Duas coisas impossibilitam avanços nos direitos humanos: a imbecilidade e o egoísmo. Defender os direitos humanos significa defender os humanos, todos os humanos, mas, sobretudo, os que são mais vulneráveis e mais propensos a serem tratados como fora do círculo dos direitos.

Gosto de uma frase de efeito. Admiro os frasistas e poetas, esses que dizem o que todos nós gostaríamos dizer, mas chegam antes. Uma boa frase vale mais do que um discurso inteiro. É como um gesto ou uma imagem que valem mil palavras, ou uma obra de arte que condensa universos paralelos. Ah uma bela e boa frase, todo escritor anda em busca de uma.

Há algumas belas frases que me encantam. Exemplo: quando duas pessoas pensam iguais, uma é dispensada; viva todos os dias como se fosse o último, um dia tu acertas; não importa o que fizeram de ti, o importante é o que tu fizer do que fizeram de ti; só sei que nada sei; a saudade é a presença da ausência; o que não mata, fortalece; a esperança é o sonho do homem acordado, etc.

Uma frase é bela quando ao ser pronunciada ou escrita o pensamento festeja. O que não faz rir e não faz pensar não pode ser uma bela frase. A bela frase desata o pensamento das cadeias do óbvio. De repente alguém junta as palavras como ninguém tinha feito até então e, bingo, eis a frase que estava esperando para se dita.

Gosto da frase que diz: os direitos humanos não são só para os humanos direitos. Essa frase dá o que pensar. Há uma narrativa conservadora e elitista que teima em se opor aos defensores dos direitos humanos dizendo que estes só defendem marginais, homossexuais, pobres, negros e excluídos. Os supostos críticos vêm com uma conversinha de que é necessário defender os “humanos direitos”, os que se comportam bem, os que não pressionam, os que não transgridem as normas da boa convivência e do status quo, as normas da tradição. Claro, eles, os conservadores, estão bem posicionados na escala social e por isso querem a todo custo manter o que tem. Nada há nada de incorreto nisso, se os seus direitos forem direitos e não privilégios.

Os direitos humanos são direitos que temos simplesmente por sermos humanos e por isso, claro, mesmo os ricos, bem constituídos e conformes com as tradições e os bons costumes, têm. Defender os direitos humanos significa defender os humanos, todos os humanos, mas, sobretudo, os que são mais vulneráveis e mais propensos a serem tratados como fora do círculo dos direitos.

Os estudiosos costumam classificar os direitos humanos em quatro gerações. A geração dos direitos individuais e civis, a geração dos direitos políticos, a geração dos direitos sociais e econômicos e a geração dos diretos de solidariedade e ecológicos.

Das quatro gerações, a menos garantida é a geração dos direitos sociais e econômicos. É aí que reside a maior parte da violação dos direitos humanos. São os direitos dos pobres e os direitos de reconhecimento das parcelas da sociedade que estão à margem por razões de sexo, cor e condições econômicas.

Os liberais conservadores não gostam que se diga, mas eles são conservadores e liberais exatamente por terem parado na primeira geração dos direitos e não se atualizaram e não incorporam as conquistas e avanços do século XX.

Pararam no século XVIII e por isso pensam que defender os homossexuais ou os pobres e negros é coisa de comunista. Quem para de ler, continua dizendo que direitos humanos é somente para os “humanos direitos” e para os direitos de propriedade. Duas coisas impossibilitam avanços nos direitos humanos: a imbecilidade e o egoísmo.