Escolas estão desencantadas porque falta arte. Com pouca arte,
há pouco humanismo nas escolas, há pouco afeto, há pouca ternura.
Este desencanto resulta de uma visão da educação “para vencer”, para ter sucesso.
Escolas são lugares para a gente se humanizar.

 

Bartolomeu Campos de Queirós é um escritor da ternura e das metáforas. Estou lendo a conta-gotas o livro com seu nome, feito de inéditos selecionados por Ninfa Parreiras. Nos primeiros textos do livro, derrama-se de encantamento por sua infância e, na infância, a escola, a professora.

A gente lê Bartolomeu e vai montado em seu cavalo de palavras. Sentimos o perfume das flores de mato, levadas pelos alunos, sobre a mesa da professora. E acompanhamos o ditado, as “composições” corrigidas, a sua saudade da escola nos finais de semana.

Bartolomeu me leva de volta para perto da minha escola, das histórias, dos poucos livros, da paixão pela professora, das tarefas feitas à luz do lampião de querosene.

Nem eu, nem Bartolomeu, conseguiríamos entender o debate sobre o parecer do Conselho Estadual de Educação que pretende proibir a expulsão dos alunos da escola. Acho que toda a nossa geração, já longe dos bancos escolares, também não conseguirá entender. Também não conseguimos entender a violência contra os professores, a violência contra os alunos, os muros que rodeiam as escolas, policiais rondando os pátios escolares.

 

O que aconteceu com a escola que perdeu o encantamento?

Uma pergunta difícil de responder.

O que eu posso dizer é que não agredimos o que amamos. E os alunos, em geral, não amam a escola. A pergunta poderia ser refeita. Por qual razão se detesta tanto a escola a ponto de se precisar ser expulso dela? De se precisar ir obrigado.

Eu sempre vi a escola como espaço de criatividade, de arte, de liberdade, de sonho. Parece que as escolas de hoje se tornaram apenas espaço para se cumprir obrigações. O professor, com a obrigação de cumprir uma carga horária, de estar lá para cumprir o programa. O aluno com a obrigação de demonstrar o que aprendeu de modo quantitativo.

Nas escolas públicas, o foco passou a ser o desenvolvimento de conteúdo. Nas escolas privadas, a preparação para a aprovação no vestibular.

Falta sensibilidade nas escolas porque falta arte. E quando a arte está presente, é mais como conteúdo, não como fruição. Com pouca arte, há pouco humanismo nas escolas, há pouco afeto, há pouca ternura. E isso é resultado de uma visão da educação “para vencer”, para ter sucesso. Isso acontece desde a família, que espera de seu filho ser bem s sucedido socialmente.

A escola, então, vê-se obrigada a corresponder ás expectativas dos pais. E o que dizer da reforma do Ensino Médio, contrária ao que sempre se pensou sobre educação, focada na (de)formação para o mercado e não para ser pessoa?

O professor e escritor Nei Alberto Pies pensa que “muito antes de escolher sua profissão, o jovem estudante deveria ter o direito de conhecer o mundo do trabalho e as oportunidades profissionais que o mesmo poderá buscar para si. Deveria, também, ter o direito de direcionar os seus estudos a partir de suas habilidades e necessidades, sem abrir mão dos conhecimentos universais e fundantes da nossa civilização”. Veja mais.

Professores e alunos, em geral, parecem estar em campos opostos. Já não são parceiros, já não são companheiros de propostas. E de outro lado, temos uma sociedade que não valoriza o conhecimento estético, mas apenas o conhecimento funcional, para se ter resultados.

Falta afeto na escola e fora dela. Não acho que a escola deva expulsar um aluno. Se o aluno precisa ser educado dentro da escola, retirar da escola é uma punição que deseduca. Temos que repensar a escola destes tempos e para onde ela está indo.

Com certeza, os adolescentes não estão errados. Estão errados os adultos que inventaram uma escola que já não encanta mais.

Pablo Moreno fala da importância de Passo Fundo, Capital Nacional de Literatura. Veja.

Sobre o autor

Pablo Morenno vive em Passo Fundo, RS. Graduou-se em Filosofia e Direito. É servidor público do Tribunal Regional do Trabalho. Escreve literatura para crianças e jovens, com dez livros publicados. Escreve para jornais, revistas e páginas da internet.

Recebeu o Prêmio Mário Quintana em Crônica/2006 e Poesia/2007. Seu livro Flor de Guernica foi finalista do Prêmio Açorianos de 2010 e recebeu o Prêmio Livro do Ano de 2010 da Associação Gaúcha de Escritores. O mesmo livro, em nova edição, foi selecionado para o Catálogo da Feira do Livro de Bolonha de 2017, entre os 30 melhores livros para jovens publicados no Brasil em 2016.