Deficiência e inclusão: vamos inverter um pouco os critérios?

114
Vivemos em uma sociedade onde a “normalidade” é vista como um ideal a ser buscado. Ser “normal” é tão impositivo, que acabamos por construir visões de mundo baseados neste critério. Porém, o que definiria a normalidade? Existe uma máxima que define: “de perto, ninguém é normal” (principalmente se tivéssemos acesso ao que as pessoas fazem quando estão sozinhas em seus espaços privados. Assim, em linhas gerais, quem seria normal de tivéssemos acesso aos seus pensamentos e vontades reprimidas?).

art1Em grande medida, o espaço público é um espaço onde tentamos manter uma aparência de “normalidade”. Tentamos nos manter invisíveis na multidão, agindo como a maioria e fazendo aquilo que esperamos que façam com a gente. Um entendimento inicial de normalidade segue a linha de se tornar invisível na multidão, como diria o sociólogo George Simmel, ser mais um na multidão das grandes cidades.

Ao final temos a impressão de que a “normalidade” realmente existe e toda a pessoa que foge deste princípio, deve ser rapidamente corrigida. Porém, esse entendimento que parece ser uma máxima organizadora do convívio social, possui consequências absurdas para qualquer pessoa que não tenha meios de se inserir dentro deste padrão socialmente estabelecido.

art2Esse é o caso dos deficientes, que possuem algum tipo de característica que os impedem de passar desapercebidos em meios aos demais. Assim, deixam rapidamente de serem considerados “pessoas normais”, invisíveis, passando a serem tratados como pessoas especiais (no sentido de pena e infantilização mesmo), tratadas como pessoas portadoras de algo (como se pudessem escolher portar algo ou não), pessoas que são vistas pelos demais comumente como “coitados” (o olhar, o gesto e até mesmo o tom de voz muda quando querem se dirigir a um deficiente). Uma ótima dica de filme francês que retrata bem desta postura indico a comédia Intocáveis (2012 – Direção Eric Toledano, Olivier Nakache).

art3As pessoas que pautam suas vidas pelo padrão de “normalidade” tem a tendência de olhar para as pessoas que possuem algum tipo de deficiência como se a vida daquela pessoa estivesse limitada e condenada a uma eterna dependência dos ditos “normais”. Mas ao contrário do que se pode pensar, os “normais” nem por isso deixam de estacionar seus lindos carros em vagas para deficientes. Quando interessa ao dito “normal”, ele muda rapidamente a lógica a seu favor, e questiona os privilégios que os idosos e deficientes possuem (afinal, é bem rapidinho, né?).

A minha proposta neste texto seria de romper essa normalidade moralista e altamente preconceituosa. Como discuto com meus alunos em aula, quem disse que as inúmeras deficiências existentes são necessariamente algo negativo? Quem definiu que ser “normal” é ter sorte, e quem nasceu com qualquer característica que fuja deste padrão é ter azar?

Como provocação intelectual dos padrões, proponho uma inversão de mentalidade, ou seja, uma quebra radical de PARADIGMA. Passamos agora a pensar que todas as pessoas que destoam do padrão de “normalidade”, serão consideradas pessoas de MUITA SORTE, pois possuem poderes que as pessoas normais não tem acesso. (Claro que corro o risco de ser romântico e passar um discurso de ilusão, ou mesmo de inverter de forma ingênua de que nascer diferente seja melhor em uma sociedade que descrevi acima como altamente preconceituosa), mas pretendo inverter o paradigma, na mesma forma com que está ocorrendo essa inversão na área da saúde infantil.

Crianças com câncer, que viviam em ambientes hospitalares e eram tratados como doentes, hoje se inverte esse pressuposto, e começam a tratar as crianças como se fossem heróis de revistas em quadrinhos:

A simples modificação de uma entendimento, faz toda a diferença em relação a auto-estima e postura frente as dificuldades. A realidade pode ser tão cruel para alguns, quanto mágica para outros, bastando uma simples inversão na forma com que vemos o mundo.

Assim, um simples exame que antes a criança precisava ser amarrada ou sedada para ficar calma, pode se transformar em uma experiência de máquina do tempo, ou mesmo a entrada em um campo de força que a fará mais forte e rápida em seus movimentos.

