu cajueiro. Mamãe disse que não era médico, mas biólogo. Seja como for médico ou biólogo chamem alguém para tirar esses cupins do meu cajueiro, por favor!

Vou lhes contar um segredo. Até hoje penso que aquilo foi invenção de papai e mamãe porque eles nunca chamaram ninguém para matar os cupins que estavam comendo meu cajueiro por dentro.

Coitado! Estava ficando oco! Por sorte, ainda não tinham chegado ao seu coração. Mas já tinham comido seu cérebro e ele nem me reconhecia mais. Para ele eu não passava de uma estranha.

Fui vestida de tristeza naquele dia. Meu cajueiro esqueceu de mim. Chorei todas as minhas lágrimas e depois as que me emprestaram os pássaros. Eu olhava para o meu cajueiro e ele olhava para mim, quieto, sem nem balançar um galho sequer.

Todas as noites, rezei a Deus para curar meu cajueiro. E todos os dias, pedia ao papai e a mamãe para salvarem meu cajueiro. E todos os dias eles me prometiam que iam fazer alguma coisa. Nunca faziam, nunca fizeram.

Eu ia à escola e ficava contando as horas para voltar pra casa rapidamente. Só queria ficar perto do meu cajueiro.

Naquela manhã, eu completava dez anos de idade, estava ficando uma mocinha, disseram. A aula terminou e corri para ver meu cajueiro. Abri a porta da cozinha da minha casa e encontrei um machado encostado à cerca de lenha, pedaços do tronco do meu cajueiro arrumados de um lado e suas folhas verdes e secas espalhadas por todo o quintal.

Morri? Não! Não!

A gente pensa que vai morrer quando perde alguém que ama, mas não morremos. A gente nasce para outro sol. Vivo à espera de um novo amigo e a única coisa que faço é pintar cajueiros para meninos e meninas há quase cinquenta anos.