Os três polos de um circuito artístico (autor-obra-público) devem, necessariamente, estar interligados? Alguns entendem que não. Postulam estes que a obra de arte (pintura, escultura, literatura, música etc.), uma vez produzida, autonomiza-se de tal forma que o autor não importa mais. Outros, como é o nosso caso, entendem diferente.

Que a obra pode até ganhar outros significados derivados da relação direta com o público. Mas, para sua compreensão plena, conhecermos o seu significado intencional, ou seja, aquele que o próprio autor quis conferir, sempre será imprescindível.

Nos dias de hoje, de hiper-interatividades, via mídias sociais, mais do que nunca é possível alcançarmos esta compreensão mais completa da obra de arte. Especialmente quando o artista se dispõe a se utilizar destas mídias para falar do processo criativo.

Caso de Manoel Soares Magalhães, jornalista, literato e pintor, cujo trabalho acompanha há quatro anos. Seus naifes de uma intensa, variada e por vezes surpreendente paleta pictórica, composições arrojadas, serenamente simétricas, porém uma rigorosa perspectiva nos escorços, por si só contam com encantos suficientes para nos enlevar e elevar.

Além de seus degradês esfumados, a técnica da paciência, precisão e perseverança, com a qual Manoel obtém suas passagens de luz e sombra. Mas, para além destes aspectos formais, o que também qualifica a obra de Manoel é a escolha dos temas.

Suas obras contemplam o imaginário de Simões Lopes Neto, recantos de Pelotas e outros lugares por onde o artista passou, evocações da infância, meninas lendo, arco-iris e, ultimamente, a revisitação aos clássicos. É aqui onde se revelam o poeta, o pensador, o observador atento e sensível, um humanista no mais elevado sentido da palavra. Parabéns aos idealizadores da presente amostra.

Autor: Arnoldo Walter Doberstein, doutor em História pela PUCRS, onde lecionou, entre outras a disciplina História da Cultura Artística. Autor dos livros Estatuária e Ideologia e Estatuários, Catolicismo e Gauchismo. Coordenador dos livros Emilio Sessa, Pintor – Primeiros Tempos e Emilio Sessa, Pintor Tempos Intermediários.