Nesta linha, começaremos a pensar essa inversão com as pessoas que nascem com limitações físicas, que nos ajudam a buscar sempre os elementos mais legais e dons especiais que resultam dessa inversão de perspectiva – do drama ao protagonismo do dom:

Deficientes auditivos

art4Acredito que esse poder seja muito interessante, já que todo o tipo de stress e violência de músicas, barulhos e gritos estão fora do seu cotidiano. O poder de focar sua atenção nas imagens e nos gestos e excluir do seu cotidiano a imensa quantidade de barulhos que nos despertam e nos dispersam. Elas podem ler um bom livro ou assistir um filme legendado ou traduzido em libras em meio a um caos de gritos, barulhos e distrações.

Alguns ainda possuem a possibilidade de usar um implante ou aparelho auditivo que os permite uma escolha altamente seletiva: Escolhem ligar ou desligar seu aparelho. Podem ter o poder de escutar ou não o mundo, tendo o poder de silenciar os chatos, os idiotas e deixar seus pensamentos livres de interferências externas. Além do poder do foco, possuem como dom a expressão corporal, seu rosto e postura falam e sentem em uma potência infinitamente mais sensível que as pessoas ditas “normais”.

Além disso, possuem o poder de comunicação das mãos. Suas mãos danças e comunicam o que muitas vezes as palavras deixam de dizer. Os movimentos formam palavras, frases e colocam qualquer Italiano no “chinelo” quando expressam tudo sem emitir um som, onde os olhos e a boca acompanham as mãos que em Libras traduzem o mundo de uma forma mágica.

Deficientes visuais

art5Também chamados de “cegos”, percebem o mundo pelo toque, pelo som e possuem um dos poderes mais especiais que posso pensar: São os únicos que não se deixam enganar pela aparência, não valorizam os elementos superficiais do mundo. Buscam a essência de tudo que conhecem, já que as formas são detalhes pequenos se comparados com o conteúdo manifesto das coisas.  Você está procurando sensibilidade? Esse é um dos maiores poderes de quem não vê o mundo com os olhos, mas com o ouvido, mãos e coração.

Já provaram que são heróis por vocação, explorados pela mente genial dos criadores dos heróis MARVEL, ilustra quadrinhos, séries e filmes com o nome tupiniquim de DEMOLIDOR:

Deficientes físicos

art6Tem o poder de utilizar a tecnologia das cadeiras para economizar energia para finalidades cerebrais e de contato humano. Também representado como líder mutante dos X-Man, reforçam a ideia de que a MARVEL é muito mais que uma simples empresa, ela descobriu que essa inversão de mentalidades é genial, ao corporificar a figura do professor Xavier:

Além disso, possuem o poder do UNIVERSAL. Transformam o entendimento de toda a sociedade em relação a palavra: Acessibilidade, que antes bastava um porta e uma escada, com o poder manifestado, agora precisamos entender que acesso deve sempre vir acompanhada da palavra: UNIVERSAL. Acesso Universal amplia a inclusão, um poder que poucos possuem.

Outro poder incrível é o momento em que levantam das cadeiras e utilizam a tecnologia para superar seus desafios. Recebem incrementos que os fazem correr mais rápido que os “normais”, causando medo nos recordistas olímpicos (Até chegar ao ponto de se negarem a correr com os deficientes, quem diria, não é?)

Ou mesmo, unem forças e desbravam os mares, que muitos ditos “normais” tem medo e insegurança de conhecer. Superam desafios, para provar cotidianamente que a vida só tem sentido quando superamos nossas próprias limitações (E quem não tem as suas próprias, não é?).

Enfim…

Poderíamos listar aqui uma infinidade de tipos de deficiências, e inverter esse paradigma. Mas da mesma forma que faço em minhas aulas, prefiro deixar que vocês que estão lendo, criar novos entendimentos sobre a deficiência. De forma autônoma, desafio você ser também capaz de identificar os poderes que todos os que não podem ser incluídos neste padrão superficial de “normalidade” possuem e oferecem ao mundo. Deixem seus comentários, críticas e opiniões sobre novas formas de encarar as deficiências… vamos romper as dualidades simplistas e tão pesadas para os que estão fora do comum.

Para os que ainda teimam em achar argumentos para defender a “normalidade”, fica o recado do Contardo Galligaris.

art7