Você já pensou como os trabalhadores e trabalhadoras se organizarão em defesa de seus direitos sem sindicatos? Ou com sindicatos frágeis, sem estrutura e sem dinheiro para organizarem as lutas e movimentos?

 

Nos últimos dias ouço falar muito sobre a lei que institui o fim da obrigatoriedade com o imposto sindical, inclusive vejo pessoas se posicionando a favor e outras contra nas redes sociais. Assim, senti-me desafiado a escrever a cerca desse tema que envolve a organização da sociedade. Isso implica em entender a luta de classes travada há muitos anos.

Para que minha escrita torne-se entendível me disponho a fazer um retrospecto histórico para que muitas pessoas, inclusive você que agora está lendo o meu texto, possam se dar conta que isso vai além do que apenas livrar o trabalhador do desconto. E começo com algumas perguntas: Você sabe o que é luta de classes? Você se enxerga de qual lado, daqueles que criaram a lei ou do lado daquele que com suor encara um dia de trabalho e pouco é valorizado?

Primeiramente, necessário entender que houve uma classe que só conquistou o direito de viver dignamente com batalhas e muito sangue e é dessa classe, que com clareza, eu me vejo inserido. Essa luta inicia aqui nessa terra, baseando-se nos anos de 1500, em que todos os indígenas viam a terra como sendo parte dela, para ilustrar trago a famosa frase por eles cultuada: “Somos da terra e ela é parte de nós”.

Um dos mais importantes manifestos ecológicos, a Carta do índio Seatle ao presidente americano que desejava comprar terras indígenas.

Com a chegada dos portugueses essa filosofia de vida cai por terra. A terra que era para todos passa a representar um triunfo por parte dos europeus. Com isso, havia uma necessidade de escravizá-los e isso perdura por muitos anos até que um dia a classe mais fraca, o índio, percebeu que necessitava se organizar para se defender. Surge então, a primeira organização social em busca de direito, Confederações dos Tamoios.

Sempre há em jogo um capital, que por consequência, representa o poder entre duas classes. Uma que suga e a outra que é sugada. E por isso, passamos por várias organizações sociais, a maioria delas com a terra representando o triunfo para o poder, porque esse de define com quem tem mais ou àquele que domina mais.

A Cabanada luta sangrenta e desumana, porém o povo do Pará não baixou a cabeça. A Balaiada que ocorreu no Maranhão contra o recrutamento do exército. Tivemos a histórica escravização dos negros que demanda luta até hoje, mas historicamente a organização que se rebelou contra essa desumana opressão foi o Zumbi dos Palmares e seu povo. Tivemos no Nordeste muitas lutas de classe e por terra, porém uma que merece destaque é Canudos. Nas décadas de 70, 80 e 90 tivemos um levante de lutas populares sociais que teve como fomento a igreja católica, na famosa organização das Comunidades Eclesiais de Bases (CEBs), tendo como luta travada em torno da divisão da terra dignamente e dos direitos fundamentais do cidadão. Com isso, nasce o MST (Movimento dos trabalhadores Sem Terra).

Nesse momento histórico a luta se estabelece contra o poder instituído e governamental. Nesse período, há que se dizer que os sindicatos dos trabalhadores tornam-se evidentes e fortes nessa época, tornando a principal arma contra os opressores.

Para entendermos um pouco esses movimentos, organizações sociais sempre pra se fortalecerem com os poderosos demandavam de ajuda, no caso a contribuição. E a ideia de quem está numa ponta do iceberg é destruir tudo o que tem possibilidade de dar poder a classe trabalhadora.

A contribuição sindical deixar de ser obrigatória é a destruição de um poder que os trabalhadores tinham e tem para que os direitos dos cidadãos pela educação, saúde, segurança e agricultura de subsistência sejam garantidos.

Com a lei impedindo que se arrecade, os sindicatos ficarão enfraquecidos e, por consequência, a classe trabalhadora não pressiona para que o governo preze pela classe que mais necessita. Por outro lado, fica fácil para o governo garantir os grandes investimentos para as empresas privadas, na grande maioria, aquelas que os elegeram e ajudam a se manter no poder esmagando a grande massa que depende do suporte do Estado. Com isso, as questões básicas e sociais do cidadão que paga o imposto ficam de lado, com a desculpa que não há dinheiro. Exemplo claro que estamos vivenciando no país e no estado.

Atitude vergonhosa! Não podemos ser ingênuos. Organizar um movimento de luta de garantias sociais custa dinheiro, por exemplo, levar os sindicalizados até a capital e garantir alimentos, hospedagem. Ou vocês que já, por vezes, hospedaram-se no CPERS acham que para manter isso tudo não depende de dinheiro? Sem contribuição sindical tira-se o poder de luta de qualquer sindicato. E aí, meus amigos, fácil os governos pintarem e bordarem com o dinheiro público.

 

Conheça e acompanhe o trabalho do combativo sindicato dos professores estaduais do Rio Grande do Sul, CPERS.

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É claro que o discurso usado não é esse, porque senão você encararia diferente. O discurso vendido e comprado, infelizmente, por muitos trabalhadores é que, torna-se absurdo obrigar que o trabalhador contribua “com esses sindicatos”.

