Na segunda entrevista da série “Profissões Educadoras”, vamos conhecer um pouco do trabalho de Julio Renato Lancellotti, 67 anos, formado em Pedagogia, com especialização em Orientação Educacional e Teologia, padre católico, militante de direitos humanos, vigário do povo de rua e coordenador do Centro de Defesa de Direitos Humanos Pe. Ezequiel Ramim na cidade de São Paulo.

Vocação, missão ou destino? O que leva padre Julio a se dedicar aos que “ninguém quer” como ele mesmo se refere? Não encontrei  resposta, mas encontrei nas ações e palavras do padre Julio poesia, força, fé e um amor incondicional pelos marginalizados, pelas minorias. Ele reparte pão, cobertor, acolhida e luta mas, principalmente, procura oferecer um pouco de dignidade e cidadania ao povo da rua. Como Francisco de Assis pedia “pregue o evangelho em todo tempo. Se necessário, use palavras”, assim percebo nosso entrevistado, contido nas palavras, mas um gigante em ações que realiza nas ruas de São Paulo, pregando igualdade e amor ao próximo. O padre se diz em casa junto aos que não têm casa.

Julio assim se define: “velho, celibatário, penso que incomodo pelas posições que tenho e pelo que aprendo dos mais pobres e indesejáveis. Carrego muitas cicatrizes e dores na vida. Tenho saudades dos que amo e findaram sua caminhada. Gosto de ler, amo meus livros que são meus companheiros, fico muitas horas sozinho, gosto de ser padre, defendo e estou ao lado das minorias e dos discriminados. Quando estou com os que ninguém quer me sinto acolhido” declara.

 

Márcia Machado: Quando o senhor ingressou na vida religiosa? O que o levou a optar pelo sacerdócio?

Pe. Julio: Sou padre há 31 anos, sempre quis, desde pequeno, a decisão de ser padre foi minha com apoio, ajuda e exemplo de Dom Paulo Evaristo Arns e Dom Luciano Mendes de Almeida. A decisão foi construída, discernida e vivenciada num processo continuo que só acaba quando acaba a vida.

Márcia Machado: Fale um pouco sobre seu trabalho paroquial e pastoral.

julio-lancelotti-2Pe. Julio: Meu trabalho na paróquia é caminhar com o povo, celebrar, batizar, testemunhar casamentos, confessar, aprender e ensinar, alimentar a esperança, acolher, estar em momentos de morte e doença, sonhar e cantar, chorar, caminhar cair e levantar, não desistir, ser consolado e consolar. Articular, vivenciar conflito, perder e reencontrar.

Márcia Machado: Vivemos um período em que há um clamor por ética e moralidade no país e tais questões passam também pela questão espiritual do sujeito. Nesse contexto, quais os principais desafios do religioso hoje?

Pe. Julio: Estar ao lado dos pobres e esquecidos, seguir Jesus sem medo da Cruz, andar por caminhos perigosos e ir ao encontro dos feridos e esquecidos. Testemunhar a capacidade de amar e de enfrentar impossibilidades sem desanimar.

Márcia Machado: O papa Francisco tem oferecido uma abertura maior à igreja católica, tratando temas como homossexualidade e aborto. Mas principalmente mostrando que a igreja tem que estar junto ao povo, aos menos favorecidos. Como o senhor avalia esse atual momento da igreja católica?

Pe. Julio: Este momento é de primavera em meio a tempestades, é tempo de coragem e misericórdia, de acolher e abrir as portas, de ser mais humano e não julgar. É tempo de se dar.

Márcia Machado: Além de teólogo o senhor é formado em pedagogia e foi professor primário e universitário. Como o padre contribui com o educador e vice-versa?

Pe. Julio: Contribuiu  muito na pedagogia da fé, na simplicidade de aprender e ensinar, de não dogmatizar, de fazer caminho e caminhar.

Márcia Machado: O senhor sempre dedicou-se ao trabalho social. Como surgiu esse interesse em contribuir e defender populações marginalizadas?

