A notícia de que uma adolescente de 16 anos foi estuprada por mais de
30 homens no Rio de Janeiro e além disso teve imagens dessa violência
divulgadas na internet chocou os brasileiros nos últimos dias. A
indignação surgida após o ocorrido tomou as rodas de conversa, as
redes sociais e acabou pautando a grande mídia sobre um assunto ainda
considerado tabu nos lares brasileiros.

A cada onze minutos uma pessoa é violentada sexualmente no nosso país.
Esses dados assustadores foram declarados pelo estudo mais recente do
Ministério da Justiça, que aponta que 50 mil mulheres são estupradas
por ano no Brasil. Os números são apavorantes e correspondem a 26,1
estupros por grupo de 100 mil habitantes. No Rio Grande do Sul são
18,4, estupros por grupo de 100 mil habitantes. Esses números de
ocorrências registradas, por sua vez, não contemplam todos os casos
que acontecem. Milhares deles são abafados e ficam escondidos envoltos
em um mar de vergonha e culpa. Em até 65% dos casos o agressor é
familiar ou conhecido da vítima.

Filtro nas fotos, denúncia no Ministério Público, atos públicos ou
textão nas redes, o fato é que todos que se sentiram tocados pelo fato
precisaram externar de alguma maneira a sua indignação. E quando esse
crime tão comum (mas tão pouco comentado) vira assunto na mesa da
família tradicional, acaba sendo tão simplesmente para culpar a
vítima. Seja pela sua roupa, pelo local que estava, pelo seu passado.
A culpa é da mulher que disse não e não foi ouvida. É da mulher que
não teve sua escolha respeitada. A culpa é da mulher que teve seu
corpo invadido e sua alma dilacerada.

Essa culpabilização da vítima se deve ao fato de cultuarmos a
normalização e naturalização de situações de abuso como o estupro, por
exemplo. Portanto o que chamamos de cultura do estupro só é possível
por estarmos inseridos em um contexto com profunda desigualdade entre
os gêneros, a desumanização das mulheres e a objetificação de seus
corpos. Isso não é minha opinião, mas os fatos que a sociedade nos
confirma diariamente quando, por exemplo, dizemos que a culpa é dela
porque estava lá. Quando ensinamos que as meninas devem se esconder,
ao invés de ensinar aos meninos que devem receber consentimento antes
de fazer qualquer coisa.

A cultura do estupro está na nossas casas, todos os dias, quando o
corpo da mulher é usado em propagandas para vender cerveja, carro,
barra de cereal… Quando censuramos as roupas das meninas (que saia
curta!) ao invés de reprovar o menino que acredita que tem o direito
de enfiar sua mão dentro da roupa dela. Ou ainda quando os garotos, ao
receberem mais liberdade que as garotas, passam a sentir-se superiores
e em posição de tratá-las com violência verbal, física ou psicológica.

E o estupro está no topo dessas expressões de superioridade. É quando
alguém é violado a tal ponto que tem seu corpo invadido por um corpo
que não tem permissão para estar ali.

É o não sendo calado.

Vale lembrar que a legislação é clara e enquanto o atual governo não
aprovar qualquer retrocesso, segue sendo definido como estupro
“Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter
conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique
outro ato libidinoso”. Portanto se a moça do Rio disse que ia dar pra
boca inteira o fato é que na hora do vídeo ela estava desacordada e
outras pessoas tocaram seu corpo sem o seu consentimento.

Cultura do estupro é a rapidez com que uma barbárie como uma mulher
sendo abusada por 30 homens muda a versão para “ela que quis”, “ela
tava drogada, pediu”, estava bêbada” ou qualquer outra coisa que
minimize a culpa daquelas dezenas de homens que não respeitaram o
limite daquela mulher.

Como milhares de homens não respeitam o limite de nenhuma de nós. Seja
com a mão boba na balada, seja te obrigando a beijá-lo na festa para
poder passar, seja na encoxada no ônibus ou nas palavras de baixo
calão que somos obrigadas a ouvir todos os dias da nossa vida, pelo
simples fato de sermos mulher. Ou o professor que fica te elogiando e
usando da hierarquia acadêmica para pedir favores sexuais. Ou o colega
de faculdade que “tentou” transar mesmo quando você havia bebido
demais… E ainda ouvir que a culpa é nossa por tentarmos viver
normalmente e não deles, que se comportam como animais! Já pensou usar
os mesmos argumentos para justificar o porquê de um homem ter sido
estuprado? “Mas ele estava bêbado, drogado, sozinho ou a regata era
muito decotada, pediu!”

Sabe porque soa estranho?

Porque não está certo! Porque é desigual!

E desumano!

Esse desabafo é por todas elas.

Obs.: Homens que respeitam as mulheres e não propagam a cultura de
estupro: não percam tempo se ofendendo, já que essa conversa não é com
vocês. E ninguém se ofende pelo que não faz, não é?!

Foto: FEMMA Registros Fotográficos (por Fernanda Cacenote)