Trago para compartilhar com vocês um texto maravilhoso que resume o que eu quero expressar sentimentalmente aqui. Esse texto chama-se O Povo de Eça de Queiroz:

 

 

O povo

“Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão. Estes homens são o POVO.

Estes homens estão sob o peso de calor e de sol, transidos pelas chuvas, roídos de frio, descalços, mal nutridos, lavram a terra, revolvem-na, gastam a sua vida, a sua força, para criar o pão, o alimento de todos. Estes são o POVO, e são os que nos ALIMENTAM.

Estes homens vivem nas fábricas, pálidos, doentes, sem família, sem doces noites, sem um olhar amigo que os console, sem ter o repouso do corpo e a expansão da alma, e fabricam o linho, o pano, a seda, os estofos. Estes homens são o POVO, e são os que nos VESTEM.

Estes homens vivem debaixo das minas, sem o sol e as doçuras consoladoras da Natureza, respiram mal, comendo pouco, sempre na véspera da morte, rotos, sujos, curvados, e extraem o metal, o minério, o cobre, o ferro, e toda a matéria das indústrias. Estes homens são o POVO, e são os que nos ENRIQUECEM.

Estes homens, nos tempos de lutas e crises, tomam as velhas armas da Pátria, e vão, dormindo mal, como machas terríveis, à neve, à chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nós conservemos o nosso descanso opulento. Estes homens são o POVO, e são os que nos DEFENDEM.

Estes homens formam as equipagens dos navios, são lenhadores, guardadores de gado, servos mal retribuídos e desprezados. Estes homens, são os que nos SERVEM. O POVO

“Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão. Estes homens são o POVO.

Estes homens estão sob o peso de calor e de sol, transidos pelas chuvas, roídos de frio, descalços, mal nutridos, lavram a terra, revolvem-na, gastam a sua vida, a sua força, para criar o pão, o alimento de todos. Estes são o POVO, e são os que nos ALIMENTAM.

Estes homens vivem nas fábricas, pálidos, doentes, sem família, sem doces noites, sem um olhar amigo que os console, sem ter o repouso do corpo e a expansão da alma, e fabricam o linho, o pano, a seda, os estofos. Estes homens são o POVO, e são os que nos VESTEM.

Estes homens vivem debaixo das minas, sem o sol e as doçuras consoladoras da Natureza, respiram mal, comendo pouco, sempre na véspera da morte, rotos, sujos, curvados, e extraem o metal, o minério, o cobre, o ferro, e toda a matéria das indústrias. Estes homens são o POVO, e são os que nos ENRIQUECEM.

Estes homens, nos tempos de lutas e crises, tomam as velhas armas da Pátria, e vão, dormindo mal, como machas terríveis, à neve, à chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nós conservemos o nosso descanso opulento. Estes homens são o POVO, e são os que nos DEFENDEM.

Estes homens formam as equipagens dos navios, são lenhadores, guardadores de gado, servos mal retribuídos e desprezados. Estes homens, são os que nos SERVEM.

E o mundo oficial, opulento, soberano, o que faz a estes homens que o vestem, que o alimentam, que o enriquecem, que o defendem, que o servem? Primeiro, despreza-os; não pensa neles, trata-os como se fossem bois; deixa-lhes apenas uma pequena porção dos seus trabalhos dolorosos, não lhes melhora a sorte, cerca-os de obstáculos e de dificuldades, forma-lhes em redor uma servidão que os prende e uma miséria que os esmaga, não lhes dá proteção; e, terrível coisa, não os instrui, deixa-lhes morrer a alma. É por isso que os que têm coração e alma, e amam a JUSTIÇA, devem lutar e combater PELO POVO.

E ainda que não sejam escutados, têm na amizade dele uma consolação suprema.”

Eça de Queirós (1845-1900)

Descubro e aprendo que sabedoria política e reconhecimento de classe não estão nos diplomas acumulados. Descobri isso com meu pai dias atrás. pois qual minha surpresa, ao chegar na casa do meu pai há poucos dias atrás, (há que se dizer que meu pai não sabe ler), disse-me: – “Pois é, então agora ficou do jeito que “eles” queriam, vão acabar com a organização social, pois para fazer pressão aos grandes na briga da fatia que toca aos pobres, ficou difícil. Agora, os governos que gostam de tirar direitos e massacrar o povo, ficou moleza”. Meu pai se referia ao fim da obrigatoriedade à contribuição sindical.

Ao ouvir isso de meu pai, fiquei por um lado encantado porque veio isso da boca do meu pai, porém, me dei conta, no exato momento, de que consciência política e reconhecimento de classe não vem de canudos (diplomas), tão pouco vem de pessoas que sabem ler, porque não foi o que ouvi de muitos meus colegas professores “letrados”.

Portanto, nem tudo o que sai da boca de quem faz e vota as leis é o que meramente devemos comprar, pois no caso do fim da contribuição sindical é mais um engodo desses governos neoliberais e opressores como temos hoje. Na verdade, é uma destruição da arma do povo que amedronta os que querem que a classe trabalhadora sustente as mordomias e as riquezas da minoria.