Pe. Julio: Caminho sem volta, caminho de opção, de convicção, de reconhecer que não se pode ser cristão sem estar ao lado dos evitados, esquecidos e abandonados.

Márcia Machado: Fale sobre o seu trabalho com crianças e adolescentes.

Pe. Julio: Atuei na pastoral do Menor, na Casa Vida, com adolescentes privados de liberdade e massacrados, torturados. Sempre na defesa dos direitos humanos, atuei em várias rebeliões na antiga Febem.

Márcia Machado: O senhor também tua junto a grupos como menores infratores, detentos em liberdade assistida, pacientes com HIV/Aids, além de assistir populações de baixa renda e em situação de rua.  Numa sociedade onde impera o individualismo, como é realizar um trabalho visa que o bem-estar do outro?

Pe. Julio: Atuar ao lado de quem perde de quem não conta, estar do lado de quem é ferido e ser ferido também. Nunca ganhei, sempre perdi. Perdi tudo, só restou viver, lembrar, sorrir e chorar, restou acreditar que vale lutar mesmo sem nada restar.

Márcia Machado: Poderia destacar alguns programas nos quais atua?

Pe. Julio: Atuo na Pastoral de rua, nas lutas populares e autônomas, na defesa dos LGBT de rua, na convivência com os pobres na paróquia e nas lutas sociais.

Márcia Machado:  Um grande desafio hoje é trabalhar a questão da humanização do sujeito, como tornar as sociedades mais humanas, inclusivas, cuidando dos vulneráveis?

Pe. Julio: Os vulneráveis nos ajudam a superar com eles a desumanização, acolhendo e lendo os olhos que choram e sonham.

Márcia Machado: De que maneira sua experiência como educador contribui com o trabalho social que realiza?

Pe. Julio:  A transformação social é um processo de educação contínua para a solidariedade.

Márcia Machado: Em uma entrevista o senhor fala que a maioria dos moradores de rua passaram pela escola. Uma análise da atual educação brasileira. Quais os principais desafios? O que deveria melhorar e o que deveria ser priorizado?

Pe. Julio: A escola é uma reprodução da sociedade autoritária, por isso a primavera secundarista e as manifestações dos jovens são esperança, a escola como é hoje vai ser superada.

Márcia Machado: Ao se referir a primavera secundarista, o senhor acredita que esse movimento dará um novo norte à educação no país?

Pe. Julio: Esperamos que sim, superando toda manipulação e repressão.

Márcia Machado: O senhor acompanhou e apoiou junto com os moradores de rua a mobilização dos alunos pela CPI da Merenda em São Paulo, como foi aproximar tais movimentos na luta pela educação?

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Pe. Julio: Há uma aliança entre os que lutam por justiça. A solidariedade entre os que sofrem transforma e humaniza a luta.

Márcia Machado: Como é estar ao lado dos moradores de rua em momento como o que está ocorrendo, muitos morrendo em função dessa onda de frio, sem assistência, nas ruas de São Paulo?

Pe. Julio:  É resistir e insistir ao lado dos indesejáveis e descartados e com eles gritar sem cessar para que sejam ouvidos.

Márcia Machado: Em sua rede social o senhor denuncia a falta de políticas públicas, mas também observa a falta de “misericórdia” das pessoas com os que estão a mercê do frio nas ruas, como analisa essa falta de sensibilidade com o próximo?

 Pe. Julio:  Houve solidariedade de muitos, mas a burocracia do estado, congelado pela imobilidade, é incapaz de amar.

Márcia Machado: O senhor já recebeu vários prêmios por seu trabalho social e na defesa dos direitos humanos. Porém, qual o seu maior desejo em relação ao trabalho social e educacional que realiza?

Pe. Julio: O maior desejo é com o povo acorrentado quebrar todas as correntes, dançar e cantar a liberdade que mesmo que tarde há de chegar!

Márcia Machado: Uma frase que defina sua missão na sociedade.

Pe. Julio: “Deus escolheu os fracos para confundir os fortes” (São Paulo).

 

Fotos: Divulgação/Arquivo pessoal