Famílias felizes têm o entendimento que é bom tocar, de que é bom abraçar, de que é saudável mimar-nos e mimar aos outros. São famílias amorosas, que distribuem todo o carinho que recebem e, sabiamente, generosamente, transcendem seus lares, transmitindo para a sociedade o que vivem.

Nós estamos doentes, consequentemente, as famílias também estão. Necessitamos de algo que nos alimente melhor, para conseguirmos vigor para os novos tempos tão desafiadores.

Famílias mais saudáveis deve ser meta viável, com propósitos densos e ditados pelas nossas necessidades humanas mais elementares. Para tanto, devemos cuidar de nós mesmos e cuidar dos outros sabendo perceber nossa biologia que, sabiamente, nos convida a ouvir, ver, cheirar, degustar e, principalmente, sentir na pele a nós mesmos e aos outros.

Provocar proximidade e contato é uma necessidade primordial em qualquer idade. Tocar com carinho e respeito é o alimento que nos falta, na medida em que constatamos essa carência. Somos capazes de proezas inimagináveis, podemos alcançar novos planetas, mas ainda ficamos constrangidos com o contato físico, ainda negamos abraços e beijos a quem vive conosco.

Quanto mais racionais somos, quanto mais estudamos, mais nos fechamos em nós mesmos. Quanto mais amigos virtuais conquistamos, mais solitários e carentes nos mostramos.

Temos à mão fontes de prazer que não custam nada e limitamo-nos a viver assepticamente, sem sentir a pele do nosso amor, sem sentir o cheiro dos nossos filhos. Fazemos contatos tímidos com nossos netos por medo de estragá-los com nossos mimos.

As famílias felizes têm a concepção de que é bom tocar, de que é bom abraçar, de que é saudável mimar-nos e mimar aos outros. São famílias amorosas, que distribuem todo o carinho que recebem e, sabiamente, generosamente, transcendem seus lares, transmitindo para a sociedade o que vivem.

Devemos parar de olhar para os problemas das famílias, que erroneamente chamamos de desestruturadas, por que todas elas têm uma estrutura, para investigarmos por que as famílias felizes conseguem driblar tão bem o consumismo, os vícios, conseguindo ser tão gentis e humanamente produtivas.

Certamente nossa investigação mostrará que não há nada de especial com elas, que não há pressupostos acadêmicos, nem necessariamente QI elevado, mas um potencial amoroso inerente, aprendido lá no berço.

O contrário também é verdadeiro, por que, uma família violenta também transcende suas paredes, leva para fora sua desgraça.

As escolas são um exemplo do que se pode fazer com as crianças. É lá que constatamos verdadeiras contendas físicas e psíquicas, na forma de agressões de toda ordem. As escolas são a vitrine do que acontece dentro das nossas casas.

Ashley Montagu radicaliza quando fala que nossas maternidades foram concebidas para servir ao obstetra e não à mãe, muito menos aos bebês. A constatação é feita para alertar-nos de que devemos ouvir nossa natureza, aconchegar nossos bebês, ficar com a criança junto ao corpo, repudiando a distância que os berçários impõem no momento mais importante da vida.

Estudos contemporâneos mostram que sempre estaremos carentes de proximidade, sempre necessitaremos sentir o corpo das outras pessoas, por mais velhinhos que sejamos. Montagu reproduz em Tocar: o significado humano da pele, um bilhete que uma mulher de 90 anos escreve para as enfermeiras:

“Velha ranzinza
O corpo em ruínas. A graça e a energia desaparecidas.
Hoje há uma pedra onde antes havia um coração.
Mas dentro dessa velha carcaça, uma mocinha ainda existe.
E vez e outra incha este velho coração.
Lembro-me da dor, e me recordo das alegrias
E estou viva e consigo amar, por inteiro, novamente.
E penso que nada durará.
Por isso, abram os olhos, enfermeiras, abram os olhos e vejam
Não uma mulher ranzinza
Olhem mais de perto. Vejam a mim.”

O sonho de termos famílias felizes é possível, desde que façamos do amor algo concreto, palpável e não um lugar comum cantado em verso e em proza, sem substância. Nossas famílias serão uma linda realidade se levarmos em conta outra máxima de Montagu: “ … humanizar-se é viver aprendendo e sendo cada vez mais gentilmente amorosos.”