No dia em que Chapeuzinho Novermelho completou dezoito anos, sua mãe decidiu presenteá-la com a Certidão de Emancipação.

– Assim ficará dona de si, falou para seus botões.

Feliz com o presente, prontamente foi ao banco para retirar, mediante Procuração, a aposentadoria de sua vó. Quase esquecida de todos, a nona morava num bairro muito distante e já não tinha mais condições de tomar um ônibus para sacar a aposentadoria.  A neta, de ora em diante, faria o trabalho para a vó. Foi daí que planejou mudar as coisas, buscando humanizar as relações com a dama da melhor idade. Pensando alto disse para si:

– Se comprar faz bem, é hora de fazer um rancho completo, reformar o guarda-roupa, comprar algumas joias. A vó ficará tão contente!

Repetidamente, dizia às amigas:

– Como não há mal que sempre dure e nem bem que não tenha fim, um dia choverá em minha horta.  Enfim!

Ainda muito dentro dos seus sonhos, Novermelho produziu-se toda. Vestindo a melhor roupa e calçando o salto mais alto, muito linda ela ficou. Porém, antes de sair de casa, mais uma vez teve que ouvir os eternos conselhos da mãe:

– Minha filhinha do coração, ao falar com estranhos, por favor, não liga prá conversa fácil. Em caso perigo iminente, segura o tchã com rédeas curtas, amarrando-o com uma camisinha de força.

Novervelho tinha um coração muito grande, mas, nestas situações, ficava bocuda e intolerante:

– Não enche o saco, mãe! Sei muito bem o que devo fazer. Estou emancipada. Não te deste conta?!…

Na fila do banco, Novervelho brilhava como as pedras preciosas e como flores, embelezava e perfumava o ambiente. Lobato viu tudo e não se conteve. Louco de paixão a primeira vista, disse para si mesmo:

– Até que enfim encontrei a mulher ideal, isto é, a dos meus sonhos!

Lobato vestia um terno verde e bem alinhado. Tinha um corte de cabelos curtos. Pele linda. Lábios carnudos.

– Um verdadeiro príncipe! Doce como mel. Um perfil de homem sedutor, diziam as amiga de Novermelho sobre Lobato.

Tomando coragem, o homem aproximou-se de Novermelho, pedindo licença para presenteá-la com um coquetel de palavras mágicas e regadas com o perfume de rosas silvestres.  Ela permitiu.

– Pois não.

– Princesa dos meus sonhos! Podes crer que és mais linda do que as rosas, mais preciosa do que os diamantes e mais encantadora do que o arco-íris!

Estranhando a ousadia do homem e tocada pela força das palavras, Novermelho, quase nada conseguiu falar. Ao sair do banco, pôs-se a radiografá-lo com olhares verticais.  Viu-o fraco, frágil e trêmulo nas mãos, nas pernas e nos lábios. Mas o amor pareceu-lhe ter vindo tão íntimo e tão à flor da pele. E ele continuava sua luta com as palavras:

– Milhares de olhares voltam-se para ti.  No entanto, meus olhos e meu coração podem ver tuas duas almas: a de fora e de dentro.

Daí veio um pequeno silêncio. Depois, raros olhares, dispersos e difusos. Enfim, a realidade. E ficaram. Decidiram ir ao shopping para passeio e compras. Não àquele indicado pela mãe de Novermelho. Foi daí que Lobato propôs:

– Conheço coisa melhor. O outro é menos perigoso, mais próximo, moderno e repleto de espelhos.

Lá subiram e desceram pelas escadas de Babel. Viajaram pelos labirintos de Borges. Subiram para o céu de Zeus e desceram para o “hades” de Dante.  E tudo foi tão rápido! Assim que deu, em si, nada conseguiu comprar, como prometera a si às outras. Iludida com seu homem e com seu baixo poder de compras, pensou três vezes e disse:

– Teu plano foi lobático!  Vejo que, apesar da passagem do tempo e do vento, homens e mulheres continuam repetindo a antiga história de Chapeuzinho Vermelho.

– Será mesmo! Nunca pensei nisso, disse Lobato.

Novermelho disse para si mesma:

– Capitu tinha lá suas razões!

Era uma vez uma mulher que ficou com um homem que nunca mais a quis.